O mundo corporativo dos EUA só começou realmente a prestar atenção nas pensões após o estouro da bolha das pontocom, em 2000. Tanto as taxas de juros como os preços de ações despencaram, o que significa que o valor das obrigações com pensões aumentou, enquanto o valor dos ativos detidos para cumpri-las caiu. Uma série de grandes empresas em setores fracos, particularmente aço e transporte aéreo, faliu em grande parte por causa de sua incapacidade de cumprir suas obrigações com planos de pensão com benefício definido.

Como resultado, os EUA aceleraram seu afastamento das pensões com benefício definido (DB, pelas iniciais dos termos em inglês) rumo aos planos de aposentadoria com contribuição definida (DC, pelas iniciais dos termos em inglês), o que transfere o risco do investimento da empresa para o funcionário. Outrora um complemento para o planejamento de aposentadoria tradicional, os planos DC — simbolizados pelo onipresente 401(k) — já são atualmente os principais veículos de poupança para aposentadoria privada.

Embora a mudança para os planos com contribuição definida sem dúvida reduza as obrigações das empresas, ela aumentou a probabilidade de uma grande crise daqui a algum tempo, quando os baby boomers se aposentarem. Para começar, colocar decisões de investimento relativamente complexas nas mãos de indivíduos com pouco ou nenhum conhecimento financeiro é problemático. Pesquisas demonstram que a tomada de decisões é permeada por tendências comportamentais. (Até certo ponto, tendências podem ser compensadas estruturando adequadamente as opções. Por exemplo, tornar a adesão a um plano 401(k) a opção padrão — os funcionários devem escolher não aderir, em vez de aderir — aumentou substancialmente as inscrições nesses planos.)

Mais perigoso ainda é o fato de o foco ter se desviado da renda de aposentadoria para o retorno sobre o investimento. Isso ocorreu com a criação de planos DC geridos pelo poupador: agora as decisões de investimento estão concentradas no valor dos fundos, no retorno que eles proporcionam sobre o investimento e em quão voláteis são esses retornos. Ainda assim, a principal preocupação do poupador continua sendo a de sempre: será que terei renda suficiente na aposentadoria para viver confortavelmente? Claramente, as variáveis de risco e retorno que agora norteiam as decisões de investimento não estão sendo medidas em unidades que correspondam às metas de aposentadoria dos poupadores e sua probabilidade de alcançá-las. Por isso, não se pode dizer que os fundos dos poupadores estejam sendo bem geridos.

Nas páginas seguintes, vou analisar as consequências de medir e regulamentar o desempenho dos fundos de pensão como uma carteira convencional de investimento, explicar como os patrocinadores dos planos de aposentadoria (ou seja, os empregadores) e os gestores de investimento podem se envolver com os poupadores para oferecer-lhes escolhas significativas, e discutir as implicações para a regulamentação e os investimentos de pensão.

Essas recomendações valem mais diretamente para os EUA e o Reino Unido, que fizeram a mudança mais profunda entre os países desenvolvidos no sentido de colocar os riscos e as responsabilidades nas mãos de indivíduos. Mas a tendência rumo aos planos com contribuição definida está amplamente espalhada na Ásia, na Europa e na América Latina. Por isso, os princípios para proporcionar renda de aposentadoria valem para todos os lugares.

 

 

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Ativos x renda

Os planos de pensão tradicionais com benefício definido eram concebidos e geridos para fornecer aos membros uma renda garantida. E, como esse objetivo permeava todo o esquema, os membros pensavam em seus benefícios nesses termos. Pergunte a uma pessoa quanto vale sua pensão e ela responderá em termos de renda — “dois terços do meu salário final”, por exemplo. Da mesma forma, definimos benefícios do seguro social em termos de renda.

A linguagem do investimento com contribuição definida é muito diferente. Em sua maioria, os esquemas DC são projetados e operados como contas de investimento, e a comunicação com os poupadores é totalmente estruturada em termos de ativos e retornos. A métrica é o valor patrimonial, a prioridade é o crescimento e o risco é medido pela volatilidade dos valores dos ativos. As declarações anuais dos planos DC destacam o retorno dos investimentos e o valor da conta. Pergunte a uma pessoa quanto vale seu 401(k) e você ouvirá uma quantia em dinheiro e talvez uma lamentação por causa do valor perdido na crise financeira.

