O presidente da Prime ElektroTek tinha acabado de dar uma boa notícia aos trabalhadores e gerentes reunidos no chão da fábrica: a empresa de Taipei, que na década anterior tinha passado de fabricante de fontes de alimentação básicas a inventora de sistemas de transmissão para veículos elétricos híbridos, finalmente fechara um contrato com a estatal Blue Sky Vehicles, uma das montadoras mais dinâmicas da China. Se tudo corresse bem, a Blue Sky logo estaria usando componentes da Prime em seus carros e caminhões híbridos.

— Finalmente conseguimos uma abertura no mercado de veículos elétricos — disse o presidente. — Mesmo sendo uma estatal, a Blue Sky está interessadíssima em se diferenciar e disposta a apostar pesado em nossa tecnologia.

Lin Tung-Hsin, diretor e gerente-geral da unidade de componentes eletrônicos automotivos, aplaudia. Os operários a sua volta, também. O único que não batia palmas era Wang Hsi-Guo, o engenheiro que chefiara a criação da tecnologia de transmissão da Prime.

Lin foi falar com ele depois do anúncio. Chegou provocando: — Qual o problema, “professor”? — perguntou, usando o apelido que Wang ganhara por causa da propensão a discutir detalhes técnicos com quem quer que fosse. — O almoço não caiu bem?

— Não confio na Blue Sky — respondeu Wang. — O sistema de transmissão que criamos é sofisticado, é eficiente, não perde em nada para qualquer outro. É melhor do que qualquer tecnologia que a Blue Sky já viu ou usou. E agora temos de pular de alegria porque a empresa vai comprar um punhado desses componentes para criar um protótipo, que no final pode nem sair do papel? Tenho certeza de que você sabe o que vai acontecer.

Wang sacudiu a cabeça e continuou: — Assim que puserem as mãos nos componentes, eles vão desmontar a coisa toda e esmiuçar a tecnologia. Dentro de um ano, vão estar não só fabricando uma versão clonada desses componentes, mas também fornecendo a imitação no mercado. Não é o que eu chamo de caminho para a prosperidade.

Lin deu um tapinha nas costas de Wang. — Entendo seu medo — disse. — Mas precisamos ser realistas. Não podemos ter receio de fazer negócios com um grande cliente chinês como a Blue Sky. Não se esqueça de que, antes desse contrato, não tínhamos nenhum outro.

— Tínhamos a Apex.

Lin deu de ombros. Sediada em Taiwan, a Apex Automotive podia, no máximo, ser considerada uma fornecedora de “third tier”. Tinha se interessado pelo sistema quando a maioria das fabricantes de automóveis sequer recebia a Prime devido a suas raízes na área de eletrônica. Executivos da Apex tinham ficado impressionados com um carro de teste que Wang criara — um Volvo azul modificado, com o sistema de transmissão e baterias da Prime. O “professor” tinha adorado trabalhar com a Apex, pela postura independente de seus gerentes e a lealdade à Prime. Tinha liderado a equipe que criara vários protótipos para a Apex.

O presidente, contudo, tinha convencido Lin de que a Prime jamais se tornaria um ator de peso no setor de componentes automotivos trabalhando só com empresas pequenas, frugais. E, já que grandes montadoras como Nissan e GM em geral querem criar seus próprios sistemas de transmissão híbrida ou elétrica, a Prime precisava de uma parceira forte no “second tier”. Daí ter voltado os olhos para a China, apesar do risco que o país representava para a propriedade intelectual.

A Blue Sky tinha o perfil perfeito. Entre as montadoras chinesas, era uma das que mais cresciam. E vinha correndo para entrar no mercado de híbridos. Durante uma longa campanha de vendas que incluíra um belo investimento em relacionamentos ali dentro, a Prime tinha avançado aos poucos. Se no começo fornecia apenas um punhado de peças secundárias para painéis e sistemas de iluminação, agora tinha um contrato para suprir componentes importantíssimos. E Lin estava tão empolgado quanto o presidente.

— Seja como for, você superestima a capacidade deles — disse Lin a Wang. — Não acho que sejam capazes de decifrar a engenharia de um componente nosso.

— Não subestimo a capacidade de nenhuma empresa chinesa — disse Wang.

