A economia brasileira sofreu forte desaceleração nos últimos anos e caminha a passos largos para uma contração em 2015. A IoT pode ajudá-la a superar esta situação se os líderes empresariais e o governo agirem de forma decisiva para aproveitar as oportunidades.

O passado econômico recente do Brasil foi marcado por FRACO CRESCIMENTO E BAIXAS EXPECTATIVAS. Os culpados são claros: o insignificante crescimento da produtividade e os níveis deficientes de inovação afetam a capacidade brasileira de prosperar

A produtividade da economia, por exemplo, não aumenta desde o boom de 2000-2008. Nossa pesquisa mostra que, nos últimos quatro anos, a “produtividade total dos fatores” — que mede a eficácia com que fatores de produção como o trabalho e o capital são usados — foi negativa1. Em outras palavras, a adição de trabalhadores e os investimentos não têm se traduzido em crescimento econômico. Os dados sobre a inovação também são sombrios.

Em 2015, o Brasil ficou em 70º lugar no Índice Global de Inovação2. Foi pior ainda (99º) no Índice de Eficácia da Inovação, que mede a eficácia com com que um país transforma insumos de inovação em produtos de inovação. Em 2014, a situação era um pouco melhor: 61° e 71° lugares, respectivamente.

Como a Internet das Coisas pode ajudar A Internet das Coisas (IoT) — vasta rede de dispositivos que usam protocolo de internet (IP) e interagem uns com os outros e com seus operadores humanos — pode ajudar o Brasil a virar o jogo, reconstruindo a competitividade nacional e revitalizando o crescimento econômico. Ela pode aumentar a produtividade, levar à criação de novos mercados e incentivar a inovação. A comunidade empresarial brasileira já percebeu o potencial da IoT. Em recente pesquisa da Accenture com mais de 1.400 executivos C-level de 32 países, os entrevistados brasileiros revelaram estar muito conscientes das oportunidades que a IoT pode oferecer e destacaram aumento na produtividade dos funcionários, corte de custos e melhor experiência dos consumidores como os três principais benefícios esperados.3 Para entender melhor o que está em jogo, modelamos o impacto potencial da IoT sobre os PIBs de 20 economias desenvolvidas e emergentes que representam mais de três quartos da economia mundial4.

O modelo indica que a IoT pode gerar entre US$ 10,6 trilhões e US$ 14,2 trilhões em crescimento adicional do PIB até 2030 nos 20 países, dependendo de condições nacionais e níveis de investimento. Isso representa 1,0-1,5 ponto percentual de crescimento a mais do que essas economias registrariam sem o novo conjunto de tecnologias5.

Como esses números se aplicam ao Brasil? Tomando por base as tendências atuais, a implementação das tecnologias da IoT no Brasil deve ter um impacto modesto sobre o PIB, acrescendo US$ 39 bilhões até 2030. No entanto, se tomar medidas para trazer as condições nacionais para a média dos 20 países estudados, o Brasil poderá melhorar sua absorção de tecnologias da IoT e adicionar US$ 210 bilhões à sua economia no período — muito acima do cenário atual (ver quadro “Impacto cumulativo da IoT sobre o PIB brasileiro).

O governo e líderes empresariais precisam responder a uma pergunta: o que podemos fazer para apoiar e promover este resultado superior? A resposta, em certa medida, fundamenta-se na teoria da difusão econômica.

O desafio: conseguir difusão econômica
Da máquina a vapor à nanotecnologia, o sucesso de um país em aproveitar o potencial econômico de novas tecnologias depende de sua capacidade de integrar inovações à sua sociedade e economia. Por exemplo, os Estados Unidos tornaram-se líderes mundiais em eletrificação, incorporando a nova tecnologia à sua economia de forma ampla e, em seguida, mudando as estruturas produtiva e organizacional para tirar o máximo proveito delas. Cientes dos benefícios que a eletrificação oferecia, as empresas construíram novas fábricas que a tornaram elemento central de seus processos de produção e treinaram seus trabalhadores para operar nesse novo ambiente.

Hoje, o desafio central do Brasil para alcançar o potencial econômico da IoT envolve o que chamamos de “capacidade nacional de absorção” (CNA).