 

 

O problema é que o valor do investimento e a volatilidade dos ativos são simplesmente as medidas erradas se o seu objetivo é obter uma determinada renda futura. Comunicar-se com os poupadores nesses termos, portanto, é inútil — até enganador. Para ver o porquê, imagine que você é um indivíduo de 45 anos procurando garantir um nível específico de renda de aposentadoria a partir dos 65 anos. Vamos supor, para simplificar, que sabemos com certeza que você vai viver até os 85 anos. O ativo atual seguro, livre de risco, que garante sua meta é uma anuidade protegida da inflação que não lhe faz nenhum pagamento durante 20 anos e a partir daí paga a mesma quantia (ajustada pela inflação) a cada ano durante 20 anos. Se você tivesse dinheiro suficiente em sua conta de aposentadoria e quisesse garantir essa renda específica, a decisão óbvia seria comprar a anuidade.

Mas, pelas métricas de investimento convencionais, sua anuidade provavelmente pareceria muito arriscada. Como as taxas de juros sobem e descem, o valor de mercado das anuidades e de outros títulos de renda fixa de longo prazo, como obrigações do Tesouro dos EUA, flutua muito. Em 2012, por exemplo, havia uma distância de 30% entre o maior e o menor valor de mercado da anuidade para uma pessoa de 45 anos ao longo de 12 meses. No entanto, a renda que a anuidade fornecerá na aposentadoria não muda nada. Claramente, há uma grande desconexão entre o que é e o que não é arriscado no que se refere à forma como expressamos o valor da poupança para aposentadoria.

Infelizmente, essa desconexão está sendo agora codificada na regulamentação dos planos DC. As divulgações requeridas enf
atizam o valor patrimonial líquido e suas alterações. No interesse da proteção do consumidor, os regulamentadores da União Europeia já consideraram até a exigência de taxas mínimas de retorno das carteiras. Mas, se o objetivo é ter uma renda vitalícia depois dos 65 anos, o risco relevante é a incerteza da renda de aposentadoria, não o valor da carteira. Para proteger realmente os consumidores, tais “pisos” regulamentares deveriam ser especificados em termos de segurança do futuro fluxo de renda, não em valor de mercado desse fluxo.

No entanto, sob regulamentações que estabelecem um piso mínimo para o valor da carteira, os gestores de planos de aposentadoria não seriam autorizados a investir fundos dos poupadores em anuidades diferidas ou obrigações de longo prazo do Tesouro americano — justamente os ativos mais seguros em termos de renda de aposentadoria. Isso porque, se as taxas de juros subissem, seu preço (ou seja, seu valor de mercado) poderia facilmente cair abaixo do valor patrimonial mínimo exigido. Ironicamente, portanto, leis destinadas a proteger os consumidores teriam a consequência não intencional de proibir os poupadores de manter seus ativos de renda livres de risco.

Ao mesmo tempo, a lei encorajaria investimentos em ativos que são na verdade altamente arriscados em termos de renda. Os T-bills, títulos de curto prazo do Tesouro americano, são geralmente considerados ativos definitivamente sem risco. Nos últimos oito anos, os retornos em dólar dos T-bills foram estáveis e o valor principal ficou totalmente protegido. Mas, como ilustra o quadro “O significado real do risco na aposentadoria”, se examinarmos a unidade de medida que importa para o nosso consumidor — quanto o poupador receberia se o investimento fosse transformado em um fluxo de renda —, então os T-bills se mostrariam muito arriscados, quase tão voláteis quanto o mercado de ações.

