Cheryl Jamis, a despachada diretora de marketing de uma grande empresa do setor de vestuário no Reino Unido, parece ter tudo o que deseja – inclusive uma sala na ala executiva. Além disso, adora o que faz. A dedicação à carreira, no entanto, começa a prejudicar outro papel importantíssimo em sua vida: o de mãe.

Enquanto a carreira de Cheryl avançava, sua filhinha, Emma, crescia. E, embora equilibrar os dois papéis nunca tenha sido fácil, até aqui fora possível. Sempre que havia uma crise no trabalho, Emma acabava ficando em segundo plano. Mas, agora que completou sete aninhos, está difícil para Cheryl pedir paciência à menina.

Marcus Addison, chefe da executiva, parece entender sua luta para triunfar como profissional e como mãe. Daí a decepção de Cheryl com a resposta de Marcus a sua sugestão de trabalhar em meio período: “Você vai acabar trabalhando o mesmo número de horas por um salário menor, pode crer. Seu cargo é importante, exigente. Não é um trabalho que possa ser feito em quatro dias, muito menos em três”. Para encerrar, Marcus sugere, muito vagamente, que a diretora estaria sendo considerada para uma promoção.

Antes que Cheryl tenha tempo para digerir a informação, surge outra bomba: uma viagem de negócios aos Estados Unidos – grande oportunidade. Embora aceitar signifique cancelar um aguardadíssimo fim de semana a sós com Emma, Cheryl diz sim – para já em seguida se arrepender. Quando vai falar com Marcus para esclarecer a situação, ele nem dá tempo para que comece: a tão aguardada promoção foi adiada, pelo menos por enquanto. Cheryl precisa tomar uma decião: ficar na empresa ou jogar tudo para o ar?

Fictício, o caso traz comentários de Monica McGrath, professora assistente de administração na harton School, da University of Pennsylvania; Rebecca Matthias, co-fundadora, superintendente e diretora de perações da Mothers Work; Robert J. Maricich, presidente da Century Furniture; e Evelyne Sevin, sócia, em Paris, da Egon Zehnder International.


Outra semana extenuante no trabalho, outro compromisso furado com a filha – e, agora, outro adiamento na aguardada promoção. É hora de jogar a toalha?

Cheryl Jamis se reclinou na cadeira de couro italiano e fitou a paisagem do outro lado da janela. O sol, já se pondo, cintilava sobre as águas do rio Mersey. Dali a instantes teria uma reunião com Marcus Addison, seu chefe, e não sabia o que fazer. Deveria pedir demissão? Dar um ultimato para pressionar a empresa? Ou deixar as coisas como estavam por ora e esperar o surgimento de algum fato novo que permitisse que dedicasse mais tempo à filhinha, Emma? Afinal, Cheryl ainda adorava o trabalho.

Na pior das hipóteses, ficaria sabendo mais sobre sobre a promoção que Marcus várias vezes mencionara. Com isso, saberia que alternativas tinha.

Sentiu um nó no estômago só de pensar no último fim de semana, quando evitara por pouco outra crise em casa. Frauke, a adorada babá alemã de Emma, tivera de rumar às pressas para Hamburgo devido a uma doença na família. Por sorte, Cheryl não tinha nenhum compromisso de trabalho urgente naqueles dias. Como o marido, John, estava viajando, ela e Emma haviam aproveitado a ocasião para fazer um programa “só para mulheres”.

“Mamãe, eu queria que você não trabalhasse”, dissera Emma a certa altura. “A gente podia ficar sempre juntinhas.”

Cheryl fizera um afago na cabecinha da filha. “Preciso trabalhar, meu amor. Um dia você vai entender.”

A experiência fizera Cheryl perceber como sentia saudades da filha. Na segunda de manhã, sentiu um leve desconforto em deixar Emma com a avó, que viera de Londres para tomar conta da neta até que a babá voltasse.

Cheryl suspirou e fez a cadeira balançar com os pés. Tudo bem, pensou, as coisas logo, logo vão entrar nos eixos. Ou não. Pena que o risco de não ter com quem deixar Emma não a tivesse colocado mais perto de uma decisão sobre o futuro.

Tentou recordar como chegara àquela encruzilhada depois de ter passado boa parte da década em uma empresa pela qual sentia tanta empolgação.

Grande malabarista

Cheryl era gerente de contas de uma agência seleta de publicidade quando a Copro a cortejou – e conquistou. A executiva fora contratada pela loja de roupas – que vendia com exclusividade uma marca famosa de jeans, a Smitty – para comandar uma equipe de marketing interna e ajudar a lançar uma linha nova para o público mais jovem, mais antenado. Cheryl ficara feliz em deixar o ritmo alucinado da agência e adorara o status conferido por encabeçar um grupo talentoso de designers, redatores e especialistas em mídia.