O deserto das patentes

Lin sabia, obviamente, da fama de desrespeito à propriedade intelectual que a República Popular da China carregava. Engenheiros chineses eram capazes de clonar produtos em muitas áreas — ele próprio vira isso acontecer quando a divisão de fontes de alimentação da Prime fizera uma parceria com uma fabricante de computadores chinesa. Não tardou para que a empresa estivesse vendendo clones dos produtos da Prime com forte desconto. E o vazamento em geral não parava aí: quando um segredo comercial era revelado, a coisa logo chegava a outras empresas também. É claro que havia leis contra isso, mas recorrer à Justiça chinesa raramente resultava em reparação suficiente para compensar o custo do processo. Praticamente toda empresa na China continental era uma ameaça — incluindo a Blue Sky.

O presidente da Prime obviamente conhecia o risco. Durante o longo namoro com a Blue Sky, tinha questionado Lin reiteradamente sobre a parceira: a montadora seria capaz de roubar o know-how da Prime? Será que pretendia usar a Prime como trampolim para virar, ela própria, uma fabricante verticalmente integrada de sistemas de transmissão híbridos? E, pior ainda, podia terminar lançando esses componentes no mercado?

Lin tinha tranquilizado o chefe. Para começar, a Blue Sky só iria comprar alguns componentes. Não estava pedindo a unidade de controle do veículo, um componente crucial do sistema de transmissão híbrido. Além disso, em certos componentes da Prime havia uma bela dose de conhecimento tácito — conhecimento que estava mais para “know-why” (saber o porquê) do que puro know-how (saber fazer). Lin tinha dito que, ainda que outra empresa fosse capaz de produzir cópias de algum componente, clonar o hardware sem entender como funcionava resultaria em um veículo parecido, mas não exatamente perfeito. Por último, Lin tinha declarado, sem rodeios, que os engenheiros da Blue Sky não pareciam feras da engenharia de sistemas. Em discussões técnicas com eles, Lin tinha observado que, embora fossem competentes em tarefas específicas de design, não pareciam muito capazes de entender projetos de sistemas grandes, complexos.

Essa opinião seria corroborada duas semanas mais tarde, quando Lin e o “professor” acompanharam o presidente em uma visita à Blue Sky em Guangzhou.

Lin estivera na fábrica várias vezes durante a negociação do contrato, mas para Wang era a primeira vez. Lin percebeu que o engenheiro
f
icou impressionado com a escala das operações. Com a ajuda de braços robóticos e trabalhadores de uniforme branco, centenas de carros iam tomando forma em linhas de montagem imaculadas. E os números que gerentes da Blue Sky apresentavam eram impressionantes: a montadora estava fazendo sua parte para ajudar a China a atingir a meta de produzir meio milhão de veículos movidos a “novas energias” nos próximos anos. Com o uso de componentes da Prime e de outros fornecedores, a estatal prometia lançar pelo menos cinco modelos híbridos no intervalo de 12 meses.

Em uma reunião posterior entre gente da área técnica de ambos os lados, o clima era de comemoração. Agora, até Wang sorria. Para dar ao engenheiro a oportunidade de exibir seus conhecimentos, Lin incentivou o pessoal de engenharia da Blue Sky a tirar dúvidas sobre a tecnologia da Prime. Alguém perguntou por que a Prime optara por sistemas de transmissão híbrida em série, não em paralelo. Lin ficou surpreso ao ouvir uma pergunta tão rudimentar. Wang explicou que em um sistema em paralelo como o do Prius, da Toyota, os motores de tração elétrica e de combustão interna são ligados ao sistema de transmissão, e a bateria é carregada tanto pelo motor como pelos freios. Durante a frenagem, a energia mecânica vai para os motores de tração, que em seguida geram eletricidade. Essa interligação torna o sistema de controle bastante complexo. O modelo em série é mais simples e mais barato. Um híbrido com sistema em série, como o
Chevy Volt, roda apenas com energia elétrica, com o motor a gasolina atuando apenas como gerador.

Lin gostou de ver o ar perdido dos engenheiros da Blue Sky. Tinha certeza de que a empresa chinesa não tinha competência para clonar os produtos da Prime.

Wang começou, ele próprio, a fazer perguntas. — Quer dizer que vocês vão criar a unidade de controle do veículo sozinhos?

Sim, responderam os gerentes da Blue Sky. O contrato estipulava que, além de fornecer certos componentes, a Prime daria instruções para sua conexão à unidade de controle do veículo — o cérebro do carro.