Para entender o que isso significa, considere um indivíduo que planeja viver da renda de US$ 1 milhão investido em T-bills. Suponha que ele se aposente em um determinado ano e converta seus investimentos em uma anuidade protegida da inflação com um retorno de 4% a 5%. Ele receberá uma renda anual de US$ 40 mil a US$ 50 mil. Mas agora suponha que ele se aposente alguns anos depois, quando o retorno sobre a anuidade tenha caído para 0,5%. Sua renda anual será agora de apenas US$ 5 mil. Sim, o valor principal de US$ 1 milhão ficou totalmente protegido, mas ele não poderia viver com a quantia que receberia no segundo caso. Os
T-bills preservam o capital principal em todos os momentos, mas a renda que eles proporcionam pode ter uma variação enorme, conforme o retorno sobre a anuidade sobe ou desce. Se o aposentado tivesse comprado com seu US$ 1 milhão um título de longo prazo do Tesouro americano, sua renda disponível ficaria segura durante a vigência do título, mesmo que o preço desse título flutuasse substancialmente de um dia para outro. O mesmo vale para as anuidades: embora seu valor de mercado varie de um dia para outro, a renda de uma anuidade é garantida durante toda a vida do aposentado.

As sementes de uma crise de investimento foram lançadas. A única forma de evitar uma catástrofe é que participantes, profissionais e regulamentadores de planos mudem a mentalidade e as métricas, concentrando-se na renda e não no valor patrimonial.

Uma estratégia de investimento com foco na renda

Então, em que os planejadores de aposentadoria deveriam investir? Os detalhes são, naturalmente, um pouco técnicos, mas em geral eles deveriam continuar a seguir a teoria da carteira: o gestor investe numa combinação de ativos de risco (principalmente ações) e ativos livres de risco, com o equilíbrio entre eles se alterando ao longo do tempo para otimizar a probabilidade de alcançar a meta de investimento. A diferença é que o risco deve ser definido em termos de renda, e os ativos livres de risco devem ser anuidades diferidas indexadas pela inflação.

É importante notar que o gestor do fundo não precisa realmente comprometer o empregado com a compra de uma anuidade diferida, mas deve gerir a parte livre de risco da carteira de forma que, na aposentadoria, o empregado seja capaz de comprar uma anuidade que garanta sua meta de padrão de vida, independentemente do que possa acontecer nesse meio-tempo com as taxas de juros e a inflação.

Esse tipo de estratégia de investimento é chamado de “imunização”. É equivalente à forma como uma seguradora cobre um contrato de anuidade que ela tenha firmado ou como fundos de pensão cobrem suas obrigações de pagamentos futuros de aposentadoria para seus membros. O que os gestores de investimento muitas vezes não percebem é que a mesma estratégia pode ser usada para o investidor individual (para uma discussão mais detalhada, veja o quadro “Gestão de carteira: quando o objetivo é a renda”).

O que quero ressaltar é que já existe tecnologia financeira para investir contribuições individuais para aposentadoria dessa forma. Os empregados ainda obtêm um pote de dinheiro no momento em que se aposentam — e, com isso, mantêm a mesma liberdade de escolha sobre sua poupança para aposentadoria que têm no regime atual de contribuição definida. A diferença é que o valor do pote seria obtido com uma estratégia de investimento destinada a maximizar a probabilidade de alcançar o fluxo de renda desejado na aposentadoria. É claro que esse valor pode ser muito maior ou muito menor que o valor do pote obtido com uma estratégia de investimento voltada para a maximização da riqueza.

A mudança para uma estratégia de pensão concentrada na renda vai exigir alterações não só na forma como os provedores de planos de aposentadoria efetivamente investem o dinheiro, como também em como elas envolvem — e se comunicam com — os poupadores. Vamos ver o que está errado com a prática atual nesse aspecto.

Diálogo pouco significativo

No modelo DC convencional, o provedor pergunta ao empregado no início do compromisso quanto risco ele está disposto a assumir no investimento das economias acumuladas, o que basicamente estabelece restrições quanto às proporções investidas em títulos e ações. Muito frequentemente o empregado não se sente capaz de especificar um nível de risco ou uma meta de aposentadoria, por isso o provedor do plano faz suposições representativas e oferece um investimento padrão em um fundo mútuo que tenha um nível de risco considerado adequado para a faixa etária do empregado.

A partir desse momento, o diálogo entre o provedor e o poupador consiste em relatórios periódicos sobre o valor do fundo mútuo, os totais contribuídos, os retornos anuais alcançados e o tamanho da cota que o empregado tem do fundo. O empregado se sente feliz se o valor e os retornos forem positivos, mas ele normalmente tem pouca ou nenhuma ideia das implicações que esse desempenho pode ter para suas chances de manter seu padrão de vida na aposentadoria, medido pela renda — um resultado que, como demonstrei anteriormente, pode não ter nenhuma relação com os retornos sobre o investimento.