Foi uma união feliz. A ambição, as idéias, a energia e o entusiasmo de Cheryl eram tudo o que o departamento de marketing precisava. Quando um de seus comerciais para a TV – no qual uma bela jovem estreava um par de jeans Smitty com uma cavalgada – conquistou o cobiçado prêmio Olie, Marcus lhe entregara uma garrafa de champanhe a mando do presidente da Copro, Derek Lee. “Continue assim, Cheryl!”, dizia o cartãozinho. Cheryl guardou a mensagem para si, mas fez questão de dividir o crédito – e o champanhe – com a equipe.

A executiva fora promovida a diretora de marketing quando grávida de Emma. Na época Marcus dissera que a empresa esperava que ela voltasse finda a licença. Cheryl fez de tudo para não frustrar as expectativas. Quando Emma tinha apenas três meses voltou a cumprir o horário integral, deixando a filha aos cuidados da primeira babá – que um belo dia deixaria Emma sentada no carrinho do supermercado enquanto colocava as compras no porta-malas do carro, por pouco não deixando a menina no estacionamento.

Cheryl gostava das novas responsabilidades na Copro e sua reputação, já boa, melhorou ainda mais. Às vezes, porém, a vida com uma criança pequena era dificílima para um casal que trabalhava fora, como ela e John. Um ano e meio atrás, com John em outra longa viagem de trabalho, Emma pegara uma gripe na escola – gripe que virara uma bronquite séria e contagiara até sua babá, Frauke. Por dez dias Cheryl alimentou as duas com canja de galinha, limpou o vaporizador e tentou trabalhar – apesar dos surtos de tosse das duas. Não dera muito certo.

Seis meses depois, perguntara a Marcus se podia reduzir sua carga horária.

“Tenho certeza de que você vai achar que é meio tarde para isso, a Emma já tem sete aninhos”, disse Cheryl a Marcus.
Marcus assentiu, os olhos mostrando solidariedade. “Não sei como você consegue. Sem o apoio da minha mulher, não conseguiria me dedicar tanto.”
Cheryl deu um sorriso amarelo. É verdade que John não ajudava muito em casa, mas Frauke era nota dez e Emma adorava a babá. “Conseguir eu consigo, Marcus. Talvez eu devesse ter passado para meio-período quando ela era menorzinha, mas n
a
época não era o que eu queria. Agora que ela está crescendo, parece que minha presença é mais necessária”, disse Cheryl.Marcus tirou os óculos e limpou as lentes com a ponta da gravata, em um gesto nervoso que, para a causa de Cheryl, não era bom sinal. “Cheryl, não vou dizer não”, disse. “Essa decisão cabe a você, naturalmente. Mas eu sou contra a idéia, não só como seu chefe, mas como amigo.”

Marcus deu um tapinha na mão da executiva. “Você vai acabar trabalhando o mesmo número de horas por um salário menor, pode crer. Seu cargo é importante, exigente. Não é um trabalho que possa ser feito em quatro dias, muito menos em três.”

