No ano que passou, examinamos a competitividade americana com a ajuda de um grupo diversificado de acadêmicos, dirigentes empresariais do mundo todo e a primeira sondagem abrangente já feita de ex-alunos da Harvard Business School. Nosso estudo sugere que os EUA enfrentam sérios desafios. Com demasiada frequência, lideranças americanas, no poder público e na iniciativa privada, agiram de modo a neutralizar muitas das vantagens do país. Mas o declínio da competitividade americana está longe de ser inevitável. Os EUA ainda são a mais produtiva das grandes economias do mundo e o maior mercado para bens e serviços sofisticados, o que estimula a inovação e serve de ímã para o investimento.

Para recuperar a competitividade, o país precisa de uma estratégia de longo prazo. Isso exigirá do governo uma série de mudanças em políticas públicas, o que pode parecer improvável com a queda de braço em Washington. Muitas das medidas cruciais, no entanto, podem e devem ser tomadas nos planos estadual e regional, onde residem muitos dos principais motores da competitividade. Mais ainda, lideranças empresariais podem e devem exercer um papel muito mais proativo para transformar a concorrência e investir em comunidades locais — em vez de ser vítimas passivas de políticas públicas ou reféns de acionistas equivocados.

O QUE É COMPETITIVIDADE?

Os EUA não têm como abordar o futuro econômico do país sem uma noção clara do que queremos dizer por competitividade e de como isso determina a prosperidade da nação. O conceito de competitividade é pouco entendido, o que tem consequências perigosas para o discurso político, políticas públicas e decisões de empresas — consequências por demais evidentes atualmente.

Os EUA são um lugar competitivo na medida em que empresas que operam no país são capazes de competir com sucesso na economia global e, ao mesmo tempo, sustentar um padrão de vida elevado e crescente para o americano médio (agradecemos a Richard Vietor e Matthew Weinzierl pela ajuda na elaboração dessa definição). Uma localização competitiva produz prosperidade tanto para empresas como para cidadãos.

Praticar salários menores no país não aumenta a competitividade dos EUA. Um dólar desvalorizado tampouco. Uma moeda mais fraca encarece as importações e barateia as exportações americanas — o que, na prática, constitui um corte nacional na renda. Logo, certas medidas para reduzir custos de empresas a curto prazo na verdade trabalham contra a verdadeira competitividade do país.

A competitividade de uma nação depende, em vez disso, de sua produtividade a longo prazo — ou seja, do valor dos bens e serviços produzidos por unidade de recursos humanos, naturais e de capital. Empresas de um país só vão prosperar e garantir uma renda crescente para seus cidadãos se melhorarem a própria capacidade de transformar insumos em produtos e serviços de alto valor. Aumentar a produtividade a longo prazo devia ser a meta central da política econômica. Isso requer um ambiente de negócios favorável à inovação contínua em produtos, processos e gestão.

Demitir trabalhadores para elevar a produtividade a curto prazo, como muitas empresas americanas fizeram no começo da Grande Recessão em 2008, não é sinal de competitividade, mas de debilidade. Uma economia na qual um grande número de cidadãos em idade economicamente ativa não acha trabalho — ou sequer está buscando — pode parecer desfrutar de alta produtividade no curto prazo, mas na verdade tem problemas subjacentes de competitividade. É a capacidade da nação de gerar um produto elevado por cidadão empregável — e não por pessoa ​​atualmente empregada — que revela sua verdadeira competitividade.

Aumentar a competitividade não é o mesmo que criar empregos. Governantes até podem estimular a criação de postos de trabalho a curto prazo com a inflação artificial da demanda em atividades locais que exigem alta mão de obra e são imunes à concorrência internacional, como a construção. Criar vagas sem melhorar a produtividade, no entanto, não vai produzir o emprego sustentável capaz de elevar o padrão de vida da nação. Em vez de adotar como única meta a criação de empregos, os EUA devem tratar de transformar o
país
num lugar mais produtivo, o que promoverá a expansão de vagas com altos salários no país, atrairá investimentos estrangeiros e contribuirá para o crescimento sustentável da demanda de bens e serviços locais.