A CNA de um país mede sua capacidade de integrar inovações de ruptura (ver quadro “Para medir o potencial econômico da IoT: o modelo em resumo”). Com base em nossa pesquisa sobre épocas anteriores de ruptura tecnológica em entrevistas com especialistas em tecnologia, economia e negócios, identificamos quatro pilares que fundamentam a CNA de um país:

1. Os business commons representam o ambiente de negócios e o conjunto de recursos disponíveis para as empresas realizarem suas operações.
2. Os fatores de decolagem ajudam a criar massa crítica para a tecnologia se propagar além dos mercados de nicho, chegando a um grupo mais amplo de operadores em diferentes setores.
3. Os fatores de transferência permitem que uma tecnologia crie raízes muito mais profundas em uma economia — incluindo mudanças mais amplas no comportamento de empresas, consumidores e sociedade.
4. O dínamo da inovação entra em ação quando uma tecnologia produz inovação e desenvolvimento autossustentáveis.

O desafio que o Brasil enfrenta com sua CNA é gigantesco. O país está mal posicionado no que diz respeito à capacidade de absorver o poder da IoT e à integração de suas inovações à economia e sociedade, pois sofre escassez das capacidades que dão suporte à CNA. Entre as 20 economias cuja CNA calculamos, o Brasil aparece em 17º lugar, atrás da China, mas à frente de Índia e Rússia (Ver quadro “A pontuação CNA de 20 países).

Onde, então, estão os problemas? O Brasil fica para trás no que tange ao capital humano. Por exemplo, seu sistema educacional fica em último lugar entre os 20 países e ainda em penúltimo no quesito taxa bruta de matrícula no ensino superior (por exemplo, cursos de nível universitário).

O ambiente de negócios também é dificultado pela infraestrutura ruim (inclusive infraestruturas de comunicações) e pela debilidade dos laços da economia brasileira com a economia global. Por exemplo, o país tem a segunda taxa mais baixa de assinatura de internet de banda larga fixa e sua economia permanece bastante fechada — o Brasil ficou em 70º lugar entre 75 países incluídos no Índice de Mercados Abertos 2015, calculado pela Câmara de Comércio Internacional.

6 A capacidade brasileira de encontrar aplicações práticas para avanços tecnológicos e transformá-los em produtos e serviços utilizáveis enfrenta o obstáculo dos problemas estruturais no ambiente de P&D nacional. Apesar das melhoras significativas da última década, os gastos e o apoio do governo à P&D são baixos. Além disso, a qualidade geral das instituições de pesquisa científica nacionais é fraca, ocupando o 19º lugar entre os 20 países. Pensando no futuro, devemos notar ainda que o Brasil tem a menor proporção de recém-formados nas áreas de ciências e engenharia entre os 20 países.

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Além disso, apesar dos avanços recentes na proliferação de startups, permanece imaturo o desenvolvimento de clusters de empresas — fornecedoras e produtoras de bens e serviços relevantes para diferentes setores específicos. Não vemos criação de instituições especializadas nem muita colaboração de empresas inovadoras dentro de cadeias de valor para desencadear o dínamo da inovação. O Brasil também tem nível baixo de colaboração em P&D entre universidade e empresa (18º lugar entre os 20 países).

Como desencadear o crescimento liderado pela IoT no Brasil
Para transformar o fenômeno IoT em verdadeiro divisor de águas para o crescimento da economia brasileira, formuladores de políticas e empresários precisam tomar medidas urgentes para melhorar a CNA do país. A boa notícia é que o Brasil já tem alguns pontos fortes fundamentais que podem sustentar a IoT no país. Por exemplo, os consumidores brasileiros têm enorme apetite por tecnologia e adotam inovações rapidamente. Setores cujos papéis são importantes na multiplicação dos benefícios da IoT por toda a economia — como manufatura, governo e setores focados no consumidor — têm destaque na economia nacional. O país tem uma das populações mais urbanizadas do mundo; a experiência sugere que isso pode facilitar a propagação dos benefícios relacionados à IoT. Além do mais, nos últimos anos o Brasil tem mostrado capacidade de desenvolver startups altamente inovadoras, que serão importantes para acelerar o processo pelo qual os benefícios da IoT se disseminarão na economia.

O Brasil pode adotar uma série de políticas e suas empresas podem empreender diversas ações para impulsionar o crescimento da CNA do país:

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Adotar as políticas fundamentais
Identificar os setores multiplicadores. Os formuladores de políticas brasileiros ainda não desenvolveram uma visão ou estratégia nacional para a IoT. Outros governos ao redor do mundo já o fizeram.