“A equipe pode sair ganhando com mais desafios”, começou Cheryl. Marcus se inclinou em sua direção e interrompeu o discurso.
“Cheryl, você montou uma equipe incrível nos últimos cinco anos, e agora está pronta para cuidar de coisas mais estratégicas, o que vai ser crucial para seu próximo avanço na hierarquia.”Cheryl piscou, surpresa. Não havia pensado em promoção. Ficava lisonjeada, é claro, mas aquilo não estava em seus planos naquele momento. Ou estava? “Não”, disse a si mesma, com firmeza. Só consideraria algo assim quando Emma fosse para a universidade. Mas, já que Marcus falara em promoção, pensou em pedir um horário de trabalho flexível.
“Em outras ocasiões a empresa pareceu.” – fez uma pausa, em busca da palavra certa – “.pouco disposta a flexibilizar meu horário de trabalho. Queria saber se podemos voltar a discutir essa possibilidade.”
Marcus ergueu as sobrancelhas e se reclinou na cadeira. Cheryl sentiu que parte da tensão no ar se dissipava. “Qual sua idéia?”, perguntou o chefe.
Os óculos de Marcus refletiam a luz do sol no rio e Cheryl não podia ver seus olhos. Não sabia até onde insistir. “Em geral, Emma volta da escola às três da tarde. Eu podia chegar e sair mais cedo em certos dias.” A sugestão foi feita em tom de afirmação, não de indagação.Marcus cerrou os lábios e tamborilou na mesa. “Você passa boa parte do tempo orientando a equipe. Será que um esquema desses vai funcionar?”
Cheryl pensou antes de responder. “Nas terças não deve haver problema. É a tarde em que todos na equipe se reúnem com os colegas em vendas e produção.” Parou de novo. Em geral não tinha nada marcado nas tardes de quarta, mas se Derek ou Marcus decidiam fazer uma visita, em geral era esse o momento que escolhiam. Deu um suspiro. Talvez fosse melhor deixar esse dia de lado. Baixou os olhos, até então voltados à vista lá fora, e encarou Marcus. “Nas quartas provavelmente não daria, mas acho que nas quintas, sim. É o dia em que faço reuniões com o grupo, mas poderia transferi-las para a quarta de manhã. Como seria bem no meio da semana, talvez fosse até uma oportunidade para tomarmos o pulso da situação antes de seguir em frente.”
“Parece viável”, disse Marcus, abrindo um sorriso. “Já vi que terei de programar alguma reunião para as terças e as quintas logo cedo.”
Marcus veio e tocou de leve o ombro de Cheryl. A executiva levantou, fez um aceno e deixou a sala. O plano não era tudo o que queria, mas já era um começo.
Sem tempo para lágrimas
Em poucos meses já estava claro que a ligeira mudança no horário não bastaria.Emma ligou para o celular de Cheryl minutos antes de uma reunião de cúpula na qual a executiva faria uma importante exposição sobre marketing. Ao ouvir o tom choroso de Emma, Cheryl engoliu a própria ansiedade e tentou manter a voz calma.
“O que foi, meu anjo? Qual o problema?”
“Mãe, você prometeu que vinha.”
“Vinha?”, ecoou Cheryl, vasculhando a mente para lembrar o que havia esquecido.
“Minha peça, na hora do almoço. Você disse que ia assistir.”
Cheryl sentiu o estômago revirar. Soltou um palavrão, baixinho.
Passou uma vista rápida pela sala, que rapidamente enchia. Os executivos conversavam, buscavam seu lugar. Em poucos minutos a reunião começaria. Simplesmente não havia como Cheryl sair dali naquele momento. “Meu amor, me desculpa. Esqueci. Eu me sinto péssima, mas não posso ir para aí agora.”
“Não importa, mãe. Já acabou mesmo.” Emma desligou.
“Vou compensar isso, filhinha”, sussurrou no telefone já mudo. Se tivesse um pouco mais de coragem, pararia de negociar com a Copro e assumiria uma posição firme. Lembrou de uma velha amiga, Nancy, que deixara a agência de publicidade para trabalhar por conta própria. Por que não seguir o exemplo?
Resolveu correr ao banheiro para se recuperar longe dos olhares. Diante do espelho, respirou fundo e encarou o próprio reflexo. Não tinha o ar de quem acabara de sair de outra cena da saga da “péssima mãe”. Aliás, seria possível ser uma executiva de destaque e boa mãe ao mesmo tempo?
Cheryl suspirou. De nada serviria seguir com aquele autoflagelo. Juntou uns fios de cabelo rebeldes e prendeu tudo com um grampo. Talvez estivesse exagerando. No outro fim de semana estaria livre. E se aproveitasse para levar Emma ao parque temático Alton Towers? Era uma ótima idéia. Depois da reunião ligaria para o hotel e faria reservas. E quem sabe o departamento de RH não tinha sugestões para que desse um jeito nas coisas a longo prazo?
Com o ânimo já melhor, Cheryl voltou à sala de reuniões. Os executivos estavam todos sentados. Chegara a hora. Cheryl fez um esforço para se concentrar. Rumou para seu posto, no pódio.
A apresentação passou sem que notasse. Ao concluir o resumo final, foi aplaudida. Cheryl levantou os olhos, aliviada. Desligou o computador, guardou o laser pointer e juntou o restante do material. Prendeu a respiração ao ver que Derek se aproximava. “Muito bem, Cheryl”, disse o chefe, todo sorrisos. A executiva agradeceu com outro sorriso e pensou: “Pode me chamar de supermulher”.
De volta a sua sala, Cheryl fez a reserva para o fim de semana no parque, o que a ajudou a parar de se torturar mentalmente. Ficou ali saboreando o elogio de Derek por uns instantes antes de voltar ao trabalho.
No dia seguinte, Marcus a chamou. Cheryl se sentia bem. Ainda estava animada com o comentário de Derek e aliviada por ter deixado Emma feliz. Na noite anterior, a menina não parara de falar sobre sua diversão favorita no parque temático. Além disso, Cheryl achava que o RH teria, sim, algo a sugerir para sua situação. Depois de falar com Marcus iria direto para lá.
“Bom trabalho, Cheryl”, disse Marcus, um sorriso estampado no rosto bronzeado. “A apresentação foi excelente e a proposta da campanha é muito boa. É criativa, original. Tenho certeza de que será aprovada pelo conselho na reunião de amanhã.”
“Obrigada, Marcus. Fiquei contente com a reação.””O Derek ficou impressionado. É sua chance de subir ao alto escalão.”
Cheryl se endireitou na cadeira. Era a segunda vez que Marcus falava em uma promoção nos últimos meses. A executiva sorriu. “Você tem algo específico em mente?”
“Nada concreto”, disse Marcus. “Mas há um par de possibilidades que poderiam se materializar.”