Quando empregados tentam se envolver com o planejamento e tomar decisões sobre sua aposentadoria, são muitas vezes confrontados com escolhas muito técnicas, ta
is como: “Qual proporção entre dívida e patrimônio você quer?” e “Quanta exposição a ações europeias com grande capitalização de mercado você quer?”. É mais ou menos como vendedores de carros perguntando a compradores qual taxa de compressão de motor eles querem. Alguns compradores podem saber que uma taxa alta é boa, mas muito poucos entendem exatamente o que isso significa: quantos quilômetros a mais por litro eles farão, o quanto mais rápido eles irão de zero a 100 km/h, ou até que ponto o carro será mais confiável que outro que tenha uma taxa menor. Mas consumo de combustível, velocidade e confiabilidade são os fatores com que os compradores de carros se preocupam.

A educação do consumidor é frequentemente proposta como um remédio, mas considero um exagero pedir que as pessoas obtenham conhecimentos financeiros suficientes para gerir todas as etapas de investimento necessárias para atingir suas metas de aposentadoria. Isso é um desafio até para os profissionais. Exigir que os empregados tomem decisões desse tipo é o mesmo que um fabricante de automóveis despejar um monte de componentes de um carro e um manual técnico na garagem do comprador com um bilhete dizendo: “Aqui está tudo de que você precisa para montar o carro. Se não funcionar, o problema é seu”.

A experiência também indica que o envolvimento do cliente na gestão do investimento não é necessariamente uma coisa boa. As pessoas que são induzidas a abrir uma conta de corretagem atrelada a suas contas individuais de aposentadoria muitas vezes se tornam bastante ativas investindo em sua aposentadoria, negociando ações ao redor do mundo por meio de seu computador depois do trabalho. Isso está longe de ser uma boa ideia: essas negociações de curto prazo não vão aumentar as chances do poupador de alcançar suas metas de aposentadoria — na verdade, vão reduzi-las.

Optar por não educar os clientes não é uma ideia radical. Muitos produtos tecnologicamente sofisticados são, na verdade, concebidos para minimizar os requisitos de aprendizagem por parte do usuário. Se você dirigisse um carro feito em 1955, o acelerador produziria a mesma sensação em seu pé que aquele de um carro atual. É claro que em 1955 o acelerador estava conectado a peças de metal que abriam o carburador. Hoje todas as conexões são eletrônicas, e você pode ativá-las com seu dedo. Os fabricantes de automóveis mantêm o pedal para que nos sintamos confortáveis — afinal, sempre empurramos o acelerador com o pé. Será que ao comprar seu próximo carro você gostaria de encontrar um joystick, em vez de um volante?

O importante é que precisamos ser realistas quanto ao que podemos esperar que as pessoas entendam. Em vez de tentar tornar os empregados mais inteligentes quanto a investimentos, precisamos criar um diálogo mais inteligente sobre como o provedor do plano ou seus agentes de gestão de investimento podem ajudá-los a alcançar seus objetivos. Vejamos agora como poderia ser esse diálogo.

Redefinindo o envolvimento do cliente

Para criar um envolvimento significativo com o planejamento de aposentadoria, um provedor de plano deve começar perguntando aos empregados não sobre risco, mas sobre suas expectativas quanto às necessidades de renda na aposentadoria.

Claramente, os empregados na faixa dos 20, 30 ou 40 anos não terão condições de ser muito específicos a respeito disso, mas provavelmente concordarão que uma meta razoável seria ter um padrão de vida mais ou menos igual ao dos cinco anos anteriores à aposentadoria. Essa seria, de fato, uma opção padrão plausível.

Uma vez acertadas as expectativas de trabalho, o provedor pode calcular as probabilidades de alcançar a meta de padrão de vida do empregado para determinados níveis de contribuição, expressos como porcentagem do salário, e para um determinado período de vida profissional. O provedor precisará, naturalmente, de mais informações, tais como o atual salário do empregado e os níveis salariais dos empregados que estão se aposentando, estimativas de taxas de juros e de inflação e expectativas de seguro social e de pensão com benefício definido. Mas todos esses dados podem ser obtidos do empregador ou de outras fontes, ou presumidos com base em indicadores do mercado financeiro disponíveis publicamente.

