O lançamento do 787 pela Boeing foi marcado por enormes estouros de orçamento e incêndios de baterias. Qualquer produto pode ter problemas técnicos, mas o que chama a atenção no caso do 787 é que eles resultaram exatamente do tipo de decisões que Wall Street diz para os executivos tomarem.

Antes de sua fusão de 1997 com a McDonnell Douglas, a Boeing tinha uma cultura orientada para a engenharia e um histórico de aposta em investimentos arrojados em novos aviões. A McDonnell Douglas, por outro lado, era avessa ao risco e focada no corte de custos e no desempenho financeiro, e sua cultura passou a dominar a empresa resultante da fusão. Assim, apesar das objeções de engenheiros com longa carreira na Boeing, o 787 foi desenvolvido com um nível de terceirização sem precedentes — em parte, acreditavam os engenheiros, para maximizar o retorno sobre ativos líquidos (Rona) da Boeing. A terceirização removeu ativos do balanço da Boeing, mas também tornou a cadeia de suprimentos do 787 tão complexa que a empresa não poderia manter a alta qualidade que um avião requer. Assim como os engenheiros tinham previsto, o resultado foram atrasos enormes e custos galopantes.

A decisão da Boeing de minimizar seus ativos foi tomada com Wall Street em mente. O Rona é usado por analistas financeiros para julgar executivos e empresas, e a fixação com esse tipo de métrica tem influenciado as escolhas de muitas empresas. De fato, um estudo dos economistas John Asker, Joan Farre-Mensa e Alexander Ljungqvist mostra que o desejo de maximizar o preço das ações no curto prazo leva companhias de capital aberto a investir apenas metade do que as de capital fechado em ativos. A pressão para reduzir ativos fez a Sara Lee, por exemplo, mudar da fabricação de roupas e alimentos para a gestão de marca. O CEO da Sara Lee explicou: “Wall Street pode acabar com você. São eles que estabelecem as regras… e eles decidiram premiar as empresas que apresentam mais lucros com menos ativos”. Na busca por maiores retornos de ações, muitas empresas de eletrônicos têm, como a Boeing e a Sara Lee, terceirizado sua fabricação, embora uma forte integração entre a fabricação e a divisão de pesquisa e desenvolvimento seja crucial para a inovação.

Em outro artigo na seção Foco desta edição, Clayton Christensen argumenta que a adoção, pelos executivos, das métricas preferidas por Wall Street tem prejudicado a inovação. Tanto acadêmicos como executivos têm criticado Wall Street não só por promover o pensamento de curto prazo, mas também por sacrificar os interesses de funcionários e clientes para beneficiar acionistas e por encorajar a desonestidade de executivos que sentem estar sendo encarregados de cumprir exigências impossíveis. A influência do setor financeiro sobre a gestão se tornou tão poderosa que uma pesquisa recente com CFOs mostrou que 78% “abririam mão de valor econômico” e 55% cancelariam um projeto com Valor Presente Líquido positivo — ou seja, prejudicariam voluntariamente suas empresas — para cumprir metas de Wall Street e realizar o desejo de lucros “fáceis” do setor financeiro.

Os executivos geralmente explicam sua deferência a Wall Street dizendo que têm o “dever fiduciário” de maximizar os retornos dos acionistas. Essa é uma questão de fé desde 1970, quando Milton Friedman escreveu no New York Times que a única responsabilidade dos executivos era maximizar lucros. O problema, porém, é que isso não é verdade. Quaisquer que sejam suas crenças sobre as responsabilidades morais dos executivos, um dever fiduciário é uma obrigação legal específica, e a professora de direito Lynn Stout mostrou que, no que se refere à lei, os executivos americanos não estão sujeitos a nenhuma exigência desse tipo.