Mentalmente, Cheryl começou a rever todo cargo de diretoria que estaria a seu alcance. Subir a um posto daqueles seria espetacular – a executiva seria uma das poucas mulheres em tal nível. Apesar da despistada de Marcus, Cheryl o conhecia o bastante para achar que por trás daquela fumaça havia fogo.
Com uma certa surpresa, a executiva notou que a perspectiva a deixava empolgada. Contrariada, sacudiu a cabeça. Se não conseguisse definir o que queria da vida e quais suas metas, jamais chegaria a uma conclusão sobre o que fazer.
Era como se Marcus estivesse lendo seus pensamentos. “Foi bom você ter desistido da idéia de trabalhar em meio período lá atrás.”
Cheryl se endireitou. “Foi, é? E por quê?”
Com certeza ele notara o brilho no olhar dela. “Cheryl, você sabe como são as coisas. A empresa tem sido flexível com seu horário de trabalho, mas olhe ao redor. Nem aqui, nem em outra empresa, há muita gente no topo trabalhando em meio período. Se a promoção é importante para você, o caminho não é esse.” Marcus prosseguiu. “Você está muito bem posicionada do jeito que está.”
Cheryl lembrou do choro de Emma ao telefone e perguntou a si mesma o quão bem posicionada estava de fato. O RH, voltou a pensar, certamente teria algum conselho útil.
Subitamente, Marcus espalmou as mãos sobre a mesa e ficou de pé. “Acabei de ter uma grande idéia”, disse. “Não sei por que não pensei nisso antes – é justo o que você precisa para ter mais visibilidade e poder se desenvolver. Quem ia era eu, mas, pensando bem, a ocasião seria perfeita para você.”
Marcus tinha um sorriso maroto na cara. Cheryl perguntou: “Qual é a idéia, vamos lá?!”.
“É aquela viagem para Boulder sobre a qual eu estava falando outro dia. Precisamos promover a empresa nos Estados Unidos. A Copro vai montar uma força-tarefa lá no próximo fim de semana. Pensei em mandar você no meu lugar.”
Cheryl sentiu o coração disparar. Era o fim de semana em que levaria Emma ao parque de diversões.
“É muito importante?”
“Você já tem compromisso?”
“Bom, tinha planos”, disse Cheryl. Limpou a garganta para ganhar tempo. “Posso tentar desmarcar…”
“Olha, em termos de exposição, seria fantástico para você.” Marcus a fitou intensamente. “É uma grande oportunidade – se você achar que pode, naturalmente. Se não, eu mesmo vou.”
Cheryl deu um sorriso forçado. Por que não conseguia dizer não? Era uma palavrinha pequena, não podia ser tão difícil assim pronunciá-la.
“Bom, se você acha que vai ser bom para mim, eu topo.”
Marcus sorriu. “Ótimo! Muito bom mesmo. Você não vai se arrepender.”
Cheryl não tinha tanta certeza. Aliás, talvez já estivesse arrependida. Não sabia que desculpa daria a Emma – e teria de marcar para outra data a escapada para o parque temático. Pelo menos seu capital na empresa estava em franca escalada. Quanto mais elevado seu posto, mais flexibilidade poderia ter no trabalho.
Um meio-termo?
“Cheryl, na minha opinião, um executivo do seu nível precisa de alta visibilidade”, disse Deb Roth, diretora de RH. “Isso significa estar aqui, na empresa – e não trabalhando em casa, ou em meio período. Sobretudo se quiser a promoção, que, pelo que você me diz, estaria a caminho.”
“Deb, não quero uma promoção se tiver de abrir mão de todo o resto. Estou tentando achar um jeito de equilibrar melhor as coisas, de dedicar mais tempo a minha filha. Mas acabo de aceitar essa viagem para os Estados Unidos, que, além de não ser essencial, bate de frente com os planos que tinha feito com a Emma.”
“Pensando bem, temos uma série de mulheres com um esquema distinto de partilha do trabalho”, disse Deb. E prosseguiu: “Não creio que estejam no mesmo nível que o seu, mas poderia analisar o caso delas – ou, se quiser, poderia falar com a diretoria sobre o seu caso. Talvez haja algum meio-termo que ainda não consideramos”.
“Falar com a diretoria pode colocar em jogo minha promoção.”
“Não necessariamente. Os diretores estão dispostos a acomodar as necessidades do pessoal, sempre que possível. Vão ouvir – embora eu não possa prometer nada, é claro.” Deb dava batidinhas com a caneta sobre a mesa. “Seria bom se você pudesse definir melhor o que quer. Procurei a ajuda de um coach quando cogitei deixar a empresa, anos atrás.”
Cheryl a encarou, surpresa. “Você também pensou em sair?”
Deb assentiu. “É claro. É difícil, eu sei. Tenho três filhos – que hoje já estão crescidinhos.” Soltou um suspiro. “É mais comum do que você imagina. Ouço muitas histórias. Posso lhe dar o nome de um coach, se você quiser.”
Cheryl pegou o número, mas não ligou.
Hora da verdade
Da janela de sua sala, Cheryl olhou para o rio lá fora. O sol havia se posto, deixando o céu tingido de rosa e laranja. Tomou coragem para se levantar e rumou para a sala de Marcus. Chegara a hora de descobrir que cargo de alto poder estava reservado para ela. Só então poderia considerar as alternativas e tomar uma decisão.
Marcus abriu a porta com um ar contrariado. “Que bom que você veio, precisamos conversar.”Cheryl assumiu um ar de interrogação e sentou na cadeira que ele apontava.
“Parece que o conselho esteve discutindo certos postos na empresa – um debate estratégico, por assim dizer.” Marcus limpou a garganta. “Bom, a promoção que estávamos esperando para você foi adiada. Não permanentemente, veja bem, mas por uns tempos.”
“E o que significa ‘por uns tempos’, Marcus?”
“Não sei bem, Cheryl. Veja bem, lamento muito isso tudo. Sei que você vem passando por uma situação difícil, que está considerando o que fazer daqui para frente. Só peço que não tome uma decisão precipitada.”
“Precipitada!”, pensou Cheryl, contendo um riso sarcástico. Precipitada era tudo o que não tinha sido. Foi invadida por uma idéia – e lançou um olhar inquisitivo sobre o chefe. “Marcus, isso não tem a ver com o fato de eu ter pedido para trabalhar menos, ou em casa, tem?”
“Não, claro que não. Sei que o Derek gosta muito do seu trabalho, tenho certeza de que é só uma questão de tempo. Você é muito valorizada aqui, ninguém quer perdê-la.”
Cheryl fechou a cara. Precisava tomar uma decisão. E já.
Cheryl deve ficar ou partir? Quatro comentaristas dão a sua opinião.
Monica McGrath (monicam2@wharton.upenn.edu) é professora assistente de administração na Wharton School, da University of Pennsylvania em Filadélfia.

