No mundo executivo, só motivação não basta. Valores e propósitos precisam ser compatíveis

 

Quando se vivencia muito de perto uma determinada realidade, aprendemos a interpretá-la sem muitas palavras. Ao longo da minha carreira, atuando por mais de 28 anos em Recursos Humanos, em especial nas áreas de outplacement e recrutamento e seleção de executivos, vi milhares de executivos ascender em suas carreiras. Qualificados e determinados, a teia corporativa ia tecendo sua trama e os talentos se movimentando rumo às suas vocações. De tempos em tempos, como era de se esperar, muitos recebiam propostas interessantes de trabalho.

Como não brilhar os olhos frente a um novo desafio, com forte apelo financeiro, motivação elevadíssima? Não nos cabe aqui julgar os movimentos que cada um faz em sua carreira. Todos nós cometemos erros, mesmo quando queremos acertar. Nosso convite aqui nesse ensaio é o da reflexão. Até porque a cada dia, a cada momento, a vida nos convida a tomar uma decisão. Estamos sempre fazendo escolhas. Na vida corporativa não é diferente. Diante de um convite promissor, o entusiasmo nos contagia. É natural.

No caso dos executivos que acompanhei de perto, muitos que aceitaram a mudança proposta fizeram uma nova história muito feliz e coroada de sucesso. Em uma análise mais severa, todos começaram esse novo caminho com entusiasmo, comprometimento e aderência junto à nova organização. Contudo, depois de um certo tempo, era possível visualizar três grupos distintos. Um, formado por executivos que tiveram sucesso no projeto que era proposto e sentiam-se realizados; um segundo grupo, que podemos chamar de “sobreviventes”,  e um terceiro, que acabava por deixar as empresas, tirando da experiência algumas lições de vida. É neste último grupo que pretendo me aprofundar aqui.  A maioria dos executivos desse terceiro grupo, buscou entender e compartilhar comigo os motivos da sua saída. Podemos dizer que mais de 90% dos motivos são intangíveis e não por performance.

Conversando sobre este tema com um grande amigo e profissional que respeito muito, Paolo Gallo, vice-presidente de Recursos Humanos do World Economic Forum, decidimos ir mais a fundo nesse tema e escrever um livro juntos, que será lançado em 2015. Independentemente  do País, economia,  segmento ou nacionalidade das empresas, compartilhamos da mesma visão: a falta de cuidado em escolher a empresa que mais se aproxima dos valores pessoais e a ausência de uma análise minuciosa  da  cultura da organização que se pretende ingressar são pontos muito relevantes nessas histórias mal sucedidas na vida executiva.

É preciso estudar em  profundidade o DNA da empresa que se decide abraçar. Ao entender que sua carreira é, de certa forma, seu propósito de vida, cada desafio envolve uma avaliação cuidadosa, onde tudo tem que ser levado em conta de forma verdadeira, sendo absolutamente honesto consigo mesmo. Ou seja, fica fácil perceber que em muitos casos, o que faltou foi um “due delligence” no processo. O ser verdadeiro consigo mesmo  demanda autoconhecimento,  clareza em relação aos seus próprios valores, conhecer seus pontos fortes e fracos, por exemplo.

É preciso saber se interpretar como um ser total. Interno e externo. Como me relaciono com os outros, qual minha capacidade de adaptação, como influencio os outros, lido bem com a diversidade? As vítimas do “canibalismo corporativo”, em geral, vão se perdendo no caminho. Em parte pela dificuldades de se comunicar ou de criar alianças, em parte por resistir à nova realidade, ter dificuldade de absorver as regras não escritas e não faladas, esses profissionais acabam por ficarem isolados. Sem esses canais conectados o que acaba acontecendo é um distanciamento entre o executivo e as demais pessoas. Acabam sendo convidados a buscar novos desafios em outras organizações. Às vezes, a pressão desse clima é tão grande, tão sufocante, que o próprio executivo precipita essa decisão e vai embora. A grande questão que sempre me deparo: o desgaste emocional é imenso, e,  muitas vezes, o executivo toma uma decisão de carreira de curto prazo só para se livrar da situação.

A pergunta que fica:  O quanto cada um de nós, independentemente de estarmos em um processo de mudança de empresa ou não, estamos fazendo a lição de casa quanto ao nosso mergulho no  autoconhecimento? Estamos firmes na  busca de nosso propósito? Trabalhando nossa capacidade de a cada dia melhor nos adaptarmos, aprendermos, contribuirmos e influenciarmos  e, ao mesmo tempo,  continuando fiel às nossas crenças e valores?

É um desafio pessoal.

Mas imprescindível para quem pretende vencer os outros, que a vida trará.

 

Karin Parodi é CEO da Career Center.

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