O cliente só precisa se preocupar com três coisas: suas metas de renda de aposentadoria, quanto de sua renda atual ele pode destinar para as contribuições e por quanto tempo ele pretende trabalhar. O único feedback que ele precisa de seu provedor é sua probabilidade de alcançar suas metas de renda. Ele não deve receber relatórios trimestrais a respeito dos retornos sobre seu investimento (históricos, atuais ou projetados) nem sobre a alocação atual de seus ativos. Esses são fatores importantes para alcançar o sucesso, mas não são dados significativos para as escolhas sobre renda que o cliente tem de fazer.

Suponha que o poupador descubra que tem 54% de chances de obter sua renda desejada na aposentadoria. Como uma alta taxa de colesterol, essa probabilidade relativamente baixa serve como um alerta. O que ele pode fazer para melhorar sua perspectiva? Há apenas três coisas: poupar mais, trabalhar por mais tempo, ou correr mais riscos. Essas são, portanto, as únicas decisões sobre as quais um poupador precisa pensar no contexto de aposentadoria. E essas escolhas têm impacto imediato. Se você economizar mais, levará um salário menor para casa. Se você decidir se aposentar com mais idade, terá de explicar essa decisão para sua família.

O diálogo concentrado na renda entre o provedor de investimento e o poupador deve continuar até depois da aposentadoria. Normalmente, os empregados começam a pensar mais seriamente sobre suas preferências específicas quando se aproxima o momento da aposentadoria. Nessa ocasião, eles têm uma noção muito melhor de seu estado de saúde, sua capacidade e disposição de continuar trabalhando depois da aposentadoria, quais responsabilidades têm com dependentes, se têm outras fontes de renda (como um cônjuge que trabalha), onde e como querem viver e outras coisas que gostariam de fazer com suas economias. Pode ser que eles já não queiram ater-se ao padrão de investir todo o seu pote de aposentadoria em uma anuidade, porque podem desejar ter condições de receber uma grande quantia de uma só vez em algum momento.

Perto da aposentadoria, o provedor e o futuro pensionista precisam refinar as metas. Uma boa forma de fazer isso é dividir as necessidades de renda em três categorias:

Categoria 1: renda mínima garantida. A renda nesta categoria precisa ser protegida da inflação e garantida para toda a vida, protegendo assim o aposentado do risco de longevidade, das flutuações das taxas de juros e da inflação. Benefícios do governo, tais como o seguro social, e quaisquer pensões com benefício definido seriam incluídos nesta categoria. Para aumentar o total de renda garantida além desses benefícios, o pensionista teria de comprar uma anuidade vitalícia, protegida da inflação, de uma seguradora altamente conceituada, o ativo “seguro” descrito anteriormente. Uma anuidade cujos pagamentos de renda cresçam conforme a taxa prevista de inflação pode também ser usada quando não está disponível uma proteção contra a inflação. A anuidade pode forne
cer um recurso de sobrevivência para o cônjuge, mas não proporcionaria nenhum outro benefício ou pagamento por morte.

A opção pela renda garantida tem desvantagens. Anuidades são inflexíveis e não permitem que nenhuma liquidez altere o fluxo de renda se as circunstâncias mudarem, se houver uma necessidade imprevista de uma grande quantia de dinheiro ou se o aposentado desejar deixar legados. Com razão, portanto, algumas pessoas se sentem desconfortáveis em usar todos os seus ativos para comprar uma anuidade livre de risco, principalmente se não têm economias adicionais, sem ser de aposentadoria, que lhes possam proporcionar alguma flexibilidade. Por isso, elas deveriam considerar a troca de alguma — mas não de toda a — renda futura garantida por alternativas que ofereçam maior flexibilidade.

Categoria 2: renda conservadoramente flexível. A alternativa mais flexível nos EUA, mas ainda relativamente segura, às anuidades é uma carteira de Títulos do Tesouro Protegidos da Inflação (conhecidos como Tips, pelas iniciais dos termos em inglês) que oferecem um pagamento periódico de renda protegida da inflação por um horizonte de tempo fixo, normalmente a expectativa de vida do participante no momento da aposentadoria. Tanto o rendimento proveniente de juros como o valor principal no vencimento de cada título da carteira são usados para o pagamento da renda, por isso não há capital residual após o fim da vigência.