Então, por que os executivos fazem escolhas que sabem que são erradas? Por que tantos acreditam (ou agem como se acreditassem) em algo que simplesmente não é certo? Sou um cientista político. Isso significa que, assim como um economista pensa sobre dinheiro ou um soldado, sobre exércitos, eu penso sobre poder. Há muitas situações nas quais pessoas — e países — agem contra seus próprios interesses. Uma das mais importantes — e mais perigosas — é quando um único setor ou grupo é tão poderoso que domina o modo como uma sociedade inteira pensa a respeito de si mesma. Depois de ver estudos de vários campos através dessas lentes, fica claro que precisamos fazer algo para conter o poder enorme e desproporcional de Wall Street.

 

 

A ascensão das finanças para uma posição dominante

Antes da Grande Depressão, o status e a influência dos financistas eram tão grandes que, quando Theodore Roosevelt moveu a primeira grande ação antitruste contra a ferrovia de J. P. Morgan, Morgan lhe disse: “Se fizemos algo errado, mande seu homem [o secretário de Justiça] falar com meu homem e eles podem consertar isso”. Depois da quebra da bolsa em 1929, entretanto, os EUA aprovaram a Lei Glass-Steagall e outras medidas para controlar o setor financeiro e aumentar a estabilidade.

Ao longo das últimas décadas, essas leis foram amplamente desfeitas. A consequência mais óbvia foi o tremendo crescimento do setor financeiro. Em 1970, as indústrias de seguros e finanças foram responsáveis por 4,2% do PIB dos EUA, mais que os 2,8% de 1950. Em 2012, elas representaram 6,6%. O histórico dos lucros é similar. Em 1970, os lucros das indústrias de finanças e seguros equivaliam a 24% dos lucros de todos os outros setores juntos. Em 2013, essa proporção havia crescido para 37%, apesar dos efeitos colaterais da crise financeira.

 

 

Esses números, na verdade, subestimam o verdadeiro domínio das finanças, porque muitas empresas de outros setores têm unidades financeiras importantes. Os ativos dessas unidades começaram a aumentar acentuadamente no início dos anos 1980. No ano 2000, eram tão grandes ou maiores que os ativos tangíveis das corporações não financeiras. No início da década de 2000, por exemplo, a Ford ganhou mais dinheiro vendendo empréstimos do que vendendo carros, enquanto a GE Capital gerou aproximadamente metade das receitas totais da GE. Se incluirmos corporações não financeiras, em 1980 o valor total dos ativos financeiros dos EUA era cinco vezes maior que o PIB do país. Em 2007, era dez vezes maior que o PIB.

O salto em tamanho e lucros também elevou a influência do setor financeiro sobre o governo americano. De 1998 a 2013, as indústrias de finanças, seguros e imóveis gastaram quase US$ 6 bilhões em lobby. O único setor que gastou mais foi o de saúde. Na esteira da crise de 2008, o setor financeiro intensificou sua pressão sobre o
governo. Vejamos o ciclo eleitoral de 2013-2014: até março de 2014, os setores de finanças, seguros e imóveis tinham desembolsado quase US$ 485 milhões em lobby — mais que qualquer outro — e doado quase US$ 149 milhões para as campanhas dos candidatos federais, quase o triplo do total doado pelo setor de saúde.

Representantes e lobistas do setor financeiro estão tão entrelaçados com as agências governamentais que deveriam regulá-lo que as pessoas de Washington se referem coletivamente a eles como “The Blob” (“O Borrão”). Isso se reflete no currículo de atuais e ex-funcionários do governo. O regulador financeiro mais importante é o secretário do Tesouro. Vejamos as últimas seis pessoas que ocuparam este cargo. Jack Lew, o atual secretário, trabalhou anteriormente no Citigroup. Seu antecessor, Timothy Geithner, é agora o presidente da Warburg Pincus, uma empresa de private equity de Wall Street. O predecessor de Geithner, Hank Paulson, foi anteriormente CEO do Goldman Sachs. Antes dele o secretário foi John Snow, hoje presidente da Cerberus, uma empresa de private equity. O antecessor de Snow, Larry Summers, recebeu mais de US$ 5 milhões do fundo de hedge D. E. Shaw depois de deixar o Tesouro, e seu predecessor, Robert Rubin, também havia liderado o Goldman e assumiu um alto posto no Citigroup depois de deixar o governo.