Na China, por exemplo, o governo declarou que a Internet das Coisas é uma “indústria emergente estratégica”, com foco especial no desenvolvimento de clusters de IoT. A Alemanha quer usar a tecnologia da IoT para aumentar a produtividade de sua indústria de transformação em 30% por meio da sua iniciativa Industrie 4.0 (a quarta revolução industrial). Os formuladores de políticas brasileiros podem começar identificando setores que atuam como multiplicadores da IoT, que são também pontos fortes naturais para o país, como agronegócio, manufatura e recursos naturais. Essa abordagem ajudaria a maximizar o impacto da IoT sobre a economia como um todo.

Acertar no básico. Metade dos brasileiros entrevistados em nossa sondagem entre líderes empresariais citou a debilidade da infraestrutura de tecnologias da informação e comunicação entre os obstáculos mais significativos para o desenvolvimento da IoT no país. Além disso, 30% mencionaram a falta de talento nas áreas STEM (ciências, tecnologia, engenharia e matemática) no mercado de trabalho. De fato, o Brasil precisa tomar medidas sérias para melhorar a educação (especialmente as habilidades STEM), a infraestrutura digital, a abertura econômica e a capacidade de inovação. No que tange às capacidades para a IoT, os formuladores de políticas precisam decidir se o país deve “produzi-las” ou “comprá-las”.

Por exemplo, o Brasil pode desenvolver talentos dentro da força de trabalho existente (“produzir”) — esta é, por exemplo, a forma como o hub de IoT chinês, Wuxi, está alimentando profissionais por meio de seu programa “Talento IoT Porto Dourado”. Entretanto, adequar as políticas de imigração para atrair competências do exterior (“comprar”) pode ser uma forma mais rápida de resolver os problemas relativos à falta das habilidades em IoT. Além disso, o Brasil pode corrigir deficiências em infraestrutura digital e tecnologia incentivando parcerias público-privadas e atraindo mais investimento estrangeiro direto focado em IoT. Diminuir a defasagem no investimento.

Em qualquer revolução tecnológica, geralmente transcorre um tempo significativo entre o momento em que a nova tecnologia se torna disponível e aquele em que é adotada de forma mais ampla por empreendedores e investidores que procuram novas oportunidades de negócio. Este atraso no investimento parece particularmente grave no Brasil: apesar de 92% dos empresários brasileiros que entrevistamos estarem desenvolvendo estratégias para a IoT, menos de metade está investindo nelas.

As empresas e os formuladores de políticas podem trabalhar juntos para mudar essa dinâmica, por meio da promoção de projetos experimentais, piloto e de demonstração com foco em aplicações da IoT. Por exemplo: Cingapura, que há vários anos vem fazendo experiências com carros sem motorista, está aberta à realização de testes-piloto por parte de empresas e universidades, com a participação da população. Programas como esse podem aumentar a consciência dos empresários sobre os benefícios — e as perspectivas de crescimento — tanto para os setores tradicionais como para os novos. Participantes também podem compartilhar histórias de sucesso com toda a comunidade empresarial para incentivar outras companhias e empreendedores a entrar em ação.

Como as empresas podem se envolver
Construir novos ecossistemas industriais. O setor público do Brasil tem uma clara função no apoio ao desenvolvimento da IoT no país, mas a comunidade empresarial também pode contribuir significativamente para garantir o seu sucesso. Por exemplo, as empresas precisam colaborar mais entre si para criar os necessários ecossistemas da IoT. O ambiente da IoT vai exigir níveis muito mais altos de colaboração, não apenas entre empresas, mas também entre todos os setores. Trata-se de um problema, pois, de acordo com pesquisa realizada pelo Accenture Institute for High Performance, os níveis de colaboração no Brasil são baixos para os padrões globais7. As empresas precisam olhar para fora de seus perímetros para construir novas parcerias que levem à criação de novos produtos, serviços e modelos de negócios.

Um exemplo do que é necessário está ocorrendo na agricultura — uma área crucial para a adoção em larga escala da IoT e das inovações que ela pode trazer.

Esse setor está criando novos ecossistemas que permitem soluções inteligentes de agricultura, reunindo grandes fabricantes de máquinas e equipamentos agrícolas, empresas químicas, fornecedores de tecnologias da IoT — como soluções máquina a máquina (M2M) e de tecnologia de sensores — e prestadores de serviços de dados e analytics. Projetar a força de trabalho movida a cibernética.