Esse tipo conservador de renda adicional tem duas vantagens em relação à renda garantida. Como a poupança pode ser mantida em ativos líquidos do Tesouro dos EUA, ela está totalmente ou parcialmente disponível para o participante a qualquer momento, para emergências médicas ou outras grandes despesas. E quaisquer ativos existentes no fundo no momento da morte do pensionista estarão disponíveis para legados. A principal desvantagem, é claro, é que não há renda além do prazo de vigência. Ou seja, o aposentado assume o risco de viver por mais tempo do que a vigência do conjunto de ativos. (Os poupadores podem comprar contratos de anuidade diferida que não pagam nada até que cheguem a uma determinada idade avançada — por exemplo, 85 anos — para terem uma “cauda” de seguro de longevidade.)

 

GESTÃO DE CARTEIRA

Quando o objetivo é a renda

O que significa, na prática, mudar o foco do planejamento da aposentadoria, passando a concentrar-se em garantir uma renda vitalícia de aposentadoria e não em acumular o maior pote de dinheiro possível?

Provedores de planos, empregadores e poupadores devem adotar uma estratégia orientada pela responsabilidade. Como em um plano convencional, a poupança acumulada é distribuída entre uma carteira de risco bastante diversificada (composta por vários fundos mútuos de baixo custo) e títulos livres de risco. A principal diferença está na definição de um investimento “livre de risco” e na abordagem para assumir risco.

A carteira livre de risco. Pelo esquema proposto, o ativo de aposentadoria livre de risco é um título como o de dívida que não paga cupons até a data da aposentadoria e depois faz pagamentos fixos, ajustados pela inflação, a cada mês pelo resto da vida do aposentado. Como não é viável adquirir esse título, chamado de anuidade real diferida, antes que o empregado esteja prestes a se aposentar, o gestor do fundo cria uma cópia do ativo por meio de uma estratégia de negociação dinâmica que combina Títulos do Tesouro dos EUA Protegidos da Inflação (Tips) com vários vencimentos para refletir a estrutura de vencimento da renda de aposentadoria que o empregado pretende ter. Essa forma de usar a tecnologia financeira para combinar os retornos e fluxos de caixa de um título de referência é chamada de estratégia de carteira replicante e é amplamente usada há várias décadas, embora só recentemente nesta aplicação específica. A ideia é garantir que a quantia de dinheiro na carteira no momento da aposentadoria seja suficiente para comprar a anuidade diferida copiada, qualquer que seja a taxa de juros na ocasião. O aposentado, entretanto, não está obrigado a comprar a anuidade e pode usar os fundos da forma que escolher.

Equilibrando as carteiras. Diferentemente da prática mecânica de alocação de ativos, a abordagem defendida aqui só assume risco quando isso aumenta a chance de alcançar a meta de renda. E, depois que o objetivo é alcançado, assume o máximo de risco possível fora da carteira, evitando um cenário em que o poupador chegue a atingir seu objetivo, mas depois acabe ficando abaixo dele se os mercados caírem.

É importante notar que o valor de um pote de pensão gerido dessa forma será provavelmente muito volátil, porque o risco está sendo coberto para eliminar a volatilidade da renda, não a volatilidade dos preços. Por isso, uma boa comunicação com os poupadores é essencial.

 

 

Categoria 3: renda adicional desejada. Muitos participantes de planos DC vão descobrir que sua combinação pretendida de rendas conservadoras e garantidas, juntamente com ativos pessoais não vinculados a planos de pensão (como casas e contas bancárias) são suficientes para atingir todas as suas metas de aposentadoria. Nesse caso, eles podem alocar 100% do que tenham acumulado em DC para investimento em instrumentos financeiros relevantes (anuidades e fundos de títulos de renda fixa) para obter rendimentos adicionais garantidos e conservadores. Mas alguns participantes podem descobrir que sua renda total prevista e seus ativos não serão suficientes para financiar o nível de renda de aposentadoria que desejam. Nesse caso, eles podem querer aceitar uma renda menor agora (ou seja, aumentar a poupança) ou investir uma parte de seu total acumulado em DC em ativos de risco que tenham a possibilidade de proporcionar retornos suficientes para permitir que seja atingida uma renda maior de aposentadoria.