Minha pesquisa mostra que o caminho dos líderes para o poder molda decisivamente suas ações no cargo público. É altamente provável que as pessoas que passaram sua carreira mergulhadas no setor financeiro compartilhem a visão de mundo dessa área. Cada um daqueles seis homens ou tinha uma carreira substancial em finanças antes de entrar no governo ou foi, enquanto estava no cargo, tão simpático aos interesses desse setor que não teve dificuldade em encontrar nele um posto muito alto e bem remunerado depois de deixar o governo (ou ambos). A questão, como a ex-presidente da Federal Deposit Insurance Corporation Sheila Bair explicou, é a “captura cognitiva. Não é tanto uma questão de corrupção. Trata-se de ouvir demasiadamente as grandes instituições financeiras e as pessoas que as representam e insuficientemente as pessoas comuns”.

A influência de Wall Street na política é extraordinária, mesmo depois da crise financeira. Para citar apenas três exemplos:

• Wall Street trabalhou para retardar a promulgação da norma Volcker, concebida para impedir os bancos de usar depósitos garantidos pelo governo federal para fazer transações em seu próprio nome. Meses antes que as agências reguladoras divulgassem um projeto da norma, os representantes da indústria financeira que estavam fazendo lobby para enfraquecê-la foram responsáveis por 93% das reuniões que as agências envolvidas tiveram com pessoas externas.

• Quando a Comissão de Comércio de Futuros de Commodities (CTFC) tentou regulamentar derivativos — instrumentos financeiros que tiveram papel-chave na crise —, a resposta de Wall Street foi uma ofensiva de lobby. O resultado foram isenções que garantiram que os regulamentos da CTFC cobrissem menos de 20% do mercado mundial.

• Num forte sinal de que o tamanho deu muita força aos bancos de Wall Street, o secretário de Justiça Eric Holder disse em depoimento ao Congresso que não tinha processado alguns bancos porque eles eram tão grandes, que acusá-los poderia prejudicar a economia. Em outras palavras, esses bancos são tão poderosos que o principal funcionário do governo americano encarregado da aplicação da lei os declarou acima da lei.

O prestígio do setor financeiro também voltou ao nível de seu ápice dos anos 1920. Após o New Deal, via-se Wall Street como um lugar desolado. Em 1949, Peter Drucker escreveu que, enquanto “20 anos atrás, o jovem recém-formado pela Harvard Business School buscava trabalho numa corretora da Bolsa de Nova York, ele agora busca emprego numa empresa de aço, petróleo ou automóveis”. Em 2012, em contraste, o J. P. Morgan e o Goldman Sachs estavam entre os dez empregadores mais cobiçados do mundo. Da turma da Harvard Business School que se graduou naquele ano, 35% foram trabalhar com serviços financeiros. Foi, na verdade, uma redução do pico de 2008, quando 45% fizeram isso, mas os serviços financeiros continuam sendo a opção de carreira mais comum entre os graduados da HBS.

Financeirização: o que é e o que significa

Financeirização é o aumento da influência dos mercados, instituições e elites financeiras sobre a economia e as outras instituições da sociedade, incluindo o governo. Os EUA estão longe de ser o único país a ter sofrido uma financeirização. O sociólogo Giovanni Arrighi e outros identificaram vários exemplos históricos, incluindo a Espanha no século 14, a Holanda no final do século 18 e a Grã-Bretanha no final do século 19 e início do 20. Notavelmente, durante suas épocas de financeirização, os holandeses e os britânicos acompanharam e debateram a transformação de sua economia. Suas elites financeiras, fortalecidas pelo aumento das fortunas, convenceram os dois paí-
ses a apostar seu futuro nas finanças. Por exemplo, em 1925 o governo britânico resolveu seguir uma política de libra forte, que beneficiava a indústria de serviços financeiros do país, em vez de uma mais fraca, que poderia ter estimulado a fabricação britânica.

