Assistimos nos noticiários os anúncios das mais diversas tragédias: guerras civis, alagamentos e enchentes em certas regiões, secas devastadoras em outras, surgimento de novas epidemias e doenças endêmicas e vários tipos de violências do ser humano contra as demais espécies vivas. Ao mesmo tempo, nas partes mais tranquilas dos mesmos jornais, vemos matérias sobre pesquisas que divulgam as maiores potências econômicas a cada ano, os bairros mais ricos de cada país e o crescimento da diferença entre o poder de compra dos mais endinheirados para os mais miseráveis. A segunda linha de situações não é, entretanto, uma proposta de solução aos primeiros e sérios problemas exemplificados. Nossa preocupação central deveria ser resumida em uma única pergunta: o que fazer para atingir de uma vez por todas os ideais sustentáveis que permitirão a sobrevivência do nosso planeta? Ou melhor, a nossa sobrevivência nele?

 

Existe uma forma de mobilização em favor do meio ambiente célebre no mundo virtual que propõe uma mudança estrutural no funcionamento da sociedade. É o polêmico Zeitgeist, popularizado por um documentário produzido e lançado na web em 2007. À ideia central de que manter o status quo atual vai levar à extinção dos recursos naturais e da espécie humana é proposta uma solução: o Projeto Vênus. Partindo do pressuposto que um planeta que se mantém sob um regime de coerção – polícia, governo e as demais instituições sociais repressoras – não é civilizado, os precursores deste ideal sugerem a instalação de um sistema econômico completamente novo e baseado nos recursos naturais. Nesta sociedade global futura, não existiria dinheiro, trocas e serviços, apenas um acesso igualitário de recursos a todos os cidadãos. Não consigo deixar de fora aqui o Paul Gilding, com sua pregação há décadas, resumida no livro The Great Disruption. Estas vozes ainda podem parecer utópicas para uma grande parte das pessoas, mas é preciso ter em mente que uma luz no fim do túnel pode ser um trem vindo na direção contrária.

 

Se medidas ambientais urgentes quiserem fazer efeitos na sociedade contemporânea, elas precisam ter efeitos econômicos. De preferência, diretamente no bolso dos cidadãos e das empresas. Há muitos anos uso o termo “mecanismos com dentes”. Aumento drástico dos incentivos fiscais às empresas que elaborarem projetos sustentáveis inovadores, sanções pesadas às que desobedecerem à legislação (mesmo com o objetivo de melhorias tecnológicas). Parece simples, mas implica uma mudança completa de pensamento e estilo de vida que coloca a natureza como a principal preocupação de absolutamente tudo o que fizermos, tanto na esfera pessoal quanto na profissional. É preciso utilizar o dinheiro como uma forma de reforço de comportamento ecologicamente correto.

 

Adotar o modelo de sustentabilidade tornou-se uma obrigação para as companhias. Métodos sustentáveis agregam valor à marca no mercado de ações – como exemplo, temos o Dow Jones Sustainability Index (DJSI) e o Índice de Sustentabilidade Empresarial da BM&F Bovespa (ISE) – e ainda garantem maior tempo de vida à companhia, já que cada vez mais os consumidores estão interessados em saber se o produto que compram vem de fontes renováveis e produz o menor impacto ambiental possível. O resultado é bastante apreciado pelos investidores: as ações destas empresas tendem a se valorizar acima da média, quando observado um horizonte maior de tempo. Isto é um mecanismo com dentes.

 

Mas a realidade do momento atual, ou seja, aos 45 do segundo do nosso tempo no planeta, é um pouco mais imediatista. Se você quer mesmo vestir a camisa para a preservação da Terra, tenha menos filhos. Ou mesmo não tenha filhos. (China usa mecanismos com dentes poderosos nesta área: um filho por família, com poucas exceções, ou pesadas multas, perda de benefícios etc.). Use menos água e nunca suje ou jogue qualquer tipo de lixo em um fio de água, seja corrente ou não. Ah, sim, e diminua consideravelmente o consumo de carne e seus derivados, pois esses animais emitem uma grande quantidade de gás metano, que também colabora para o efeito estufa. Use mais transporte público, compre uma bicicleta e lembre-se de que as pernas são meios de transporte muitíssimo eficazes.

 

Como qualquer empresário e habitante do planeta, vivo o dilema do curto versus o longo prazo. Só que o “longo prazo” está ficando cada vez mais curto, pois já sentimos o câncer de pele nos assediando com um buraco no ozônio cada dia maior, as mudanças climáticas afetando o nosso ambiente de forma cada vez mais agressiva, a poluição nos rodeando em todos os meios possíveis, as montanhas de lixo na terra e nos mares, as geleiras derretendo e estações a cada ano menos definidas.

 

Nosso estilo de vida e a forma de fazer negócios tem que mudar. Uma nova economia está nascendo, economia esta que vai criar os novos ecobilionários. Ela terá mais bits e menos átomos, será mais criativa e inteligente. Ela é a nova roda da fortuna. A escolha parece clara. Se não optarmos corretamente, seremos mordidos pelos mecanismos criados por nós mesmos ou expulsos do planeta. E o duro é que não temos plano B para a Terra.

 

*Jimmy Cygler é Empresário, Presidente da Proxis, foi professor do MBA da ESPM por 13 anos, lutou em quatro guerras em Israel e publicou pela editora Elsevier o livro Quem Mexeu na Minha Vida.


NOTA DA REDAÇÂO: Os textos postados no Blog da HBR Brasil são escritos por autores independentes e não expressam, necessariamente, a opinião da revista e seus editores.

Share with your friends









Submit