Iniciativas do poder público para estimular a demanda também são distintas de melhorar a competitividade. O Estado em geral exerce um papel importante ao elevar temporariamente os gastos para amenizar o impacto de uma recessão. Tais medid
as
podem sustentar o padrão de vida e o desempenho de empresas no curto prazo, mas em geral não melhoram os motores fundamentais da produtividade e, portanto, não são capazes de melhorar o padrão de vida e o desempenho de empresas no longo prazo.

A competitividade americana é importante não só para empresas sediadas ou instaladas no país, mas também para empresas estrangeiras que operam nos EUA. Empresas estrangeiras contribuem para a prosperidade americana se instalarem, no país, atividades produtivas que gerem empregos com bons salários. Subsidiárias americanas de empresas estrangeiras responderam por quase 5% do emprego na iniciativa privada no país em 2009.

A competitividade não é um jogo de soma zero, no qual um país só ganha se outros perderem. A produtividade a longo prazo — e, junto com ela, o padrão de vida — pode melhorar em muitos países. A competição global não é uma disputa por um estoque fixo de demanda; no mundo todo, enormes necessidades para elevação do padrão de vida estão esperando para serem satisfeitas. Avanços de produtividade em um país geram uma demanda nova por bens e serviços — demanda que empresas em outros países podem explorar. Uma maior produtividade na Índia, digamos, pode produzir salários maiores e mais lucro no país, aumentando a demanda de produtos farmacêuticos fabricados em New Jersey e software do Vale do Silício. A difusão da inovação e de avanços em produtividade permite que a prosperidade mundial cresça.

Já que a economia mundial não é um jogo de soma zero, o declínio da competitividade americana não é um problema só para os EUA. A economia mundial sairá perdendo se a maior economia do planeta estiver fraca, deixar de ser um motor da inovação e perder influência na criação de um sistema de comércio global justo e aberto.

 

EUA TÊM UM PROBLEMA DE COMPETITIVIDADE?

Seria fácil culpar a severa crise cíclica que abalou os EUA pelos desafios econômicos hoje enfrentados pelo país. Com isso, a política econômica poderia se concentrar exclusivamente em medidas para estimular a recuperação — basicamente o que ocorreu nos últimos três anos.

Para respaldar a tese de que os problemas americanos são de caráter cíclico, e não estrutural, poderíamos citar o fato de que a produtividade do trabalhador no país se manteve e de que o lucro das empresas bateu recordes em 2010. Infelizmente, esse retrato oculta sinais mais profundos de um incipiente problema de competitividade — problema que teve início antes da Grande Recessão e que de certa forma contribuiu para ela. O problema é visível em uma série de indicadores de desempenho econômico, bem como na trajetória de fatores subjacentes que alimentam a competitividade.

Produtividade. No final da década de 1990 e começo da de 2000, a taxa de crescimento da produtividade do trabalhador americano a longo prazo era forte na comparação com a de outras economias avançadas. Antes da crise financeira, no entanto, já vinha perdendo fôlego. De lá para cá, a produtividade foi sustentada em grande medida pelo aumento do desemprego e o declínio da participação da força de trabalho, sinais nefastos para a competitividade do país.

Geração de emprego. Mais inquietante ainda é o cenário da criação de empregos no país. O crescimento do emprego no setor privado a longo prazo caiu a níveis historicamente baixos, tendência iniciada bem antes da Grande Recessão (veja o quadro “Geração nula de emprego”). Em setores expostos à concorrência internacional, praticamente já não há crescimento do emprego.

Salários. Nos EUA, os salários vêm sentindo pressão há mais de uma década. Em 2007, antes da crise, a renda média das famílias no país ficou abaixo dos níveis de 1999 em termos reais — e, desde então, caiu ainda mais. Nas duas décadas anteriores a 2007, a renda subiu, mas ao anêmico ritmo anual de mero 0,5%. Os mais afetados foram os trabalhadores de baixa e média rendas, muitos dos quais estão, hoje, mais expostos à concorrência internacional do que nunca.

Comércio e investimento internacionais. Os EUA ainda são o maior destino do investimento estrangeiro direto (IED) do mundo; contudo o crescimento do IED no país caiu nos últimos anos para taxas inferiores às de muitas outras grandes economias avançadas. E, embora as exportações do país tenham subido na última década, a participação americana nas exportações mundiais caiu consideravelmente e em praticamente toda área. No mesmo período, a Alemanha, por exemplo, registrou fortes ganhos na participação em exportações em vários clusters industriais, incluindo alguns dos maiores do país.


