Quem não quer ser mais eficiente? Pague alguém para fazer suas compras – e limpar sua casa, passear com o cachorro, levar aquele pacote até o correio. Misture sua comida, assim você não gasta tempo mastigando. Não perca tempo se lembrando de comprar papel higiênico; basta fazer uma assinatura da Amazon Prime.

Deslize para a direita. Toque no aplicativo. Você precisa de mais alguma coisa sob demanda, entregue por drones, no mesmo dia e na mesma hora? Eficiência! Eba!

Mas talvez a nossa nobre busca por eficiência esteja se tornando algo mais parecido com uma frenética – e autodestrutiva – obsessão. A última moda em tecnologia são aplicativos que chamam, sob demanda, um passeador de cão, assistente pessoal, assistente corporativo ou mordomo. São essas, realmente, as inovações que vão mudar tudo, como estão sendo anunciadas? Ou são algo mais parecido com os rumores de uma nova era feudal, em que alguns poucos são mestres, e os demais são aqueles anteriormente conhecidos como servos de classe média? E se forem, devemos desejar uma economia assim – não por razões morais, mas por causa da prosperidade?

Aí está o problema.

A eficiência é um problema da estagnação da economia – não sua solução. Vivemos no que já é, provavelmente, a economia mais eficiente na história humana. Uma na qual você pode dirigir seu carro pela estrada até a o hipermercado local e comprar potes gigantes de bananada a preço de banana.

Eficiência é ser capaz de utilizar recursos a menor custo. E somos super-heróis nisso. Dominamos tudo de uma forma insalubre: nós temos batido os custos graças aos nossos funcionários, pessoas, gestores … funções, departamentos, organizações, indústrias, setores. E agora chegamos a um ponto onde muito do “crescimento” econômico depende de pequenos ganhos marginais de eficiência.

Eficiência, por si só, não é o desafio de uma economia avançada. O que é? Em um nível mais simples, como Michael Porter tem argumentado, é a produtividade. Produtividade não significa apenas fazer coisas mais baratas – mas fazê-las melhor. Como são os avanços de produtividade no mundo real? Curas para o câncer, vacinas, internet, iPhone. Eles não são apenas conveniências de segunda linha; eles realmente mudam dramaticamente a vida das pessoas. Eles criam novos mercados e novas categorias. Eles permitem que você faça mais coisas, não apenas que as faça mais rápido ou através de outra pessoa. Eles criam novas oportunidades de crescimento para outras empresas que podem construir algo a partir deles. No entanto, em muitos aspectos, é precisamente a nossa perseguição implacável e obstinada pela eficiência que tem nos custado avanços de produtividade como esses.

Hoje, os economistas estão franzindo as sobrancelhas e procurando as causas pela desaceleração da produtividade.

Me parece que a resposta está à vista de todos, mas ninguém vê. É uma dureza chegar a descobertas que mudam a vida das pessoas quando você está preso 25 horas por dia por um salário mínimo, trabalhando sob encomenda como mordomo… passeador de cachorro… ou motorista. E, no entanto, há demanda para esses serviços porque as pessoas que os querem também estão trabalhando 25 horas por dia para as empresas que fazem os smartphones, entregam papel higiênico por drone e coordenam carros sob demanda.

A questão não é demonizar os consumidores ou usuários de aplicativos. É pensar um pouco mais sabiamente sobre eles, notar que o foco exclusivo do Vale do Silício não vai proporcionar ganhos econômicos significativos, e que tais aplicativos não devem ser alardeados como inovações revolucionárias que produzem padrões de vida mais elevado.

E, assim, estamos presos em uma economia que só pensa na eficiência – tanto é  assim, que a maioria de nós agora usa as palavras “eficiência” e “produtividade” como sinônimos. Produtividade é sobre “produção” não apenas coisas tangíveis, mas avanços reais, de verdade, que criam valor real. Mas a empresa mais “eficiente” é apenas um software que executa outro software. A economia mais “eficiente” se resume a 99% das pessoas trabalhando como servos de 1%.

Sociedades civilizadas não deveriam querer uma classe de neo-servos. Não apenas por razões morais – embora haja razões morais de sobra. Mas também, e talvez mais sutilmente, por questões econômicas. A economia produtiva depende de avanços que aumentam os padrões de vida e, assim, cria uma desigualdade justa, salários mais altos, e uma classe média que prospera em vez de decair. Para além da produtividade reside o progresso social real. Mas não podemos criar verdadeiros avanços se estamos muito ocupados sendo servos.

Assim, o desafio para nós, como líderes, investidores, inventores, sonhadores e realizadores, é esse: não apenas nos contentarmos com aplicativos que tornam nossa vida um pouco mais fácil. Mas fazer descobertas capazes de abalar as estruturas, que tornem a vida realmente melhor – e dar aos outros a oportunidade de fazê-lo também.

Umair Haque é diretor da Havas Media Labs e autor de Betterness: economics for humans (Harvard Business Review Press, 15 dezembro 2011) e O novo manifesto capitalista: como construir a empresa do século 21 (Actual, 2011). Ele é classificado como um dos pensadores de gestão mais influentes do mundo pela Thinkers50.

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