Essa unidade, do tamanho aproximado de uma caixa de sapato, seria um dispositivo altamente sofisticado capaz de receber comandos do motorista e controlar sistemas de velocidade, aceleração, frenagem e alimentação do carro. Quando o acordo com a Blue Sky estava sendo costurado, Lin e Wang tinham achado, a princípio, que a montadora ia querer adquirir a unidade de controle da Prime. Com o aval de Lin, Wang chegara a montar uma equipe para criar uma unidade especificamente para a estatal. Além de altamente eficiente, o protótipo primava pelo conhecimento tácito que incorporava. No final, no entanto, a montadora informara que pretendia ela mesma criar a unidade. Já que a resposta do carro na pista vem da unidade de controle, montadoras do “first tier” se orgulham de criar elas próprias a unidade, em vez de encarregá-las a terceiros. A Blue Sky, evidentemente, sonhava em entrar para essa elite.

— Em que etapa do projeto vocês estão? — perguntou Wang. — Sei, por experiência própria, que pode ser difícil projetar uma unidade de controle realmente boa.

Os gerentes da Blue Sky se entreolharam, aparentemente sem saber que resposta dar. Um deles acabou dizendo: — Não se preocupe. Estamos avançando.

Durante o voo de volta, Lin repetiu esse episódio ao presidente como mais uma prova de que a Blue Sky representava pouco risco à propriedade intelectual da Prime. — Esses caras não entendem de sistemas — disse. O presidente meneou a cabeça, pensativo.

De volta a Taipei, Lin perguntou a Wang o que fora feito do protótipo da unidade de controle do veículo que fora criado para a Blue Sky. Wang respondeu que, por não ser mais necessário, fora desmontado.

Lin fez um muxoxo. — E não dá para montá-lo de volta? — indagou. — E rápido?

Uma importante condição

Um mês depois, ao cruzar com Lin no corredor, o presidente perguntou sobre o progresso da Blue Sky com o protótipo do veí-
culo. Ficou preocupado ao saber que não haviam dito nada. Será que havia algum problema?

Lin disse não ter ouvido nada de negativo.

— Precisamos muito que esse contrato vá para frente — disse o presidente, tentando conter com um gesto nervoso uma mexa de cabelo rebelde. As concorrentes da Blue Sky na China já estão muito à frente na venda de carros e caminhões híbridos. Se ficar muito para trás, a Blue Sky pode terminar com sérios problemas — e nós também. Afinal, foi a única montadora das grandes que se interessou pela ideia. Se esse contrato não vingar, pode ser nosso fim como fornecedora de componentes automotivos.

Lin imediatamente começou a ligar para seus contatos na Blue Sky. Mas foram todos evasivos sobre o progresso que a montadora fizera até ali. Por fim, o chefe da unidade de híbridos convidou-o de volta a Guangzhou para ver o protótipo.
A ausência de fanfarra era notável — Lin e os gerentes e engenheiros da Blue Sky se reuniram em um espaço descoberto ao lado da pista de testes, onde um veículo de duas portas sem nada de especial estava à espera. Lin sentou atrás da direção, pisou no acelerador e começou a dar voltas no circuito. Era patente que havia algo errado; tinha esperado uma resposta muito melhor do carro — e o motor a gasolina parecia estar sendo ativado cedo demais. A unidade de controle obviamente precisava de sérios ajustes.

— Eu peço desculpas — disse o gerente da Blue Sky ao ver a cara fechada de Lin. — Ainda estamos fazendo ajustes na unidade de controle do veículo.

Era o máximo que tinham conseguido avançar em seis semanas? Lin conteve o ímpeto de fazer um comentário mordaz. Em vez disso, disse: — Temos uma unidade perfeita para vocês. Aliás, foi projetada para operar com os outros componentes e para atender às suas especificações.

— Seria um grande alívio — respondeu o gerente. — O engenheiro de vocês tinha razão: a coisa é complicada. Não tínhamos percebido.

Lin prometeu despachar a unidade o mais depressa possível. À tarde, estava de volta em Taiwan. Tinha agendado uma reunião com o presidente para o dia seguinte. Já pensava no prazer que teria em contar a história. Com isso, iria tranquilizar o chefe sobre o atraso e demonstrar seu próprio tino, pois tinha pedido a Wang que voltasse a montar o protótipo da unidade de controle. Além disso, ia confirmar sua tese de que a equipe da Blue Sky não entendia patavina de sistemas.

Mas a reunião não saiu como esperara.

— Acabei de falar ao telefone com o pessoal da Blue Sky — esbravejou o presidente assim que Lin entrou na sala. Lin nunca vira o chefe tão agitado. — É absolutamente inaceitável!

— Não estou entendendo — disse Lin. — A Blue Sky não dá conta de fazer uma unidade de controle sozinha, por isso quer terceirizar a tarefa para nós. Vamos ter um papel muito mai

or no desenvolvimento do protótipo, o que significa que provavelmente vamos ter muito mais negócios com eles no futuro. É positivo.

