Tese: adulto trapaceia menos e exibe comportamento mais “pró-social” quando diante de objetos que lembrem a infância, como ursinhos de pelúcia e giz de cera.

Estudo: Sreedhari Desai e a colega de pesquisa Francesca Gino submeteram voluntários a experimentos clássicos da psicologia; num desses jogos, um participante controlava quanto dinheiro os outros ganhavam e podia ganhar mais se mentisse. Metade dos voluntários foi colocada numa sala com brinquedos ou tomou parte em atividades infantis antes do jogo. Resultado? Mentiu menos e foi mais generosa do que o grupo de controle.
Dúvida: a simples presença de brinquedos pode mesmo fazer alguém agir com mais ética? Devíamos encher a empresa de bichinhos de pelúcia? Professora Desai, defenda seu estudo.
Desai: Em estudos que fizemos em laboratório, quando havia brinquedos por perto ou os voluntários assistiam a um desenho animado, digamos, o total de “trapaceiros” caía quase 20%. Várias vezes, usamos um jogo em que a pessoa tinha de dar as letras que faltavam para formar uma palavra. Quem fora submetido antes a pistas da infância era muito mais inclinado a formar palavras “morais” como “pureza” e “virtude”. Além disso, se portava melhor na presença de sinais da infância ainda que não estivesse particularmente feliz.
HBR: Esses jogos de laboratório às vezes parecem não ter qualquer relação com a realidade. Como saber se as pessoas se portarão melhor na vida real com base nisso?
Meu chefe no Centro de ética de Harvard, Larry Lessig, tinha a mesma dúvida. E me perguntou, sem rodeios, se eu poderia demonstrar o efeito em campo. O que fizemos, então, foi pegar um enorme repositório de informações de empresas, o KLD, e cruzá-lo com dados geográficos. Descobrimos que se houvesse cinco ou mais creches, jardins de infância ou escolinhas num raio de três quilômetros da sede da empresa, sua doação para causas filantrópicas aumentava muito.
Como vincular essas doações à existência de creches nas proximidades? Há uma série de variáveis em ação aqui.
Fizemos uma análise de regressão para controlar variáveis ​​ligadas à empresa: porte, idade, risco, desempenho. E também a densidade demográfica, pois estudos já mostraram que as pessoas se portam um pouco pior em lugares muito densos. E, mesmo controlando todos esses fatores, quanto mais creches e jardins houvesse, maior era a probabilidade de que a empresa se envolvesse em atividades filantrópicas. Foi muito interessante. Para quem faz trabalho de laboratório, foi legal ver o mesmo padrão de resultados em dados da vida real.
Na sua opinião, qual o mecanismo aqui?
Nossa hipótese se centra na ideia da pureza. Coisas que remetem à infância podem ativar inconscientemente a noção de bondade, podem nos levar a um estado puro e a não querer contaminá-lo. É só pensar: como pai, você se porta de modo distinto na frente dos filhos. Fala menos palavrão, quer que os outros também xinguem menos. Mas estamos vendo que não é só a presença da criança que faz com que nos sintamos assim — é a ideia da criança.
É que soa tão improvável que a mera presença de um giz de cera possa alterar o complexo comportamento de um adulto.
Há cada vez mais evidências. Em primatas, por exemplo. Os machos do macaco-de-gibraltar levam os filhotes para cima e para baixo para estimular a cooperação dentro do grupo, incluindo o “grooming” mútuo. A neurociência já mostrou que adultos liberam oxitocina quando expostos a crianças — e a oxitocina está ligada à conduta pró-social.
E faz diferença se o brinquedo é para bebês ou para crianças mais grandinhas?
Foi um nó difícil de desatar. Usamos pistas que faziam lembrar desde uma criança de poucos meses até oito ou nove aninhos. Podemos dizer com segurança que indicadores dentro dessa faixa pareciam funcionar. Mais além, não sabemos dizer.
Há alguma aplicação útil aqui? Devíamos colocar coisas de criança em salas de reuniões e áreas de trabalho?
Uma sugestão é instalar creches na sede da empresa. Além de deixar os pais mais tranquilos, isso poderia ter uma influência positiva na conduta de todos. Poderia levar a um clima mais ético. E pode ser que fotos de crianças nas baias de trabalho incentivassem as pessoas a agir melhor. Talvez a música do elevador, em vez da chatisse de sempre, devesse ter alguma ligação com a criançada. E se imprimíssemos em cores ou usássemos fontes coloridas em mensagens? Agiríamos com mais ética? Não sei, mas é possível.
Para onde vai sua pesquisa agora?
Em todos esses estudos, examinamos o comportamento financeiro, ético e pró-social. Agora, queremos analisar mais áreas sem caráter financeiro. Sinais indicadores de crianças de outras raças levariam a mais diversidade, a menos discriminação, a menos estereótipos? Outro rumo seria ver se traços infantis provocam algo. A criança tem certas características físicas — olhos grandes, testa ampla, queixo pequeno, corpinho rechonchudo. Será que achamos inconscientemente que empresas chefiadas por alguém com cara de bebê são menos inclinadas a despejar produtos químicos em rios ou cometer fraude? Para mim, esse é o lado escuro. É o mesmo com o marketing. Analisamos um monte de propagandas que usavam a criança de modo francamente bizarro: bebês tomando refrigerante, anúncios antigos de cigarro com crianças falando sobre a marca que o pai fumava, pequenos se barbeando, bebês investindo. Tem uma rede de fast-food cujo logo é uma menina de trancinhas. À luz desse estudo, o que dizer, agora, sobre o efeito que essa publicidade pode ter?
Há um ursinho de pelúcia nesta página. Estamos fazendo nossa parte para melhorar a conduta de dirigentes empresariais.
Ponha na capa! Imagine só o comportamento pró-social que iria criar na diretoria de empresas!               
Sreedhari Desai é membro do corpo de pesquisa do Edmond
J. Safra Center for Ethics da Harvard University, nos EUA, e professora assistente da Kenan-Flagler Business School (University of North Carolina, Chapel Hill), também nos EUA.

 

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