É compreensível a frustração de Cheryl Jamis. A executiva está às voltas com a realidade da “dupla jornada” identificada por Arlie Russell Hochschild. A mulher ainda arca com o gro

sso das responsabilidades domésticas. Se somarmos a isso questões ligadas ao chamado “teto de vidro” – falsas promessas profissionais, estereótipos enraizados, obstáculos à ascensão -, veremos que muitas chegam a um limite. Nesse ponto, começam a considerar o preço que estão pagando pela ambição. Frustradas, muitas deixam o trabalho.

Isso posto, Cheryl está despreparadíssima para uma conversa espontânea com Marcus Addison. Em vez de pensar de modo estratégico, age como vítima e espera que o chefe e a empresa resolvam o problema em seu lugar. É algo ingênuo e, pior, perigoso, pois leva Marcus a questionar se a executiva é mesmo tão competente como parece.

Infelizmente, “dar um tempo” – ou, nas palavras de Sylvia Ann Hewlett, tomar a “via de saída” da carreira – seria um grande erro. Daqui a dez anos, quando Emma entrar para a universidade, será muito difícil, até impossível, que Cheryl retome com sucesso a carreira. Como disse Hewlett no artigo de março de 2005 na HBR, apenas 40% das mulheres que deixam a carreira conseguem voltar a um bom posto em tempo integral. E se Cheryl acha que a saída é abrir o próprio negócio, é bom lembrar que quase metade das empresas criadas quebra antes de completar um ano.

Se decidir permanecer no cargo Cheryl terá de lidar com suas prioridades conflitantes de um jeito adequado tanto para ela como para a empresa. Para que seja promovida deve descartar a premissa ridícula de que “é difícil dizer não”. Afinal, é justamente o que está dizendo à promessa que fez a si mesma em relação à filha. Cheryl precisa tomar as rédeas e resolver esse problema com a mesma determinação e otimismo com que enfrentaria um obstáculo empresarial.