Numa economia financeirizada, a cauda financeira balança o cachorro econômico. Um estudo do Fundo Monetário Internacional (FMI) descobriu, por exemplo, que, embora um sistema financeiro forte seja crucial para os estágios inicial e intermediário de crescimento de um país, quando esse setor se torna muito grande — quando o crédito para o setor privado alcança de 80% a 100% do PIB —, ele acaba inibindo o crescimento e aumentando a volatilidade. Nos EUA, em 2012, o crédito para o setor privado foi de 183,8% do PIB.

Além de seus efeitos em empresas como a Boeing, existem duas grandes formas pelas quais a financeirização mina a economia. Em primeiro lugar, sistemas financeiros maiores e mais complexos podem ser mais propensos a quebras — como sustentam vários economistas, incluindo Hyman Minsky, Charles Kindleberger e Raghuram Rajan (que em 2005 fez o célebre alerta de que os riscos de instabilidade financeira eram muito maiores do que a maioria dos economistas pensava — e acabou menosprezado por Larry Summers como “ludita” por seu ceticismo em relação à inovação financeira).

 

 

Em segundo lugar, um sistema financeiro sobredesenvolvido pode distribuir recursos de forma não adequada. Já em 1984 o economista James Tobin, ganhador do Nobel, observou que “muito pouco do trabalho feito pelo setor de valores mobiliários… tem a ver com o financiamento de investimento real”. Ele manifestou sua preocupação: “Estamos jogando cada vez mais dos nossos recursos, incluindo a nata da nossa juventude, em atividades financeiras distantes alheias à prod
ução de bens e serviços… que geram altas recompensas privadas, desproporcionais em relação à sua produtividade social”. 

Trata-se, em parte, de um problema de capital. Estudos do economista Özgür Orhangazi mostram que, à medida que a financeirização aumenta, o investimento em ativos financeiros tende a esvaziar o investimento em ativos reais, porque os mercados preferem ativos líquidos e de curto prazo, e empresas não financeiras enfrentam uma pressão maior para remunerar os investidores (principalmente por meio de dividendos ou recompra de ações), em vez de comprar ativos reais.

A má alocação de recursos, entretanto, estende-se para além do capital, como Tobin observou. Envolve também as pessoas. O economista britânico Roger Bootle argumenta que toda atividade econômica pode ser classificada como “criativa” ou como “distributiva”. O trabalho criativo aumenta a riqueza de uma sociedade. O trabalho distributivo apenas move a riqueza de uma mão para outra. Todo setor contém ambos. Mas a atividade no setor financeiro é basicamente distributiva.

A indústria de serviços financeiros também tem um nível muito alto de uma forma de atividade distributiva chamada de “busca de renda”, que envolve a tentativa de obter lucro manipulando políticas do governo. Os economistas Kevin Murphy, Andrei Shleifer e Robert Vishny mostraram que, à medida que os trabalhadores mais produtivos de um país mudam das atividades empreendedoras para as de busca de renda, o crescimento econômico fica mais lento.

Wall Street está atraindo os melhores e mais brilhantes profissionais dos EUA, e muitos deles acabam distribuindo riqueza em vez de criá-la. Cada engenheiro ou cientista de computação brilhante que está trabalhando para cortar um nanossegundo do tempo que leva para completar uma negociação de alta frequência não está trabalhando no (ou descobrindo o próximo) Google, na Amgen ou na Tesla.

Outra maneira de pensar a respeito disso é no nível da transação. Em alguns setores, a maioria das transações é de soma positiva. Quando você compra um carro da Ford, um ano depois você e a Ford estarão, em tese, em melhor situação. Você prefere ter o carro em vez do dinheiro e a Ford prefere ter o dinheiro em vez do carro. Se eu vendo ações a você, porém, é provável que um ano depois apenas um de nós esteja contente. Se o preço das ações caiu, o contente serei eu. Se subiu, será você (supondo que você manteve as ações em seu poder).