Poucos empregados terão condições de pagar um consultor financeiro em tempo integral. Por isso, um sistema eficaz de aposentadoria deve guiar os poupadores rumo a bons resultados de aposentadoria por meio de uma comunicação clara e significativa e da simplicidade de escolh
as, tanto durante a fase de acúmulo como de pagamento pós-aposentadoria.

Esta abordagem pode ser adotada hoje usando a tecnologia financeira existente de uma forma econômica e com escala. Por exemplo, eu desenvolvi, com a Dimensional Fund Advisors, um sistema desse tipo para interagir com clientes e instalei com sucesso essa solução em uma grande empresa holandesa em 2006.

Implicações para investidores e regulamentadores

Uma abordagem que usa produtos mais inteligentes, em vez de tentar tornar os consumidores mais inteligentes com relação às finanças, requer diferentes tipos de investimento e, em troca, muda a forma como é feita a supervisão regulamentar.

Pela regulamentação atual, os investimentos acumulados em DC são restritos em grande parte a ações, títulos de renda fixa, instrumentos do mercado monetário ou fundos mútuos formados por eles. O problema, como já vimos, é que esses tipos de investimento não podem oferecer segurança em termos de renda. Mudar para o tipo de estratégia de investimento orientada pela renda proposto aqui vai exigir uma tecnologia de investimento muito mais sofisticada, para a qual a abordagem existente de “educação e divulgação” em relação à regulamentação é claramente impraticável.

A alternativa lógica é colocar o ônus da fiscalização sobre a empresa patrocinadora do plano: o empregador do participante, que geralmente tem expertise financeira (ou acesso a ela) para avaliar as competências e os processos dos provedores de planos. Isso já está começando a ocorrer: a Lei de Proteção de Pensão de 2006, com sua possibilidade de exclusão voluntária e a criação de uma estratégia de investimento padrão para aqueles que não fazem uma seleção, encorajou empregadores a assumir um papel muito mais assertivo na gestão de planos DC. Será necessário, porém, mais do que isso.

Os poupadores, como um todo, devem dar boas-vindas a tais mudanças no status quo. Embora eu não faça pesquisa acadêmica sobre esta questão em particular, as evidências sugerem que as pessoas confiam em seus empregadores — certamente mais do que confiam em bancos, seguradoras ou corretoras. Transferindo a responsabilidade regulamentar de zelar pela qualidade do provedor e por produtos bem concebidos (mas não de garantir o desempenho do investimento) para os patrocinadores dos planos, portanto, parece ser uma política razoável, certamente mais razoável do que esperar que mesmo pessoas com bom nível educacional e alto QI leiam prospectos, avaliem desempenho passado e entendam estratégias financeiras complexas.

É RAZOÁVEL esperar que as pessoas contribuam para sua aposentadoria. Mas esperar que obtenham os conhecimentos necessários para investir sabiamente essa contribuição não é. Não iríamos querer que elas fizessem isso. Não queremos que um ocupado cirurgião gaste tempo aprendendo sobre negociações de imunização dinâmica, em vez de descobrir como salvar vidas, assim como não gostaríamos que profissionais qualificados de finanças gastassem tempo aprendendo a fazer uma cirurgia. Mas, a não ser que repensemos a forma como envolvemos os poupadores e investimos seu dinheiro, é exatamente nessa direção que estamos caminhando. Entendo que o que estou defendendo pode parecer perverso neste momento em que a confiança nas instituições financeiras — e na inovação financeira — está num nível tão baixo. Mas parece igualmente perverso negar aos poupadores os benefícios da tecnologia financeira. 

Robert C. Merton, laureado em 1997 com o Prêmio de Ciências Econômicas em Memória de Alfred Nobel, é professor de finanças da Loan School of Management do MIT. É também cientista residente na Dimensional Fund Advisors, uma empresa de gestão global de ativos com sede no Texas, e professor emérito na Harvard University.

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