A executiva devia se ausentar por uns dias para pensar de cabeça fria sobre a situação. O primeiro a fazer é tentar se colocar no lugar do chefe. Marcus pode ser atencioso e solidário, mas seu foco é aquilo que é melhor para a empresa, não para Emma. Em casa, conta com o apoio da mulher. Logo, não pode entender plenamente a situação de Cheryl – e tampouco decidir por ela. Sua função, como chefe de Cheryl, é garantir que ela comande bem a equipe e contribua para os resultados. E só.

Quando voltar, Cheryl deve mostrar a Marcus por que trabalhar com horários flexíveis não seria prejudicial à empresa. Tendo lembrado a Marcus que é uma executiva tarimbada, ambiciosa, competente e de desempenho comprovado – e mãe também, por sinal -, deve definir os termos do contrato. Deve dizer, por exemplo, que sairá mais cedo alguns dias e trabalhará em casa nas sextas. Deve admitir que o que pede foge à norma, mas que nada impede que façam uma tentativa. Deve sugerir que a mudança seja testada durante um tempo – até a próxima avaliação de desempenho, digamos – e, então, reavaliada.

Cheryl precisa, ainda, dar a Marcus alguma garantia de que valerá a pena assumir o risco. Deve apresentar possíveis benefícios para consideração de Marcus e definir metas e marcos específicos. Dada a boa relação que tem com Marcus e seu valor para a empresa, é bem provável que consiga o que está pedindo.

Será de Cheryl, então, o ônus de atingir – ou, melhor ainda, superar – as metas. Com isso, terá convencido Marcus, o RH e o presidente da empresa de que é digna da promoção. Terá, ainda, mostrado à diretoria que os executivos da Copro podem, sim, tocar a empresa e ter uma vida pessoal saudável, plena. E terá provado que mulheres como ela são vitais para o sucesso da empresa.

Rebecca Matthias (rebecca@motherswork.com) é co-fundadora, superintendente e diretora de operações da Mothers Work, empresa de Filadélfia especializada em roupas para gestantes.
Uma mulher poderosa certa vez me disse que uma profissional ambiciosa em idade de ter filhos tem três opções. A primeira é esquecer a maternidade, investir no sonho profissional e chegar a um posto elevado – e pensar pelo resto da vida como teria sido se tivesse tido filhos. A segunda opção é esquecer a carreira, virar mãe – e viver com a eterna curiosidade de saber até onde teria chegado na empresa. A terceira opção é investir nas duas coisas e não se sair bem em nenhuma.A meu ver, há uma quarta opção, que Cheryl considerou apenas de passagem. Se a Copro não pode dar o que ela quer, Cheryl deveria abrir o próprio negócio.Estava grávida do primeiro filho quando abri minha empresa, em 1982. Na época, outra coisa que me entusiasmava era a idéia de tocar uma boa empresa de roupas para gestantes. Naturalmente tinha ouvido as péssimas estatísticas sobre o fracasso de empresas novas, mas também sabia que comandar meu próprio negócio era a única saída para ter satisfação no trabalho e flexibilidade.

Cheryl tem desejos conflitantes. Quer ser uma alta executiva, mas também quer estar ao lado da filha. Trabalhar por conta própria é a saída. Cheryl sabe operar com metas e é disciplinada – dois requisitos cruciais para o sucesso de um empreendedor. Partindo do princípio de que o casal está disposto a aceitar uma queda na renda dela, Cheryl pode colocar a disciplina que tem a serviço de seu próprio negócio. Para calibrar o sucesso ao longo do tempo trabalharia em projetos – possivelmente para a Copro, que sem dúvida se disporia a contratar seus serviços – enquanto Emma é pequena. Mais tarde, com a filha já na universidade, poderia intensificar o ritmo, dedicar mais tempo e energia aos clientes e buscar de verdade o crescimento da empresa.

Cheryl precisa entender que flexibilidade não significa, necessariamente, trabalhar menos tempo. Se quiser que sua firma prospere, deve se preparar para dar duro – e até para trabalhar mais do que já trabalha hoje. Abrir uma empresa leva tempo – e, à medida que o negócio cresce, cresce também a pressão. Não haverá tempo para toda peça de teatro na escola, e menos ainda para si mesma.

Ainda que Cheryl não decida partir para a carreira solo, sugiro que busque mais instâncias de apoio na arena doméstica. Além da babá, deveria garantir que haja alguém (um parente, uma babá de reserva) para entrar em cena e cuidar da filha caso alguma coisa impeça Frauke de trabalhar.

