Colaborando para o bem comum
Colaboração entre concorrentes não é um ato natural. Às vezes, porém, é a melhor maneira de derrubar custos, capitalizar um forte, acelerar escala ou amplificar influência para gerar resultados. No mundo do empreendimento social, há lições úteis sobre a promoção de mudanças graças à colaboração entre aliados improváveis.
Vejamos o caso de uma instituição americana, a Edna McConnell Clark Foundation (EMCF). Há mais de uma década a fundação se dedica a ajudar organizações de apoio ao jovem cujos programas se provaram eficazes. Trabalhando em colaboração com as organizações (abordagem atípica num universo no qual é comum o doador tratar a instituição beneficiada como subcontratada), a EMCF ajuda cada uma a cultivar a capacidade estratégica e organizacional para aumentar tanto resultados como escala. Ciente de sua séria carência de capital para crescer, a fundação lançou em 2008 um programa-piloto pioneiro com outras entidades filantrópicas.
Dirigentes da fundação usaram critérios de seleção rigorosíssimos para escolher, do rol de beneficiárias, três organizações com comprovada trajetória: Nurse-Family Partnership (que orienta mães e famílias carentes para a criação de bebês saudáveis), Citizen Schools (um serviço de mentores para alunos de ensino médio desfavorecidos) e Youth Villages (organização que ajuda jovens em situação de vulnerabilidade e respectivas famílias a dar um rumo na vida). Com o objetivo de reunir US$ 120 milhões no total, a fundação se comprometeu a doar US$ 39 milhões e ajudou as três a conseguir o restante. O dinheiro foi arrecadado em menos de seis meses, com 19 colaboradores (entre eles a Kresge Foundation, a Samberg Family Foundation e a Bill & Melinda Gates Foundation). Uma carta de intenções estipulou metas estratégicas comuns, indicadores claros de desempenho e práticas operacionais otimizadas. A EMCF espera que os US$ 120 milhões em fundos privados ajudem as três organizações a obter outros US$ 700 milhões em fundos públicos, abrindo caminho para resultados sem precedentes.
A capacidade da EMCF de colaborar com outras fundações trouxe consideráveis benefícios para a sociedade e serviu de exemplo para outros, sobretudo o governo Obama, que usou o piloto de inspiração para o Social Innovation Fund, uma iniciativa público-privada para promover a inovação focada no empoderamento econômico, na saúde e no apoio ao jovem.
Empresas envolvidas em projetos sociais podem obter resultados melhores se contiverem o instinto competitivo e colaborarem com outras. Também podem promover a colaboração entre organizações que financiam ou apoiar iniciativas cujo modelo de negócios é a colaboração.
Pierre Omidyar, fundador da eBay, criou com a mulher a Omidyar Network — para ajudar projetos sociais promissores. Seu braço de filantropia reúne executivos de empreendimentos para eventos nos quais um aprende com o outro. Uma das beneficiárias, a queniana Ushahidi (“testemunho”, em suaíli), é uma mapeadora de crises cujo modelo é ancorado na colaboração. A plataforma da Ushahidi na internet reúne dados de milhares de e-mails e mensagens de texto e “re-apresenta” essa informação toda em mapas ou linhas de tempo para informar outras instituições e inspirá-las a agir. Usada pela primeira vez para mapear a violência pós-eleitoral no Quênia, a Ushahidi já foi empregada para galvanizar a resposta em tempo real ao terremoto no Haiti, à explosão da plataforma de petróleo da BP e à crise nuclear no Japão. Ao compartilhar dados com outras organizações de monitoramento de crises e resposta a desastres, a Ushahidi está ajudando a expor fraudes e aumentar a transparência, salvando vidas no processo.
Colaborar não é fácil — daí ainda ser algo muito pouco frequente em toda forma de empreendimento social. Mas, quando organizações parecidas abraçam sinceramente metas comuns e articulam claramente como irão atingi-las, a colaboração funciona. O mais importante é acreditar que um grupo — mesmo de “concorrentes” — pode conseguir o que nenhum membro, por si só, poderia. 
Thomas J. Tierney é presidente do The Bridgespan Group, coautor de Give Smart:Philanthropy That Gets Results (PublicAffairs, 2011) e presidente do conselho consultor da Harvard Business School Social Enterprise Initiative.
 
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