A visão do maestro no pódio inspirou muitos pensadores da administração e vive no imaginário de muitos líderes. “Gestão captada perfeitamente em caricatura”, definiu Henry Mintzberg, professor da Universidade de McGill, Canadá. Quando conhecemos o dia a dia do trabalho de um maestro, vamos desvelando suas diversas facetas, que muitas vezes ficam à sombra da imponente figura que empunha sua batuta diante de dezenas de músicos e os comanda com autoridade e precisão. Além do gesticulador e organizador dos sons no concerto, o maestro é antes um ensaiador e um educador. O regente é também um gerente e um líder.

Mas voltemos por ora à figura do maestro no pódio: ela já diz muito sobre liderança: liderança como a arte de comunicar, comunicar como tornar comum. Só com a batuta, com seus gestos, olhar e expressão facial, o maestro constrói uma empatia com o palco e a plateia. Diz muito sem falar quase nada. Chama a atenção para os momentos de tensão, leveza e grandiosidade da obra musical. Comunica a partitura em gestos. A economia gestual do maestro é uma metáfora evidente de muitas das qualidades que a comunicação de um líder precisa demonstrar:

  • propriocepção e consciência coletiva: o maestro precisa ter consciência de si – de sua postura, de sua fala, de seus gestos – e certeza de como atingir todos os músicos com suas informações;
  • clareza, economia e simplicidade na transmissão das informações – um gesto em falso e a orquestra pode se desconcentrar, muitos gestos com pouca informação causam desinteresse e cada músico vai preferir tocar por conta própria: a sintonia da equipe se perde;
  • timing, consciência do ritmo e da hora exata em que é preciso transmitir a informação: uma desatenção e cada naipe de instrumentos ou vozes sai do plano de voo – ou melhor, da partitura; depois do erro, é difícil alcançar de novo o entrelaçamento harmônico das melodias e ritmos;
  • repertório e situação: é preciso ter um repertório de gestos – isto é, de formas de se transmitir a informação; cada situação demandará um gesto, uma fala, um comando.

A equação da boa comunicação é: preparação + situação = comunicação. Assim também, não apenas o maestro é um bom exemplo de líder comunicador, mas a própria orquestra ou coral é um grupo que exalta em alto e bom tom as virtudes da comunicação em um trabalho de equipe.  Há uma complexa divisão de trabalho na música em conjunto. Cada voz ou instrumento está agrupada em um naipe, cada naipe toca uma melodia em determinado ritmo, cada qual ocupa uma posição no palco para dar clareza, harmonia e consistência ao som coletivo que é produzido. Tudo isso demanda uma preparação individual – do corpo à mente, das técnicas de respiração à concentração para o concerto. Demanda também o trabalho repetitivo de ensaios, experimentos com troca de posições, afinação, novas tentativas…

Não parece difícil, saindo do universo musical, vislumbrar paralelos com as atividades cotidianas de qualquer equipe. A autoridade do líder depende da eficácia e também da forma com que se comunica – uma liderança “gritante”, uma voz monótona, gestos tensos, o nariz empinado. Um líder despreparado para comunicar-se com sua equipe, participar de reuniões ou apresentar resultados equivale a um maestro inapto para ensaios ou concertos. Uma equipe com os canais de informação entupidos é um coral rouco. Informações desencontradas, mal entendidos, cochichos para lá e para cá são as primeiras desafinações que fazem o tom da equipe desabar.

Reflitamos sobre esses paralelos no nosso dia a dia e encontremos a afinação perfeita da liderança.

Rita Fucci-Amato é maestrina, pós-doutora em Gestão (USP) e autora dos livros Do gesto à gestão e A voz do líder.

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