Fictício, o Caso HBR traz dilemas vividos por líderes na vida real e soluções de especialistas.

 
Há muita vantagem em instalar a empresa num polo econômico na Coreia do Norte, onde a mão de obra é barata. Mas, e o custo humano?
 
— Veja bem, isso aqui é algo fora de série…
Presidente da fabricante de pulseiras de relógio Timepiece, Park Jeehee ouvia atentamente o guia, que dava a ela e à pequena equipe executiva que a acompanhava de-talhes sobre o Complexo Industrial de Kaesong (CIK), uma zona manufatureira sul-coreana encravada na Coreia do Norte.
 
— Como vocês podem ver, essa é uma operação sofisticada — emendou o guia. Apontando para funcionários de paletó que saíam de várias fábricas, acrescentou:
 
— O Complexo Industrial de Kaesong é um exemplo concreto da prosperidade que os coreanos podem ter se trabalharem juntos, pacificamente.
 
Sul-coreana que era, Park tinha lá suas dúvidas: crescera com medo do regime ao norte. Mas entendia por que a Hyundai Asan, braço do grupo sul-coreano Hyundai, tinha liderado, no começo da década de 2000, o esforço para desenvolver o CIK. O complexo, apoiado pelo governo das duas Coreias, tinha a meta de promover a “coexistência e a coprosperidade”: e, de fato, era a maior área de cooperação econômica entre as duas nações. Já tinha atraído mais de cem empresas, com dezenas de milhares de trabalhadores. Em geral, os sul-coreanos eram os gestores; os norte-corea­nos entravam com o grosso da mão de obra não qualificada e semiqualificada.
 
Park nunca parara para pensar em se instalar no CIK — até que um conhecido, presidente de uma empresa que transferira a produção para lá no ano anterior, sugeriu que fizesse uma visita. A viagem fora organizada por funcionários do governo, que queria atrair mais companhias para o complexo. Agora, Park e a equipe estavam ao norte da zona desmilitarizada, numa das cidades mais antigas do país, Kaesong (embora a menos de 70 quilômetros de Seul, era outro mundo).
 
Embora acompanhado a cada minuto, o grupo tinha vislumbrado, na véspera, algo da miséria do norte — o que deixara Park ainda mais em dúvida. Mas, ao circular pelo vasto complexo, inserido numa paisagem agrária tradicional, a executiva sentiu que o clima ali era realmente distinto do da Coreia do Norte que sempre imaginara. A força de trabalho parecia organizada e eficiente. As instalações de produção, embora básicas, eram modernas e estavam em bom estado. O centro empresarial tinha até sucursais de um banco sul-coreano e de uma popular loja de conveniência da Coreia do Sul.
 
— É bem impressionante — cochichou Park a Kim Jaehyun, o diretor financeiro, enquanto se aprontavam para a viagem de volta.
 
Kim assentiu com a cabeça. — Sem dúvida, faz a gente parar para pensar.
 
Teriam de pensar rápido: Park tinha uma reunião com o conselho da Timepiece na semana seguinte para dar seu parecer sobre o assunto.

Vantagens e riscos
Na manhã seguinte, de volta à sede da empresa no centro de Seul, Park dava goles num cappuccino enquanto fitava Kim, a sua frente à mesa. — Bom, agora que teve tempo para pensar, qual sua opinião, Kim? — perguntou.
 
— Olha, falei com outros diretores financeiros de empresas instaladas no complexo e, ao que parece, a economia com mão de obra e as cifras de produtividade nos folhetos do CIK não são mentira.
 
Park lembrou de ter lido, anos antes, que o salário mensal do trabalhador da Coreia do Norte no CIK era, em média, de US$ 57,50, bem menos do que o de gente com qualificação similar em Qingdao (US$ 100) e na cidade de Ho Chi Minh (US$ 134). Não haveria nenhuma barreira linguística e o transporte entre Seul e Kaesong custava bem menos e era bem mais fácil do que com a China ou o Vietnã.
 
— O risco ao capital também parece baixo — continuou Kim. — O governo sul-coreano garante até 90% do capital que investirmos. E temos acesso privilegiado a linhas de crédito a juros baixos. Por ora, o governo parece estar apostando no CIK como uma saída para envolver de forma pacífica o norte. Só que há outros riscos. Em várias ocasiões, a Coreia do Norte ameaçou colocar os trabalhadores em greve. E, no ano passado, cancelou unilateralmente todos os contratos e exigiu enormes reajustes salariais. Podíamos perder muito tempo e dinheiro se esse tipo de coisa continuar a acontecer. E temos de considerar o impacto de fabricar na Coreia do Norte em acordos comerciais e tarifários, pois o país é alvo de sanções internacionais. Exportar o que é fabricado no CIK pode ser problemático.
 
