HBR: Em Sábado, há uma passagem na qual o protagonista trabalha em um estado de “fluxo”, como diriam psicólogos. Você chega lá ao escrever?

McEwan: Só de vez em quando, e involuntariamente. Nessa hora, todas as barreiras caem, sou transportado para fora de mim, fico submerso no momento e toda noção de tempo, até mesmo de emoção, desaparece. Em geral, é quando há algo difícil a enfrentar, um problema a resolver. Tirando coisas mais óbvias como sexo ou esquiar, acho que é uma das maiores formas de prazer disponíveis. Nada a ver com bens materiais, com ser rico, com ter sucesso. O prazer vem de se deixar absorver por completo em algo que lhe interessa e desafia.

Como começa seu processo de criação?

Tenho um grande caderno verde, desses com espiral, que vive sobre a mesa. Uso para rabiscar. Creio que começo um romance quando há algo dando voltas na minha mente, ou várias coisas ao mesmo tempo. O crítico e escritor inglês V.S. Pritchett usava uma expressão: “torpor determinado”. Um escritor precisa de torpor determinado. Precisa de silêncio, desse devaneio mental do qual brotam coisas. Personagens surgem à sua frente como se envoltos em uma névoa. É preciso decifrar certas frases. Às vezes, escrevo um parágrafo de abertura que sei que jamais terei de concluir, e a consciência disso me liberta, me faz seguir escrevendo. Nunca sinto que estou escolhendo um tema. É como se houvesse, em algum recôndito da minha mente, coisas que pedem minha atenção. De repente, me vejo trabalhando, imerso em algo que me tomará dois ou três anos. Isso sempre me fascina.

Li, contudo, que você é bastante disciplinado e rigoroso uma vez iniciado o processo.

Quando a coisa engata, em um bom dia posso compor entre 700 e mil palavras. No processo de criação, acho importante saber o valor de hesitar, de não ser afobado, de dar uma pausa — e não porque haja um bloqueio, não porque você não saiba o que fazer, mas só para deixar que as coisas enriqueçam. Em geral, ponho de molho o que estou fazendo justamente nos momentos em que creio saber exatamente o que fazer, mas não tenho muita fé nisso. Em vez de sair em desabalada carreira, resisto. Depois, retomo a coisa. Não acredito em despejar tudo no papel sem muito cuidado. É melhor acertar a mão já de primeira no máximo que puder.

Também li que você adora estar só.

Não é que seja uma necessidade avassaladora. Mas, durante o dia, preciso disso. Certa vez, o Christopher Hitchens me disse que felicidade era escrever o dia inteiro sabendo que à noite você estaria na companhia de um amigo. É exatamente isso. Se das 9 da manhã até as 7 da noite você puder estar sozinho e, então, for tomar um belo banho para ir ter um papo estimulante enquanto come e toma um bom vinho, diria que você está desfrutando de um dos grandes prazeres da civilização.

E como saber quando encerrar um livro?

Às vezes, passo o material a meus editores e digo: “Esta é a penúltima versão. Se tiverem alguma observação, a hora é agora”. Além disso, mostro o texto a minha mulher e a um ou dois amigos, para saber a opinião deles. Uma boa observação de um editor é aquela que instantaneamente reconheço como correta, como se fosse o que eu estivesse pensando desde o início. Se alguém diz algo que me faz agonizar sobre a questão, no final percebo que deveria simplesmente deixar a coisa como está.

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