— Mas você não está sabendo? Há uma condição — disse o presidente. — Eles só vão aceitar nossa unidade de controle do veículo se a propriedade intelectual for deles.

Lin ficou tão surpreso que só conseguiu ecoar as palavras. — Deles?

— Pois é! Teríamos de abrir o código-fonte do software para eles e entregar todos os algoritmos do sistema de controle. Caso contrário, não vão aceitar a unidade, o que significa que não terão um controlador para o carro, e tampouco o carro!

Com toda a discussão sobre engenharia reversa, não tinha ocorrido a Lin que a montadora poderia exigir a propriedade intelectual da Prime para fechar o acordo. Pensou em tudo o que dissera para garantir que os gerentes da Blue Sky não eram bambas. O que o “professor” diria agora? Que a montadora tinha atraído a Prime para uma parceria que tiraria dela, a menor das duas empresas, sua propriedade intelectual?

—           Eles alegam que precisam disso — continuou o presidente. — Sem a propriedade intelectual, dizem, os demais componentes que queríamos vender a eles não teriam qualquer utilidade. Nesse caso, buscariam outro fornecedor que entregasse o pacote inteiro. Mas, se aceitarmos essa condição, como vamos seguir vendendo na China?

RESPOSTAS

Se fosse o presidente da Prime, desistiria do contrato. A Blue Sky pode até vir a fabricar milhões de veículos equipados com seus componentes. Mas, se o negócio minar a capacidade da Prime de ganhar dinheiro no futuro, qual o sentido?

A Prime investiu uma bela quantidade de tempo e dinheiro para descobrir como criar componentes para veículos híbridos. Tenho certeza de que Wang e equipe passaram pelas aventuras e desventuras típicas de inventores: toparam com problemas aparentemente sem saída, desanimaram, acharam soluções. A propriedade intelectual da empresa é resultado dessa labuta. Se a Prime entregar à Blue Sky o código-fonte do sistema, a montadora estará imediatamente em pé de igualdade.

É preciso observar que grandes fabricantes como a Blue Sky nem sempre são as empresas chinesas mais propensas a fazer engenharia reversa e copiar tecnologias alheias. Muitas vezes, é com as pequenas que é preciso se preocupar. À medida que ganham porte e se globalizam, muitas empresas chinesas aprendem que é preciso respeitar a propriedade intelectual de outras companhias — caso contrário, terão dificuldade para achar parceiras. Aliás, as maiores fabricantes chinesas fazem exatamente o que empresas europeias e americanas fazem: travam uma briga constante para impedir a violação desses direitos. A qualquer momento, uma multinacional chinesa pode estar com cem ações correndo na Justiça.

O que destoa, no caso da Prime, é que a parceira não está tentando roubar sua propriedade intelectual — quer comprá-la. Mas esse detalhe não importa muito. O fato é que, quando se vende uma tecnologia, não há como impedir que o comprador a “desmonte” e descubra como funciona. Pode até ser que os engenheiros da Blue Sky não tenham competência para uma engenharia reversa complexa, como sustenta Lin. Mas as ideias na base da tecnologia estariam em risco, por mais sofisticado que seja o lado científico e por mais entraves que a Prime tente impor à Blue Sky. Isso vale não só para a propriedade intelectual na forma de material patenteado, mas também para a propriedade intelectual representada por segredos comerciais incorporados a dispositivos e software.

Inserir esse conhecimento tácito em uma tecnologia é uma arte, por sinal. Tem fornecedor que não só incorpora esse “know why” para tornar difícil a clonagem de sua tecnologia, mas também insere elementos sem qualquer finalidade só para despistar. Dá para entender a utilidade disso: se outra empresa lançar um produto similar que contenha esses elementos inúteis, seria óbvio para um tribunal que essa concorrente havia clonado o produto.

Isso posto, incorporar conhecimento tácito muitas vezes serve apenas para a empresa ganhar tempo. A certa altura, é muito provável que uma concorrente determinada vá descobrir como a tecnologia funciona e como é fabricada.

Há, então, algo que a Prime possa fazer para se proteger? Uma opção é impor à Blue Sky uma cláusula de auditoria, o que significaria permitir que uma das grandes auditorias internacionais monitorasse o uso da propriedade intelectual da Prime pela estatal chinesa e receitas auferidas pela montadora por conta dela. Outra é incluir subsidiárias estrangeiras da Blue Sky como partes no contrato. Dessa forma, se a Prime suspeitar que sua propriedade intelectual tenha sido violada, poderia entrar com uma ação no país da subsidiária, o que pode dar resultados melhores do que apelar para a Justiça chinesa.