A maior parte do setor financeiro — bancos comerciais e de varejo, por exemplo, ou capital de risco e seguro — se envolve em transações de soma positiva. No entanto, em muitos dos segmentos desse setor que cresceram mais rápido desde a desregulamentação — como bancos de investimento —, as transações são principalmente de soma zero.

O pagamento no setor financeiro é outro sinal da influência extraordinária dessa indústria. Os economistas Thomas Philippon e Ariell Reshef descobriram que antes da Grande Depressão os trabalhadores de finanças ganharam substancialmente mais que os dos outros setores, mesmo após o ajuste de dados para levar em conta seu nível mais alto de escolaridade. Depois da aprovação da Lei Glass-Steagall, em 1933, essa quantia a mais encolheu rapidamente, e em 1980 já havia desaparecido. Após a desregulamentação, a tendência se inverteu rapidamente e, em 2006, o ganho premium já havia voltado a seu nível pré-Depressão.

O premium foi grande para todos os trabalhadores de finanças. Em 2006, eles ganharam 50% a mais, em média, do que trabalhadores igualmente bem instruídos de outros setores da economia. Para altos executivos financeiros, entretanto, a porcentagem foi gigantesca. Eles ganharam 250% a mais do que seus colegas não financeiros. Para altos executivos de Wall Street, foi maior ainda: 300% a mais que seus colegas da economia real. Dependendo de como se calcula, esse extra salarial do setor financeiro responde por 15% a 25% do aumento geral da desigualdade econômica nos EUA desde 1980.

As consequências do poder

Portanto, estamos examinando um setor que desempenha funções vitais (nenhuma economia moderna pode existir sem bancos), mas, quando cresce exageradamente, tende a retardar o crescimento econômico, aumentar a desigualdade e sofrer quebras que cobram um preço enorme da sociedade. (A crise financeira de 2008 custou ao governo americano mais de US$ 2 trilhões em perda de receitas fiscais e aumento de gastos.) Apesar desses problemas, o setor exerce grande influência sobre o restante da economia, embora muitos executivos saibam que o que ele exige prejudica suas empresas. Assim, voltamos à pergunta com a qual iniciamos este artigo. Por que as sociedades (e pessoas) agem contra seus próprios interesses?

A resposta pode ser dada em duas palavras: poder desequilibrado.

Assim como a gravidade de um buraco negro muda as órbitas das estrelas a muitos anos-luz de distância, quem tem grande poder e prestígio muda o comportamento de todos ao seu redor, direta e indiretamente. A forma direta é através da coerção e indução: faça o que eu quero e você será recompensado; desobedeça-me e será punido. O poder direto aparece toda vez que as doações de campanha influenciam o voto de um político.

A forma indireta é muito menos óbvia, mas ainda mais importante. O poder real não vem de forçar as pessoas a fazer o que você quer, mas de mudar a forma como as pessoas pensam, para que elas queiram fazer o que você quer. Acton cunhou a famosa frase: “O poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe de maneira absoluta”. Geralmente pensamos nisso como uma observação a respeito dos efeitos do poder sobre aqueles que o têm. Mas Acton estava, na verdade, falando dos efeitos do poder sobre nossos julgamentos dos poderosos. Há uma tendência natural a acreditar que aqueles com poder são bons e justos e fazem a coisa certa. Poder e prestígio podem fazer com que as práticas daqueles que os têm pareçam muito mais benevolentes do que realmente são.

A capacidade de um grupo poderoso de recompensar os que concordam com ele e punir os que não concordam também distorce o mercado de ideias. Não se trata de corrupção — as crenças mudam naturalmente conforme os interesses. Como Upton Sinclair disse, “é difícil fazer um homem entender alguma coisa quando seu salário depende de não entendê-la”. O resultado pode ser uma sociedade inteira distorcida para servir aos interesses de seu grupo mais poderoso, aumentando ainda mais o poder desse grupo, num círculo vicioso.