 

Projeções de gestores. Embora os dados sejam preocupantes, mais sombrio ainda é o cenário pintado por administradores na linha de frente da concorrência internacional. Há pouco fizemos uma sondagem de cerca de dez mil ex-alunos da Harvard Business School para avaliar a trajetória dos EUA em duas dimensões que definem a competitividade: a capacidade de empresas americanas de competir satisfatoriamente no mercado global e a capacidade de empresas nos EUA de sustentar um padrão de vida elevado e crescente no país. A grande maioria dos participantes, 71%, previa um declínio na competitividade americana nos próximos anos. Os ouvidos também revelaram que, quando competem com outros países para sediar atividades empresariais, os EUA saem perdendo dois terços das vezes.

FISSURAS NA FUNDAÇÃO

Essa erosão é reflexo de tendências alarmantes em muitos dos fatores na base da competitividade americana. Esse conjunto de fatores, como identificado na obra de Michael Porter, Mercedes Delgado, Christian Ketels e Scott Stern, inclui componentes de natureza macro e micro. Do ponto de vista macroeconômico, uma nação competitiva requer boas políticas monetárias e fiscais (como níveis administráveis ​​de endividamento público), forte desenvolvimento humano (bons sistemas de saúde e de ensino fundamental e médio) e instituições políticas eficazes (estado de direito e organismos legisladores eficazes).

Embora o alicerce macroeconômico crie o potencial para a produtividade a longo prazo, a produtividade efetiva vai depender de condições microeconômicas que afetam a atividade empresarial propriamente dita. Uma nação competitiva tem um sólido ambiente de negócios (incluindo uma moderna infraestrutura de transportes e comunicação, instituições de pesquisa de alta qualidade, regulamentação simplificada, consumidores locais sofisticados e mercado de capitais eficaz), bem como clusters fortes de empresas e instituições de apoio em áreas específicas, como tecnologia da informação no Vale do Silício e energia em Houston. Nações competitivas cultivam empresas que adotam práticas operacionais e de gestão avançadas. Em um país grande como os EUA, muitos dos motores mais importantes da competitividade estão nas esferas regional e municipal, e não na nacional. Embora políticas federais sejam importantes, fatores microeconômicos ligados a regiões — como estradas, universidades, estoque de talentos e clusters especializados — são cruciais.

 

Ao avaliar os EUA por essa ótica, vemos rachaduras importantes nos alicerces econômicos do país, com deterioração particularmente alarmente na competitividade macroeconômica. A lista de problemas inclui níveis de dívida pública que não se viam desde a 2a Guerra Mundial; sistemas de saúde e ensino fundamental cujos resultados, além de insatisfatórios, não refletem as grandes somas neles investidas; e um sistema político polarizado e muitas vezes paralisado (sobretudo no plano federal ) que só produz decisões quando diante de crises. Na competitividade microeconômica, a qualificação decrescente da mão de obra, a infraestrutura física inadequada e a crescente complexidade regulatória neutralizam cada vez mais vantagens ​​tradicionais como a inovação e o empreendedorismo.

Nossa sondagem de ex-alunos da HBS gerou uma avaliação original e oportuna da competitividade geral e de vantagens e desvantagens dos EUA. Os resultados foram um choque de realidade (veja o quadro “Avaliação do ambiente de negócios n

os EUA”, na página 47). Na opinião dos entrevistados, o país está indo de mal a pior em uma série de fatores importantes: complexidade do código tributário nacional, eficácia do sistema político, ensino básico, políticas macroeconômicas e regulamentação. Certas vantagens presentes dos EUA, como infraestrutura de logística e comunicação e grau de capacitação da força de trabalho, estariam em declínio. Vantagens singulares em empreendedorismo, ensino superior e qualidade da gestão seguem intactas, embora precisem superar a crescente debilidade em muitas outras áreas.

Quase dois terços dos participantes da sondagem disseram que o ambiente de negócios nos EUA começa a perder para o de economias emergentes, enquanto apenas 8% disseram que os EUA estão ultrapassando os outros. No geral, o retrato que surge é o de uma economia americana com certas vantagens cruciais, mas perdendo força, com problemas especialmente visíveis na área macroeconômica.

COMO CHEGAMOS A ESSA SITUAÇÃO?