Mas são soluções paliativas, quando muito.

Eric Giler é presidente da WiTricity, que desenvolve tecnologias para transmissão sem fio de energia elétrica.

Para a Prime, talvez seja vantajoso garantir à Blue Sky alguma forma de acesso ao código-fonte da tecnologia. Se isso parece um contrassenso, permitam-me que retroceda um pouco.

Acredito piamente que uma empresa deve proteger sua propriedade intelectual. A Prime passou anos investindo em pesquisa e desenvolvimento, e as tecnologias disso resultantes representam seu fluxo de receita no futuro.

O setor de telefonia celular, no qual a Ericsson atua, é distinto da indústria automotiva devido à necessidade de interoperabilidade (uma pessoa pode usar seu smartphone na China com a mesma facilidade com que o usa nos Estados Unidos). Algumas patentes da Ericsson são essenciais para o desenvolvimento de padrões do setor e, portanto, graças a um vasto programa de licenciamento com termos “justos, razoáveis e não discriminatórios”, disponibilizamos essas patentes no mercado. Isso nos dá um sólido retorno no investimento em pesquisa e desenvolvimento, beneficia empresas estabelecidas e permite que novas empresas entrem no mercado.

Mas também investimos em soluções fechadas — o equivalente, em nosso caso, do código do sistema da Prime. Não disponibilizamos essas soluções às concorrentes e as protegemos com todos os instrumentos a nosso dispor. Recorremos à Justiça tanto quando uma empresa rejeita sem justificativa nosso programa de licenciamento como quando vemos o uso não autorizado de nossas soluções fechadas.

Diante da ameaça a sua propriedade intelectual, é prudente da parte da Prime incorporar o conhecimento tácito em seu software. Embora possa dar alguma proteção, essa abordagem é irrelevante se uma parceira simplesmente exige a propriedade intelectual de uma tecnologia, como a
Blue Sky fez. É uma ameaça que a Prime aparentemente não esperava.

A reação da Prime foi enxergar duas saídas igualmente indigestas: entregar a propriedade intelectual à montadora ou desistir do contrato. Mas pode haver interesses estratégicos legítimos por trás da exigência da Blue Sky, e se a Prime souber entendê-los, talvez seja capaz de chegar a uma solução vantajosa para ambas.

A Blue Sky pode ter dúvidas sobre as perspectivas da Prime na área de veículos híbridos. É inquietante que a empresa esteja penando para conquistar grandes clientes. Se a Blue Sky fizer um investimento expressivo na Prime e a unidade automotiva da empresa tiver problemas ou encerrar as operações, os negócios da empresa chinesa poderiam estar em perigo. Nesse caso, o acesso ao código-fonte seria uma tábua de salvação.

Se esse for o temor, a Prime poderia incluir uma cláusula no contrato pela qual a Blue Sky não teria acesso ao código enquanto a unidade automotiva da Prime seguisse no negócio. Se por algum motivo essa unidade fechasse as portas, no entanto, a chinesa teria acesso ao código-fonte. Nada mais justo — e a Blue Sky sem dúvida aceitaria a cláusula (partindo do princípio de que está agindo de boa-fé).

Esse dilema suscita uma questão maior: a Prime precisa adquirir traquejo em licenciamento e propriedade intelectual.

Entre grandes empresas de tecnologia, há um grande movimento de licenciamento cruzado. A Ericsson tem mais de 90 acordos em vigor, incluindo vários com empresas chinesas que concorrem conosco. Nossos contratos são globais e, caso sejam desrespeitados, podemos tomar medidas legais onde quer que a infração tenha sido cometida.

Na mesma veia, se a Blue Sky quisesse clonar a tecnologia da Prime e vender os componentes resultantes fora da China, a Prime poderia recorrer à Justiça nesses mercados. O recurso seria mais difícil na China, pois, mesmo com o evidente progresso feito nos últimos anos, a legislação chinesa nem sempre é aplicada de modo previsível, e a Justiça ainda não é totalmente transparente.

Se a Prime quiser um lugar no panteão de fornecedoras inovadoras para a indústria automotiva avançada, será preciso tratar a gestão de direitos de propriedade intelectual como uma competência essencial.

Mats H. Olsson é vice-presidente sênior do Ericsson Group e presidente da Ericsson para o nordeste da Ásia.

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