Isso pode acontecer mesmo quando os riscos são extremamente altos. Eis um exemplo histórico: antes da Primeira Guerra Mundial, quase todos os aspectos da sociedade alemã eram dominados pelos militares e pelas indústrias que os abasteciam. Com inveja da Grã-Bretanha por causa de suas colônias e do prestígio decorrente da grandiosidade da Marinha Real britânica, o establishment militar da Alemanha queria construir uma Marinha que tivesse navios de guerra suficientes para desafiar os britânicos, embora os dois países fossem relativamente amigáveis. Para
isso, a Marinha alemã subsidiou a Liga Naval, uma organização dedicada a pressionar o governo por orçamentos navais mais altos, e criou uma agência de notícias para influenciar a imprensa. A Marinha também recrutou muitos dos mais destacados acadêmicos da Alemanha (incluindo Max Weber, talvez o maior sociólogo e economista político de sua época) para percorrer o país falando em seu nome. O resultado foi um grande aumento no orçamento naval, o que fortaleceu ainda mais a influência da Marinha sobre a indústria alemã.

Os resultados foram catastróficos. A Grã-Bretanha viu a Marinha alemã como uma ameaça inaceitável e se alinhou com a França e a Rússia. Quando a Primeira Guerra começou, aqueles dispendiosos navios de guerra alemães não fizeram nenhuma contribuição significativa, e a Marinha do país recorreu a submarinos para enfraquecer a Grã-Bretanha — que atraiu os EUA para a guerra, garantindo a derrota da Alemanha. O desequilíbrio em sua estrutura de poder fez a Alemanha gastar enormes recursos num ativo que simplesmente não só não tinha nenhum valor, como também acabou tendo um valor negativo, porque conduziu a Grã-Bretanha e os EUA para os braços dos inimigos da Alemanha.

Nos EUA, é claro, não é o setor militar, mas o financeiro — especialmente Wall Street —, que tem um poder desproporcional. Um setor financeiro forte é crucial para o país. O sistema financeiro é o sistema circulatório da economia. Sem ele, o capital não pode fluir para onde é necessário. Os grandes bancos que têm impulsionado o crescimento incrível das finanças estão no coração do sistema financeiro. Se um coração, porém, cresce muito, enfraquece o corpo que ele está encarregado de sustentar e pode até ser incapaz de cumprir suas funções básicas.

Corrigindo o problema

Precisamos trazer o sistema de volta ao equilíbrio. Como o poder e o prestígio do setor financeiro são produto de seu tamanho e rentabilidade extraordinários, precisamos de reformas que reduzam estes dois fatores a níveis saudáveis sem inibir as funções cruciais do setor. A chave é escolher reformas que contrabalancem as distorções criadas pelo poder das finanças — reformas que valham a pena por razões puramente econômicas. Elas serão combatidas porque reduzirão a rentabilidade e o poder de alguns membros do setor financeiro. Mas esse é o ponto. Reformas que não fizerem isso não vão funcionar.

A ideia de que a política econômica deve levar em conta o poder é quase tão antiga como os EUA. Ela remonta ao primeiro gabinete de Washington e à rivalidade entre Jefferson e Hamilton. Os dois tinham visões distintas de como a economia americana deveria evoluir, mas essas visões foram moldadas por suas crenças tanto a respeito do que promoveria a democracia como do que geraria riqueza.

No século 20, o pensamento antitruste de Louis Brandeis — uma das inspirações fundamentais para a Lei Glass-Steagall — resultou de sua apreensão quanto à influência e ao poder que grandes empresas financeiras poderiam exercer sobre a indústria e o governo.