Para enfrentar o problema da competitividade dos EUA, é preciso primeiro entender as raízes intrincadas e interligadas da presente situação. Tais razões são fruto de mudanças na economia mundial e de erros na própria nação americana.

Mais alternativas mundo afora. Ironicamente, o problema americano tem raízes no triunfo do capitalismo ocidental sobre o comunismo tradicional na década de 1980. Dezenas de países até então com economia fechada, fracos direitos de propriedade, corrupção desenfreada, governos instáveis ​​e infraestrutura física decrépita rapidamente se abriram para negócios. Muitos deles lançaram ambiciosas estratégias econômicas para turbinar a competitividade nos planos macro e micro. A crescente prosperidade converteu esses países em mercados desejáveis, atraindo investimento estrangeiro.

Paralelamente, avanços tecnológicos em comunicação, logística e TI tornaram possível integrar cada vez mais países a cadeias de suprimento mundiais. Hoje é viável, e não raro lucrativo, fazer negócios em qualquer lugar e com qualquer lugar. Em 1990, as 20 empresas sediadas nos EUA com a maior base de ativos fora do país tinham 33% do total de ativos no exterior; hoje, a parcela subiu para 58%. E se antigamente a palavra “multinacional” evocava a imagem de uma corporação grande, estabelecida, hoje vemos start-ups com alcance mundial. À medida que foram se desenvolvendo, economias emergentes deixaram de lado operações com intenso uso de mão de obra e baixa tecnologia para sediar atividades com intenso uso de capital e conhecimento.

Em grande medida, a proliferação de possíveis localizações para atividades empresariais aumenta a prosperidade global, permitindo a especialização mais eficaz de recursos e uma maior difusão da inovação. Essa “ascensão do resto” é uma notícia potencialmente ótima para a economia americana, pois economias emergentes prósperas podem ser mercados efervescentes para bens fabricados nos EUA, aliados na defesa de um comércio livre e justo e fonte de inovação. Contudo, com a crescente globalização de empresas, o elo com as comunidades nas quais operam, nos EUA e em qualquer outro lugar, se enfraquece.

Horizonte de tempo menor em empresas e governos. Embora o horizonte geográfico de administradores tenha expandido, seu horizonte de tempo parece ter encolhido. Ativismo de acionistas, incentivos em ações de empresas e diminuição do mandato de gestores sem dúvida trouxeram uma disciplina nova e necessária a empresas americanas, com certos efeitos positivos. No entanto, mercados financeiros e práticas de remuneração de executivos que premiam soluções rápidas e focam a atenção no “resultado trimestral” podem tentar executivos a transferir operações para o lugar que ofereça as melhores condições hoje, em vez de fazer o investimento sustentado e localizado exigido para turbinar a produtividade no amanhã. Particularmente preocupante é a queda, nos EUA, do investimento numa força de trabalho qualificada, em P&D e recursos avançados de manufatura, em redes de fornecedores locais e em instituições locais de ensino — coisas necessárias para elevar a produtividade. A saída mais fácil — e rentável a curto prazo — é migrar, não melhorar.

No governo, o horizonte de tempo também encolheu. Líderes se concentram no que é notícia hoje e nas eleições seguintes, não em políticas necessárias para fortalecer o país para o longo prazo.

Pressão da classe média, desigualdade e promessas insustentáveis. Horizontes geográficos maiores e horizontes de tempo menores obrigam os EUA a realocar trabalhadores e elevar sua produtividade em meio à migração de atividades empresariais. Em princípio, os EUA sairiam ganhando quando uma atividade fabril de baixo valor agregado é transferida do meio-oeste do país para o Brasil, digamos, e com o crescimento resultante no Brasil gerando demanda para produto

s americanos de alto valor agregado. Mas qual o destino daquele trabalhador demitido no meio-oeste americano, sobretudo com os fundamentos competitivos dos EUA se deteriorando?

A pressão resultante é sentida especialmente pelo trabalhador da classe média em setores da economia americana que enfrentam concorrência mundial direta. Nesses “setores transacionáveis”, praticamente não houve crescimento do emprego de 1990 para cá. Além disso, o antigo elo entre salário e produtividade do trabalhador se rompeu (veja o quadro “Vão entre produtividade e salários”, na página 36). Desde a década de 1980, os salários nos EUA vêm subindo a um ritmo mais lento do que a produtividade — hoje, são influenciados pelo desempenho do trabalhador americano vis-à-vis trabalhadores de renda inferior em outros lugares. Não surpreende, portanto, que a renda de famílias de classes baixa e média tenha estagnado.