— É verdade — respondeu Park. — Mas as empresas já instaladas no complexo não parecem estar sofrendo com toda essa incerteza. E não é de hoje que empresas do mundo todo atuam em zonas politicamente instáveis, em geral com grande lucro. É só pegar a mineração e a perfuração de petróleo na África subsaariana. Não há ganho sem risco.
 
Primeiro, as pessoas
— Sinceramente, Jeehee, estou preocupado — disse Mark Lee, diretor de recursos humanos da Timepiece. Num gesto nervoso, mexia na pulseira do relógio, girando-a no pulso. — Você está tão ciente quanto eu dos problemas que isso pode trazer. Depois daquela morte no monte Kumgang e da prisão do funcionário da Hyundai, tenho um pouco de medo de mandar nossa gente para lá.
 
Dois anos antes, soldados norte-corea­nos tinham ferido à morte uma senhora numa excursão sul-coreana a um resort no norte. Mais recentemente, autoridades norte-coreanas tinham prendido um funcionário da Hyundai Asan em Kaesong por supostamente ter incentivado uma garçonete da Coreia do Norte a fugir com ele.
 
— Sem contar que nossos gerentes vão ter de permanecer no complexo por longos períodos de tempo, sem poder se comunicar muito com a família — acrescentou Lee. — E nem sequer tocamos no assunto do pessoal norte-coreano. Estamos tranquilos com a forma como talvez sejam tratados?
 
Lee estava levantando uma questão delicada. Dois dias antes da visita, Park tinha recebido um telefonema de um velho amigo da faculdade que hoje trabalhava para um grupo de defesa dos direitos humanos em Londres. O retrato que pintou de Kaesong era feio. O salário dos trabalhadores norte-coreanos no CIK era pago ao governo, que supostamente repassava parte do dinheiro aos operários — quanto, exatamente, era impossível saber. E havia rumores — não confirmados — de que os norte-coreanos que trabalhavam no CIK eram considerados “contaminados” por conviver com práticas de fora, e eram proibidos de voltar para casa.
 
— Mas não estaríamos dando ao pessoal da Coreia do Norte uma qualidade de vida melhor? — indagou Park.
 
— Pode ser — concordou Lee. — O ambiente de trabalho na nossa fábrica seria melhor do que aquele a que estão acostumados. Mas não teríamos nenhuma transparência e pouquíssima autonomia. O regime norte-coreano não deixaria que fizéssemos nenhuma mudança considerável em nossa fábrica; teríamos de seguir o acordo firmado anos atrás pelos fundadores do CIK. Se considerarmos toda a dúvida em relação à segurança do nosso pessoal e à situação maior dos direitos humanos no norte, não tenho certeza se vale a pena.
 
— Tudo isso é verdade — respondeu Park. — Mas significa que não podemos mesmo ter uma base ali? Fabricantes de móveis em lugares como o Paquistão enfrentam o risco de violação de direitos humanos o tempo todo. Significa apenas que precisam se pautar por padrões ainda mais elevados. Não poderíamos fazer o mesmo?
Política, não
Naquele mesmo dia, Park foi almoçar com um amigo — membro do parlamento sul-coreano. Enquanto a executiva cutucava o macarrão no prato, do outro lado da mesa Keel Young-hoon dava a perspectiva de um político e tentava derrubar as objeções de Lee.
 
— Onde já se viu, perder a oportunidade de agir com patriotismo e ganhar dinheiro?! — indagava. Keel era do minoritário partido liberal, a segunda maior facção política na Coreia do Sul e forte defensor do CIK.
 
— Essa decisão não é só empresarial, Jeehee — argumentou o político. — Abrir uma fábrica em Kaesong seria prestar um serviço à sociedade. O CIK foi fundado com a reunificação em mente, e veja só todo o bem que já está fazendo. As duas Coreias estão trabalhando lado a lado pela primeira vez em décadas! Os norte-coreanos estão aprendendo a lidar com a economia de mercado. E é uma fantástica mostra de boa vontade em relação ao norte.
 
— Entendo, sem dúvida — disse Park.— Mas há muita incerteza, não só para a operação de uma empresa ali, mas também para o futuro que você vislumbra. A coisa nem de longe é garantida assim.
 
— É preciso encarar a coisa como um investimento a longo prazo — rebateu Keel. — É como na Alemanha: assim como a Ostpolitik foi fundamental para a unificação das duas Alemanhas, o CIK será um fator crucial na nossa reunificação.
 
