No dia 29 de Maio, a Harvard Business Review Brasil realizou seu segundo summit anual sobre liderança, esse ano com foco no tema mindfulness, que, em português, se traduz como atenção plena. Como keynote speaker do evento, participou a professora de Psicologia da Universidade de Harvard, Ellen Langer, que apresentou o resultado de seus mais de 30 anos de pesquisa no assunto. Sua fala, iniciando o dia, cobriu questões como a ilusão do controle, o processo de envelhecimento consciente, stress, o processo de decisão e a saúde.

Ela começou pontuando que em geral as pessoas desconhecem sua própria consciência e, assim, “não sabem que no momento presente não estão realmente lá”.  Nesse sentido, acredito que um dos mais poderosos passos que um líder pode dar é compreender exatamente o que consciência e mindfulness significam, porém, esse é um ato de coragem, pois requer que se olhe no espelho para realmente se conhecer, algo que pessoas em posição de liderança raramente estão dispostas a fazer.

Dos muitos estudos citados pela Ellen, um em particular se destacou. Esse estudo foi realizado com um grupo de músicos de uma orquestra sinfônica. Foi pedido que se dividissem em dois subgrupos. O primeiro subgrupo deveria tocar uma peça de música normalmente, como já estavam acostumados a fazer (quase automaticamente, uma vez que já a conheciam bastante). Para o outro, foi requerido que se concentrassem na música que também estavam acostumados a tocar, porém, cada um em particular, imaginando que aquela seria a mais importante performance de suas vidas. Em seguida, cada subgrupo tocou para uma platéia que não sabia da diferença entre os subgrupos. Após ouvirem, os participantes relataram que apreciaram mais a segunda performance, que era exatamente a dos músicos que tocaram mindfully, ou seja, totalmente conscientes e concentrados no momento presente. Como a Ellen comentou, este fato sugere que “quando as pessoas realizam suas atividades concentradas e conscientes de si mesmas, o resultado inevitavelmente é superior”.

O papel do líder, nesse contexto, portanto, se altera do tradicional comando e controle para um que tem por base o desenvolvimento da consciência nos times, equipes de trabalho e pessoas na organização. Uma vez que trabalha de forma mais presente e consciente de si mesmo, o líder tem ainda como benefício adicional o aumento de seu carisma, empatia com os demais, e, por consequência, se torna mais influente, inspirando as pessoas ao seu redor. Após a apresentação da Ellen, houve um debate muito interessante, com questões dos participantes. Uma delas se referiu à capacidade de inovação, que requer concentração, em um mundo  em que se tem que lidar com a avalanche de informações diárias. Para Ellen, a solução é filtrar o que realmente importa e dedicar tempo para a atividade de inovar.

Durante todo o dia foram apresentados painéis com executivos e gestores relatando suas experiências particulares para se tornarem mais conscientes, bem como sobre como o ambiente corporativo deve ser para que uma gestão mindful possa ser desenvolvida e ser próspera. O passo principal é que a organização tenha um propósito claro e que inspire as pessoas. 

Em nosso livro, Holonomics: Business Where People and Planet Matter, minha esposa Maria Moraes Robinson e eu escrevemos sobre alguns casos de líderes brasileiros bastante inspiradores e que estão transformando sua forma de liderar baseando-se no desenvolvimento da maior consciência de si mesmos. Exemplos como o do presidente do grupo D’Paschoal, Luis Norberto Pascoal, Wilmar Cidral, fundador da Escola de Negócios Sustentare, em Joinville, e Sergio Chaia, CEO e Presidente da Symantec para a América Latina. Como um praticante do Budismo, Sergio é um exemplo excepcional de liderança que pratica mindfulness. No painel de encerramento do evento, Maria convidou Sergio Chaia para integrar um diálogo, no qual foi explorado sua trajetória de vida, carreira e seu processo de transformação pessoal proporcionado por sua descoberta do Budismo. Esse novo caminho que começou a trilhar após algumas frustrações em sua carreira, fizeram com que tivesse um outro olhar sobre sua função de líder e de gestor de pessoas.

Um dos interessantes momentos do diálogo foi quando a Maria lhe questionou sobre o ego e como se relaciona com mindfulness. Como a Ellen já havia comentado, não temos a clareza de que não estamos tendo atenção plena no momento presente, por isso temos que perguntar constantemente a nós mesmos qual é o papel do ego em nossas vidas, e o quanto estamos centrados em nós mesmos, naquilo que é o melhor para nós e para os demais, sem o sentimento de separação e medo. Desenvolver atenção plena é um caminho para monitorar o ego e perceber quando as ações em relação aos outros e ao ambiente ao redor são motivadas por ele ou pelo eu interno, presente.

Em sendo a última apresentação, a Maria fez um resumo do dia e apresentou o que intitulamos de “Escada de Ver”, uma ferramenta que apresentamos em nosso artigo intitulado ‘Holonomic Thinking’, publicado na revista Harvard Business Review Brasil, na edição de abril de 2014. Desenvolvemos essa ferramenta no intuito de ajudar os executivos a fazer uma jornada transformacional de um estado mindlessness para mindfulness.

Durante nosso almoço, conversamos com alguns participantes sobre os desafios para se desenvolver uma liderança e implementar uma gestão baseadas em mindfulness, principalmente em grandes organizações. Maria tem muita experiência em programas de gestão da mudança e explicou que um bom caminho é começar com um piloto em uma área de forma a demonstrar o potencial que uma gestão mindful além de desenvolver as qualidades de relacionamento dos líderes também engaja toda a equipe.

Mindfulness não é meditação, apesar de meditação ser uma prática que ajuda nessa caminhada pessoal, uma vez que trás a mente para o momento presente. O estado de atenção plena trás muitos benefícios para a saúde, para o psicológico, o relacionamento com as pessoas e o meio ao redor, uma vez que expande nossa consciência para além do ego e de suas restrições de apego, desejos e, portanto, insatisfação. É excelente ver que a Harvard Business Review Brasil realmente abraçou esse tema tão atual e fundamental, relacionando vários aspectos da vida como o espiritual e o profissional, demonstrando que a jornada de uma pessoa, independentemente de sua posição em uma corporação, será mais bem sucedida caso tenha maior consciência de seu papel no mundo e tenha claro o propósito de sua vida. Assim, portanto, os líderes precisam, em um mundo cada vez mais complexo e dinâmico, estarem mais conscientes de seu papel e de seu propósito de existência.

Simon Robinson é Fundador da Holonomics Educação e Consultoria e foi um dos fundadores da Genie Internet, o primeiro portal de internet para celular criado no mundo. É coautor do livro Holonomics: Business Where People and Planet Matter (Floris Books, 2014) e editor do blog www.transitionconsciousness.org.

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