Na extremidade superior da distribuição de competências e renda, a globalização abriu oportunidades para que indivíduos com talentos singulares prosperem em escala global. Devido a isso, em parte, a remuneração de profissionais altamente qualificados e da alta administração disparou em relação à do trabalhador médio, com a renda ficando mais concentrada na metade superior do 1% que mais ganha (veja os quadros “Renda estagnada” e “Exceto entre os que mais ganham”).

De que maneira a sociedade poderia lidar com essa pressão toda sobre a classe média? A resposta certa inclui redobrar investimentos humanos e tecnológicos necessários para tornar o trabalhador americano altamente produtivo. Em vez disso, desde a década de 1990 o país vem ocultando, de várias maneiras, o problema de estagnação da renda da classe média. Primeiro, com a vasta ampliação do crédito, sobretudo para a compra da casa própria e a monetização desse patrimônio. Essa abordagem contribuiu para a explosão imobiliária e de consumo, mas também para o estouro da bolha, que culminou com a crise financeira de 2008–2009. Segundo, com o arrocho das classes baixa e média, o governo federal americano ampliou benefícios de saúde, com graves consequências fiscais. Terceiro, à medida que postos de trabalho na indústria e em outras atividades do setor privado desapareciam, a folha do Estado cresceu. De 1990 a 2010, os únicos grandes setores da economia americana que criaram mais empregos do que a administração pública foram o de educação e o de saúde (que, aliás, incluem muitos trabalhadores custeados pelo governo) e o de serviços profissionais e administrativos. Enquanto isso, taxas efetivas de arrecadação federal caíram, sobretudo após 2001.

Governo tolhido. Queda na arrecadação, pacotes de estímulo exigidos pela crise financeira e rápido crescimento de gastos na saúde se uniram a outros fatores (duas guerras onerosas, um código tributário disfuncional que limita a arrecadação pelo governo, o envelhecimento da população) para deixar a União e estados americanos com déficits e dívidas estratosféricos.

O resultado é que o governo americano carece cada vez mais de recursos para investir em elementos constituintes da produtividade a longo prazo. Por tradição, o governo sempre assumiu a liderança na oferta de serviços e ativos que se revertem em ganhos para a sociedade, mas trazem baixo retorno para empresas ou indivíduos isoladamente. Em geral, desempenha um papel central no financiamento da educação e da capacitação, de infraestrutura como rodovias, e da P&D. Nos EUA, contudo, esse gasto vem encolhendo como proporção do total de gastos da União nas últimas décadas (embora o pacote de estímulo em 2010 tenha trazido um ligeiro aumento). Em vez de ser usado para investir no futuro, o orçamento federal e dos estados serve agora para pagar pelo passado.

Reorientar a pauta de gastos do governo para o futuro já seria difícil no mais cooperativo dos ambientes políticos. No entanto, junto com a pressão sobre a classe média, vimos o esgarçar do centro na política americana. O ambiente hoje é um dos mais polarizados da história. Ao assumir posturas cada vez mais curto-prazistas, políticos tornaram o ambiente de negócios ainda mais complicado e agora parecem dispostos a jogar ricos contra pobres e a flertar com a catástrofe econômica para promover sua pauta. Peguemos, por exemplo, a queda de braço que quase obrigou o governo federal a dar o calote na dívida em meados de 2011 e provocou um rebaixamento histórico da nota de crédito do país. A incerteza resultante tem feito empresas relutarem na hora de investir nos EUA.

Ciclos viciosos e virtuosos. As dinâmicas aqui descritas se potencializaram entre si de maneiras perigosas. O investimento inadequado em bens públicos, por exemplo, torna os EUA um lugar menos atraente para a condução de negócios, incentivando empresas a investir no exterior. Essa migração da atividade empresarial e a resultante queda na arrecadação de tributos tornam mais difícil para o governo investir adequadamente em bens públicos. Com empresas transferindo postos de trabalho e registrando lucros recordes enquanto os salários no país ficam estagnados, a empresa enquanto instituição enfrenta o ceticismo crescente da sociedade. Com isso, fica mais difícil para lideranças públicas adotarem políticas de apoio à atividade empresarial no país, tornando ainda mais provável a debandada de empresas para outros lugares.

