O falecimento de Steve Jobs foi, sem duvida, uma nota triste para os amantes da inovação tecnológica. Ser capa de todos os periódicos importantes do mundo, mesmo competindo com o agravamento da crise financeira europeia, mostrou a importância do criador da Apple para o publico em geral.
 
Steve Jobs era um mago do design. Sua genialidade dava uma forma quase perfeita a ideias que se encontravam disponíveis, mas isoladas umas das outras. Ele era uma espécie de catalisador de inovações. Fez isso com o Macintosh, quando criou um computador pessoal incrivelmente amigável  usando novas tecnologias como interface gráfica e mouse. Separadamente, nenhuma destas ideias foi sua, mas ele bolou um conjunto tão harmônico que acabou se tornando a base para a indústria de PCs até os dias de hoje. A mesma mágica ele operou inúmeras outras vezes, com exemplos memoráveis como o iMac, iPod, iPhone e iPad. E alguns fracassos como o Newton e o Next.
 
Entretanto, acredito que esta trajetória de muitos sucessos e poucos fracassos, talvez o aproximasse da figura de um grande líder da indústria de tecnologia, como Akio Morita, líder da Sony e pai de maravilhas como o walkman e o videocassete. Para se tornar um mito de magnitude global, foi preciso que as tecnologias digitais passassem a ter uma importância fundamental na sociedade de consumo.
 
De fato, até 20 anos atrás, as tecnologias adotadas pela sociedade, tinham origem nas inovações militares, aeroespacial, industrial e médica. Os primeiros computadores, sensores inteligentes, robôs, etc foram desenvolvidos para atender demandas especificas ligadas a estratégias de defesa ou mandar o homem para o espaço. Uma vez que as tecnologias fossem dominadas, sempre através de grandes investimentos e muitas vezes subsidiados pelo estado, seus custos diminuíam e começavam a aparecer usos para o mundo do consumo.
 
Ao longo das últimas duas décadas, passamos a viver uma logica inversa. No mundo onde Steve Jobs reinou, as inovações mais transformadoras ocorreram na indústria de consumo, e depois se espalharam para outras utilidades. Por exemplo, as ideias mais inovadoras em computação gráfica, robôs inteligentes e processamento de imagens não estão mais nas agencias aeroespaciais, mas sim nas mãos de usuários de tablets e smartphones. Um exemplo recente foi o lançamento do Siri. A se contar com o repentino sucesso desta aplicação, a tecnologia de reconhecimento de voz deve agora se espalhar entre consumidores, ao mesmo tempo em que se aprimora e cria complementos de software. Daí então, outros setores da economia se beneficiarão desta inovação.
 
Isso ocorre porque os investimentos em P&D para tecnologias digitais migraram para a indústria de consumo, seja porque o retorno financeiro é maior ou porque os estados mais ricos estão com dificuldades para investir em pesquisa neste momento de crise econômica. 
Difícil prever as implicações desta mudança, mas é certo que os nerds de hoje não querem mais projetar naves espaciais. Preferem montar uma start-up e desenvolver aplicações para serem vendidas a um dólar na Apple Store. Houston, we’ve had a problem!
 
Gustavo Roxo é sócio da consultoria Booz&Co no Brasil.
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