Se Cheryl decidir trabalhar por conta própria, é indispensável contar com o total apoio do marido. A impressão é que John deixou a administração da casa a cargo de Cheryl e foi investir na própria carreira. É preciso que esteja disposto a pedir mais comida pronta daqui para frente. É preciso que entenda quando Cheryl tiver de dedicar noites – e fins de semana – à empresa dela, e não a ele. Mas, acima de tudo, John terá de incentivar Cheryl durante as altas e baixas do novo negócio. Se estiver disposto a fazer isso tudo, ótimo. Se não estiver, Cheryl nem deve pensar em abrir a própria empresa.

Por último, Cheryl deve entender que, se deixar a Copro para virar empresária, não há volta. É muito difícil que seja capaz de voltar a ocupar uma posição de destaque em uma empresa alheia. E, tendo investido capital, energia e orgulho para abrir e tocar a própria empresa, terá de ir até as últimas conseqüências. As vitórias e as derrotas serão todas suas, e sua vida será uma verdadeira montanha-russa. Mas, se a empresa emplacar, sentirá mais orgulho e satisfação profissional do que julgaria possível sentir com o trabalho na Copro.

Robert J. Maricich (rjm@centuryfurniture.com) é presidente da Century Furniture Industries, com sede em Hickory, na Carolina do Norte.

Um posto na alta gerência é, pela própria natureza, intenso, exigente e de dedicação integral. Francamente, Cheryl não está exibindo aquilo que é mais importante em um alto gerente: poder de decisão, dom de identificar e solucionar problemas de modo proativo, capacidade de definir prioridades e coragem. Embora Marcus tente entender a situação de Cheryl, os atos dela não condizem com o que se espera de um alto executivo em uma empresa global como a Copro. Uma coisa é flexibilizar os horários de Cheryl no atual nível de responsabilidade da executiva; outra, bem distinta, é considerá-la seriamente para a diretoria. São duas esferas muito distintas – e só Cheryl pode decidir em qual deseja estar.

Acho péssimo que Cheryl não faça seu pedido de modo assertivo e confiante, ou que não leve a Marcus um plano embasado explicando em detalhes como a flexibilização do horário funcionaria e qual seria a vantagem para a Copro. Ela já teve um ano para sugerir um esquema de trabalho alternativo e mostrar que a coisa toda funcionaria. Mas, em vez de exibir confiança, empurra com a barriga.

Cheryl tampouco parece ter uma noção clara de prioridades. Um executivo competente com filhos sempre acha um jeito de encaixar um compromisso pessoal importante, como o teatrinho do filho, na agenda. E, ao não dizer na cara de Marcus algo como “Sinto muito, tenho outro compromisso” quando ele sugere a viagem a Boulder, Cheryl está mostrando que lhe falta coragem.

A princípio Marcus lida bem com a situação e merece crédito por ser um bom gerente; aliás, é tudo o que um mentor deveria ser. Com justa razão, vê em Cheryl um investimento, a orienta e dá a ela oportunidades para que triunfe. Reconhece a qualificação de Cheryl e deixa claro que quer que a executiva atinja suas metas pessoais. Deixa até que ela exiba seus dotes para o presidente.

Marcus precisa ter uma conversa franca com Cheryl, frisar que ela é muito prezada na empresa e que está disposto a apoiar a flexibilização do horário se a estratégia for boa para todos. Ao mesmo tempo, deve dizer, com toda sinceridade, que está preocupado com sua indecisão, com sua falta de raciocínio estratégico. A Copro certamente poderia aceitar um meio-termo, mas Marcus deveria insistir em que ela mostre que tem valor e assuma total responsabilidade por encontrar uma saída.

Se Cheryl traçar um plano viável, ela e Marcus devem colocá-lo em prática e ver como a coisa funciona. Cheryl merece a oportunidade de provar que dará conta do recado com um esquema de trabalho menos exigente. Quando sentir que é hora, pode voltar a se dedicar em tempo integral. Àquela altura, e se mostrar mais capacidade de liderança, suas opções poderiam ser reavaliadas.

Já se decidir que quer um cargo mais elevado, Cheryl terá de provar que é capaz de tudo o que se exige de um alto executivo. Marcus terá de seguir orientando Cheryl, incentivando a executiva a assumir responsabilidades e a mostrar coragem – e a trabalhar com o coach recomendado pela diretora de RH. Outra medida útil seria instalá-la ao lado de um alto gerente que tivesse enfrentado com sucesso um dilema profissional similar.