A China, em comparação, soube aproveitar ciclos virtuosos. Dadas as políticas e o porte do país, virou um sério desafio para os EUA. Com os superávits que gera, o país faz investimentos que elevam a produtividade e geram mais superávit; seu crescente mercado interno atrai o investimento de multinacionais, o que por sua vez eleva os salários e o poder aquisitivo da população — e assim sucessivamente. A estratégia econômica da China tira partido do foco imediatista de multinacionais. Para ter acesso ao mercado chinês, por exemplo, certos executivos americanos se mostram incrivelmente dispostos a dividir insights tecnológicos com parceiros chineses que um dia podem vir a ser fortes rivais.

Ao mesmo tempo, muitos consideram que a China desvaloriza artificialmente sua moeda, não protege direitos de propriedade intelectual e causa distorções no mercado por meio das estatais chinesas e de outros artifícios. Não achamos que as políticas econômicas do país sejam sustentáveis ​​ou legítimas, mas a China claramente tem uma estratégia. Já os EUA carecem de uma estratégia coerente e, à medida que as dificuldades internas foram crescendo, abdicaram da liderança na promoção do sistema de comércio e investimento mundial.

Mais do que qualquer sinal isolado de perda de competitividade, são essas espirais que se potencializam, e nossa incapacidade de rompê-las, que nos deixam preocupados com o futuro econômico dos EUA.

Hora de agir, não de desesperar

O retrato da competitividade americana que pintamos é sombrio. Isso posto, seguimos basicamente otimistas quanto ao futuro econômico do país, pois os EUA continuam a ter vantagens profundas dificílimas de reproduzir. O sistema de ensino superior do país e sua comunidade empreendedora continuam a ser o maior motor de inovação do mundo — inovação da qual, em última instância, depende o aumento da produtividade. O país tem uma sociedade aberta e democrática e um sistema meritocrático que atrai muitos dos melhores talentos do mundo. Sofisticados, seus mercados e instituições promovem intensa rivalidade, levando empresas a descobrir novas vias para a produtividade. Empresas americanas estão entre as mais bem administradas do mundo e o mercado de capitais do país continua a ser o mais vibrante apesar da crise financeira. A sociedade americana é mais inclinada, sem sentimentalismo, a deixar que empresas e instituições mais produtivas expulsem as menos produtivas, tornando a economia como um todo incrivelmente dinâmica e resiliente. Sob muitos aspectos, o núcleo da economia americana continua forte.

Nenhuma das dinâmicas que descrevemos é inevitável. Tampouco são ditadas por forças da natureza ou tendências demográficas irrefreáveis. Nada disso. A situação dos EUA é fruto de decisões, e da ausência de decisões, de lideranças públicas e empresariais do país. Medidas exigidas para reverter a perda de competitividade são viáveis​​, embora exijam uma nova determinação a encarar a realidade e a agir com o interesse comum em mente.

Líderes regionais e locais, tanto no poder público como na iniciativa privada, podem tomar muitas das medidas necessárias para aumentar a competitividade sem depender de Washington. O impasse na capital americana não precisa virar um impasse no país todo. Líderes cívicos locais, incluindo empresários, podem e começam a promover muito do investimento em indivíduos, infraestrutura, inovação e instituições exigido para elevar a produtividade a longo prazo.

Para enfrentar os desafios, no entanto, o país precisa de uma estratégia e de um consenso sobre o rumo a tomar, e não de medidas interesseiras promovidas por grupos que defendem apenas a própria causa. O plano deve, em última instância, envolver o poder público em todos os níveis — municipal, estadual e nacional —, bem como a força de trabalho. A nosso ver, o meio empresarial deve liderar o processo. Ao enfrentar problemas no ambiente de negócios e em comunidades locais, a empresa não vai apenas contribuir para a competitividade americana. Vai abrir algumas das maiores oportunidades para inovar e crescer.

 

Michael E. Porter é titular da cátedra Bishop William Lawrence University Professor e Jan W. Rivkin é titular da cátedra Bruce V. Rauner Professor of Business Administration, ambas da Harvard Business School, nos EUA.

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