Park admirava esse otimismo, mas lembrou que duas décadas antes o mero ato de fornecer recursos para os norte-coreanos tinha sido considerado traição. Sabia que esse sentimento não tinha desa­parecido por completo. Aliás, representantes da maioria no parlamento tinham tentado em várias ocasiões fechar o CIK. Park via mérito no argumento de que o complexo industrial poderia contribuir para a reunificação — algo que ela, que ainda tinha parentes distantes no norte, adoraria. Mas o lado político do projeto a preocupava. Para cada pessoa feliz com a decisão de instalar a empresa no CIK, sem dúvida haveria outra que se opunha.
 
— Não sei se estou pronta para ser política — disse Park, sorrindo para o amigo. — Vou deixar esse papel para você. Mas é difícil não torcer para que dê certo.
 
Tique-taque, tique-taque
No final da tarde, já de volta a sua sala, Park olhava para dois protótipos de pulseira jogados sobre uma pilha de papéis sobre o CIK em sua mesa. Enquanto pensava nas conversas que tinha tido durante todo o dia, desviou o olhar para o rio Han, lá embaixo.
 
De certa forma, invejava o Han. Suas águas vinham de dois rios: um nascia na Coreia do Sul e o outro, na do Norte. E se juntavam sem problema, sem ligar para fronteiras nacionais.
 
Embora todos com quem tivesse falado concordassem que instalar a empresa no complexo ao norte podia trazer benefícios econômicos, as conversas também tinham deixado claro que havia outras coisas a pesar. Park podia pensar em muitos casos relevantes para a situação em pauta: o da indústria têxtil em Bangladesh, o desinvestimento na África do Sul do apartheid, o investimento na Alemanha Oriental. Mas cada situação era distinta. Metódica, Park empunhou a caneta e, com traços rápidos e precisos, anotou os prós e os contras no bloco de papel a sua frente.
 
Se abrisse uma fábrica em Kaesong, a Timepiece poderia melhorar a qualidade de vida de muitos trabalhadores norte-coreanos. Mas, e se o regime comunista interferisse nas boas intenções da empresa, ameaçando o negócio e seus funcionários? O potencial benefício econômico compensava o risco humano? E como computar a questão política e o orgulho nacional na decisão?
 
Park tinha de ser cuidadosa, mas sabia que não havia tempo a perder. Faltava pouco para a reunião do conselho. Depositou a caneta sobre o bloco, fechou os olhos e se concentrou em pensar se a Timepiece devia ou não instalar uma base na Coreia do Norte.
 
Patrick Chun concluiu um MBA na Harvard Business School em 2010 e um mestrado em estudos do leste asiático em Harvard em 2004. John Coleman concluiu um MBA-MPA e

m Harvard em 2010. Nabil El-Hage foi professor de prática administrativa na HBS. No começo do ano, redigiram um case sobre a Hyundai Asan para a HBS.

 
Park deveria ou não abrir uma fábrica em Kaesong?
 
Comentarista:
Youssef Nasr aposentou-se há pouco de um alto cargo executivo no Grupo HSBC.
 
Esse é um clássico (ainda que extremo) exemplo daquilo que chamo investir num mercado “ultrafronteiras”. Park deveria pautar sua decisão por dois critérios: o empresarial e o humanitário.
 
Como presidente de uma organização com fins de lucro cujo custo de mão de obra é considerável, Park está certa em buscar um lugar no qual produzir custe menos. Mas precisa tomar uma série de medidas para entender os riscos embutidos na opção do complexo CIK — e saber como administrá-los.
 
Para começar, precisa aplicar uma taxa de desconto suficientemente alta na avaliação financeira dessa opção, para refletir o elevado grau de risco. Ao mesmo tempo, deve levar em conta que o governo sul-coreano garante o capital investido e disponibiliza crédito a juros baixos — propostas atraentes, que derrubam bastante os riscos do capital.
 
O passo seguinte é pensar numa saída para gerir as cadeias de produção e suprimento de modo que eventuais problemas no CIK causem o mínimo distúrbio possível nas operações da matriz. Daria, por exemplo, para manter um estoque relativamente baixo no complexo norte-coreano, despachando com frequência produtos acabados para Seul? Nesse sentido, a proximidade de Kaesong representa uma importante vantagem logística.
 