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As empresas também precisam tomar medidas para preparar seus colaboradores para o ambiente da IoT. A Internet das Coisas oferece oportunidades para que as empresas brasileiras aumentem a produtividade de seus colaboradores e os empoderem por meio das novas tecnologias. Máquinas inteligentes automatizarão tarefas rotineiras, liberando os trabalhadores para realizarem o trabalho mais criativo e colaborativo com redes mais amplas de pessoas — e de máquinas. Entretanto, com a automação de muitas tarefas repetitivas, as empresas devem preparar seu pessoal para novas realidades no trabalho. Assim como a internet criou empregos que praticamente não existiam há algumas décadas, a IoT vai requerer novas funções — de gestores robôs digitais a designers de tecnologia de vestir. Por isso, o resultado é que as empresas precisarão procurar novas competências ligadas a máquinas inteligentes e dados — buscando profissionais como cientistas de dados, desenvolvedores de software e designers de hardware.

Além de desenvolver novas competências, as organizações precisam mudar a forma como seus colaboradores trabalham. Por exemplo, o acesso a dados em tempo real permitirá que os trabalhadores “braçais” de hoje colaborem ao analisarem e ajustarem o desempenho do equipamento de perfuração em uma mina ou desenhem produtos em rápidos ciclos iterativos, pois poderão produzir em pouco tempo protótipos impressos em 3D. Isso vai exigir que os trabalhadores industriais mudem sua forma de trabalhar, passando de fluxos de trabalho reativos e estruturados para outros, nos quais terão de ser capazes de se antecipar e se adaptar às circunstâncias.

Essa mudança vai exigir das empresas novos esforços de treinamento e desenvolvimento de competências.

Prepare-se para o dilúvio de dados. A IoT permite que as empresas gerem dados que levem ao desenvolvimento de insights a partir de objetos físicos e compartilhem esses dados com outros participantes de cadeias de suprimento. De acordo com relatório publicado em 2014 pela Accenture e pela GE, 73% das empresas já estão investindo mais de 20% do seu orçamento global de tecnologia em analytics de big data.8 Além da necessidade de novas habilidades técnicas relacionadas aos dados, as empresas precisam de um grupo totalmente novo de capacidades organizacionais, como modelos financeiros e de governança que compartilhem as recompensas pela utilização, por parte de diferentes organizações, de dados comuns. Interoperabilidade e segurança de dados se tornarão prioridades importantes na hora de projetar fluxos de informação dentro das organizações e entre elas. As empresas também precisarão equilibrar as novas regras sobre segurança de dados e privacidade com os benefícios oferecidos por fluxos de informação mais fluidos e eficazes.

A IoT pode ajudar o Brasil a virar o jogo? Nossa análise mostra que pode dar forte impulso à produtividade e inovação. Porém, sem as condições necessárias para que a IoT deslanche no país, essa oportunidade pode escapar. A ação decisiva de líderes empresariais e formuladores de política hoje pode ajudar a pôr o Brasil no caminho de um crescimento mais rápido amanhã.

Accenture, “O que as empresas precisam faz er para reto mar o aumento da prod utividad e do Brasil”, junho de 2015.
2 The Global Innovation Index 2015, prod uzido pela Johnson Graduat e School of Manag ement — Cornell University , escola de negócios Insead e Organiza ção Mundial da Propri edad e Intelectual (Ompi).
3 A Accenture entrevisto u 1.405 executivos C-level de 32 pa íses; ver “CEO Briefing 2015: Fro m Prod uctivity to Outco me — Using the Internet of Things to drive future business strat egies”, janeiro de 2015.
4 São estes pa íses: Alemanha, Austrália, Brasil, Canadá , China, Coreia do Sul, Dinamarca , Espanha , Estados Unidos, Finlândia, França, Holanda , Índia, Itá lia, Jap ão, Noruega, Reino Unido, Rússia, Suécia e SUÍÇA.
5 Accenture, “The Growth Game-Changer: How the Industrial Internet of Things can drive progr ess and prosp erity ”, janeiro de 2015.
6 Câmara de Comércio INTERNACIONAL, The 2015 Open Markets Index.
7 Accenture, “Por que o Brasil precisa aprender a confiar na inovação colaborati va”, 2015.
8 Accenture, “Industrial Internet Insights Report for 2015”, outubro de 2014.

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