Às vezes, o apoio do superior depende de como é formulada a proposta. Cheryl deve traçar um plano formal, por escrito, que informe como ela enfrentará os problemas – tanto reais como imaginários – que um esquema flexível de trabalho possa trazer. O tema central? “Como meu plano trará vantagens para a Copro.” Por último, ela e Marcus devem sentar e definir quais serão os parâmetros de sucesso. Com isso, ambos saberão se o novo horário de Cheryl permite que ela atinja as metas da empresa. Ou se é hora de ela partir para outra.

Evelyne Sevin (evelyne.sevin@ezi.net) é sócia, em Paris, da Egon Zehnder International, firma mundial de recrutamento de executivos. Está no comando de iniciativas da firma voltadas à mulher e é integrante do conselho da Women’s Forum for the Economy and Society em Paris.
Cheryl é uma mulher de sorte. Tem um bom emprego em uma boa empresa, um chefe que a apóia e um presidente que a valoriza. Seu grande problema não é com a empresa, mas com a filha.Cheryl precisa parar de se sentir culpada em relação a Emma e começar a fazer a filha entender que a vida profissional de um adulto é parte da realidade. Cheryl é uma pessoa ambiciosa, bem instruída, que gosta da satisfação de estar no comando e de atingir suas metas. Conquistou seu lugar no mundo profissional e deveria ter orgulho disso. Não é motivo para que peça desculpas a ninguém – muito menos para a filha. Aliás, essa mostra de ambivalência pode estar enviando a Emma a mensagem errada.O dilema de Cheryl sem dúvida é compreensível. Ela trabalhou a vida toda para chegar aonde chegou. Ao mesmo tempo, adora a filha e lamenta não poder passar mais tempo com ela. Como ainda é o caso na maioria das famílias em que os pais trabalham fora, Cheryl fica com o grosso da carga de cuidar da filha. A maioria das empresas não evoluiu a ponto de ajudar suas profissionais de maior talento a lidar com dificílima e visceral tensão de tentar equilibrar o trabalho e a casa.

Para enfrentar essa tensão fui trabalhar em meio período e coloquei minha ambição de molho por um tempo. Quando vim para a Egon Zehnder, em 1991, tinha dois filhos – um deles com um ano de idade. Na época, não havia muita mulher em altos escalões e a firma adorou me ter como consultora. Assim como Cheryl, pedi para trabalhar menos porque precisava cuidar dos meus filhos, e a firma aceitou meu pedido. Não havia, porém, como ser uma sócia em meio período.

O presidente do conselho, o presidente-executivo e o líder do meu setor queriam me ajudar, mas a cultura da empresa exigia dedicação integral daqueles em altos cargos. Fizemos um acordo: eu viraria sócia quando passasse a trabalhar em tempo integral. Continuei atuando em meio período em projetos importantes, incluindo a criação da maior rede de profissionais do sexo feminino na França – o que me ajudou a ficar por dentro do mercado, a montar minha própria rede, a manter minha qualificação atualizada. Voltei a me dedicar integralmente para poder subir ao posto de sócia depois do nascimento da minha terceira filha – que por coincidência se chama Emma.

Minha experiência me ensinou que, embora a mulher não deva se sentir culpada por pedir o que deseja, é ingenuidade pensar que a empresa pode ou deve mudar as regras para atendê-la. Mais e mais empresas estão criando esquemas de trabalho com horário flexível, o que é louvável; ao mesmo tempo, empresas globais exigem que suas altas executivas possam viajar, trabalhar em lugares distintos do mundo e fazer o que for preciso para garantir o sucesso da empresa. A mulher pode levar o próprio estilo para o trabalho, mas o empenho de tempo e energia é o mesmo para toda pessoa em um cargo elevado, seja qual for seu sexo.

Igualmente importantes para a evolução empresarial são duas perguntas quase nunca feitas: “O que é um bom pai?” e “Como é possível ser um bom pai e, ao mesmo tempo, um executivo de destaque?” Acho incrível que 76% dos presidentes do sexo masculino tenham um cônjuge que não trabalha fora, contra apenas 27% dos presidentes do sexo feminino.

Se quiser manter o emprego e ser promovida, Cheryl precisa parar de senti

r culpa em relação a Emma e começar a lidar melhor com as expectativas da filha. Por mais difícil que seja estar separada da filha agora, Cheryl deve buscar consolo no fato de que, embora não possa “ter tudo” ao mesmo tempo, pode “ter tudo no final”. Quando for mais velha, Emma vai entender que ser um bom exemplo é uma parte enorme de ser uma boa mãe.

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Sharman Esarey (sharman_esarey@yahoo.com) é editora de um guia de justiça criminal para o United Nations Office on Drugs and Crime. É radicada em Viena, Áustria. Arno Haslberger (arno_haslberger@yahoo.com) é professor de gestão de recursos humanos na Webster University, em Viena, e na Ashridge Business School, em Londres, Inglaterra.
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