Park também deveria buscar maneiras de monitorar contas a receber e a pagar dentro da empresa para repatriar lucros regularmente e, assim, evitar que grandes somas fiquem retidas caso algo adverso ocorra. Além disso, a Timepiece devia limitar o investimento inicial a uma cifra que não ameace a sobrevivência da empresa caso o plano naufrague. No caso de uma multinacional, em geral isso significa algo como 10% do total de investimentos.
 
Na hipótese de que consiga apresentar argumentos administrativos sólidos para a abertura da fábrica na Coreia do Norte e mitigar riscos financeiros, Park deveria, então, avaliar o lado humanitário. A responsabilidade social hoje é parte importante da operação de uma empresa: nessa área, empresas de sucesso precisam mostrar liderança. Embora a Coreia do Norte seja muito criticada nesse quesito e esteja sujeita a sanções internacionais pela violação de direitos humanos e, sobretudo, por atividades nucleares, vários aspectos da situação me fazem pensar que Park deveria, sim, investir no país.
 
Nesse caso específico, o medo de que o regime possa obter tecnologias perigosas graças a uma nova operação não se justifica: a fabricação de pulseiras dificilmente se presta a aplicações militares, de natureza nuclear ou não. E a Timepiece poderia ajudar a aliviar a miséria da vida no norte, pelo menos para aqueles que emprega. Ainda que não seja capaz de controlar quanto do salário realmente é repassado ao trabalhador, a empresa ofereceria uma série de benefícios não monetários, como um ambiente de trabalho agradável e confortável, um refeitório com comida saudável e nutritiva, bons programas de capacitação profissional e instalações para eventos esportivos e sociais.
 
Para encerrar, o precedente da reunificação alemã é um dado altamente relevante. Uma nova fábrica no polo norte-coreano pode ser um passo rumo a uma península unificada.
 
Comentarista:
Ian Bremmer é presidente da consultoria Eurasia Group e autor de The End of the Free Market: Who Wins the War Between States and Corporations? (Portfolio, 2010).
 
Park devia abrir uma fábrica em Kaesong? Definitivamente, não.
 
O importante agravamento das tensões na península coreana neste ano torna muito arriscado qualquer investimento substantivo em Kaesong. É só ver os sinais que hoje chegam do norte.
 
Tanto Coreia do Sul como Estados Unidos acusaram publicamente a Coreia do Norte de um ato deliberado de guerra. Há indícios contundentes de que torpedeou o Cheonan, um navio da marinha sul-coreana, matando 46 tripulantes. Na esteira, Seul e Washington conduziram exercícios na-vais conjuntos — e é quase certo que Pyongyang vá responder de forma hostil. É só questão de onde, quando e como.
 
E esse é só o começo do estado de incerteza. Rumores de que Kim Jong-il está à beira da morte não morrem. Não sabemos quem irá substituí-lo, nem o que esse novo dirigente vai achar do CIK.
 
Há um problema ainda maior. Há uma década a Coreia do Norte vem fazendo experimentos de baixa escala com o capitalismo. A meta era dar à população acesso a produtos alimentícios e bens de consumo que o governo não poderia garantir e, com isso, conter o descontentamento social. Só que o crescente fluxo de mercadoria clandestina da China criou uma classe paralela de comerciantes e alimentou a corrupção nas fileiras do governo.
 
No ano passado, Pyongyang tentou reassumir as rédeas. Em novembro, membros do governo subitamente soltaram um plano para reverter a migração para mercados privados, punir a ala corrupta do funcionalismo, exercer maior controle sobre a atividade comercial e conter a disparada da inflação. Os norte-coreanos tiveram um prazo de uma semana para trocar sua moeda por uma nova — um won muito desvalorizado. O máximo permitido equivalia, no mercado negro, a cerca de US$ 40. O uso de moeda estrangeira foi proibido. Todo mundo correu a se desfazer de efetivo e acumular bens. A nascente classe média, formada basicamente de comerciantes, burocratas e militares, foi despojada de boa parte de sua riqueza. Relatos de hiperinflação no mercado negro, da grave escassez de alimentos e de
protestos logo cruzavam a fronteira.
 
No afã de conter o estrago, o governo reverteu a reversão: reabriu mercados e, de novo, liberou transações em moeda estrangeira. O primeiro-ministro se desculpou e o ministro das Finanças foi executado.
 
Este governo não sabe para onde vai. Kaesong é e continuará sendo uma ilha de operações sujeita a seus caprichos. A única certeza é que o regime não pode seguir indefinidamente pelo caminho (ou o que passa por caminho) atual.
 
Meu conselho? Invista na China. Invista na Arábia Saudita. Invista em outros Estados autoritários. Nesses países, pelo menos é possível saber quando o problema se avizinha.
 
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