Aqui estão algumas abordagens possíveis para esse tipo de reforma:

Limitar o tamanho e a alavancagem dos bancos. Os maiores bancos dos EUA cresceram rapidamente depois da desregulamentação financeira e ficaram ainda maiores após a crise. Em 1995, os ativos dos seis maiores bancos americanos equivaliam a 17% do PIB do país. Em 2006, esse volume havia crescido para 55%. Em 2013, estava em 58%. Grandes bancos extraem um enorme subsídio indireto do governo. O mercado acredita que suas dívidas são implicitamente garantidas pelo governo, o que reduz seus custos de empréstimo. Em 2012, esse subsídio valia tanto quanto US$ 70 bilhões — ou 2,5% do total das receitas de impostos federais — para os oito maiores bancos dos EUA. Se os bancos fossem mantidos suficientemente pequenos para que o governo pudesse deixar um deles quebrar, isso minimizaria tanto seu poder como o subsídio. Em 13 Bankers, Simon Johnson e James Kwak propõem que os ativos de bancos universais (que combinam a atividade comercial e a de investimento) nunca deveriam passar de 4% do PIB, e o teto para os bancos de investimento deveria ser fixado em 2%. Isso afetaria apenas umas poucas empresas, mas essas poucas exercem imenso poder.

Uma segunda forma com que os bancos têm feito seu poder crescer é aumentando sua alavancagem. Isso eleva seus lucros, mas também seus riscos, porque quanto mais alavancados eles são, menor é o tamanho do erro suficiente para acabar com eles. Esse risco é transferido para o público quando os bancos podem contar com um socorro. Os problemas de um sistema em que os riscos são espalhados pela sociedade e os ganhos são concentrados nas mãos de poucos são óbvios, mas o poder político dos bancos tem impedido os reguladores de agir. Em The Bankers’ New Clothes, os economistas Anat Admati e Martin Hellwig mostram que, se a alavancagem dos bancos for limitada a 3:1 — ou seja, se o patrimônio líquido for composto por pelo menos um quarto dos passivos totais dos bancos —, ela não teria nenhum efeito sobre sua capacidade de conceder empréstimos e ao mesmo tempo melhoraria imensamente a estabilidade do sistema financeiro.

Colocar a dívida e o patrimônio líquido num campo de jogo nivelado. Os mercados de dívida são muito maiores que os de ações, e a dívida cria riscos que as ações não criam. Quanto mais endividada uma empresa, mais ela fica sujeita aos caprichos dos mercados financeiros. A legislação tributária dos EUA, entretanto, torna os pagamentos de juros (mas não de dividendos) dedutíveis, subsidiando a dívida  à custa do patrimônio líquido. Combine esse benefício fiscal com a taxa de imposto corporativo bastante alta dos EUA e as empresas terão um forte incentivo para contrair empréstimos. Remova o subsídio da dívida e você reduzirá o poder do setor financeiro sobre o restante da economia. Meu colega Robert Pozen sugere limitar essas deduções e reduzir a tributação corporativa.

Taxar transações financeiras. Outra fonte e poder e lucro do setor financeiro é o enorme volume de transações financeiras nos mercados de capitais atualmente. Qualquer que seja o valor que possam ter individualmente, em conjunto elas impõem custos significativos sobre o restante da sociedade (como crescimento mais lento e socorros periódicos), que não são arcados por seus participantes. Uma das formas de lidar com coisas que produzem efeitos negativos na sociedade é taxá-las.

Adicionalmente, o baixo custo de negociação de ações encoraja os investidores a vê-las como instrumentos financeiros de curto prazo, em vez de investimentos de longo prazo. Uma taxa sobre transações financeiras — vislumbrada inicialmente por Keynes em 1936 e adaptada para moedas em 1972 por Tobin — iria reduzir a volatilidade, mover os investidores em direção a um foco de longo prazo e enfraquecer outra fonte de poder do setor financeiro.

Tratar o rendimento dos investimentos como rendimento comum. Outro subsídio efetivo para muitos no setor financeiro provém da taxa tributária mais baixa sobre ganhos de capital. Teoricamente, isso encoraja o investimento e, portanto, o crescimento econômico. Na prática, a relação não se sustenta. Estudos do economista Leonard Burman e do apartidário Serviço de Pesquisa do Congresso não mostra
m nenhuma relação entre o crescimento econômico dos EUA e as taxas tributárias sobre ganhos de capital. Essa diferença nas alíquotas significa que as pessoas cuja renda vem de investimentos ficam com substancialmente mais dela do que as que vivem de seu trabalho. Isso aumenta significativamente a renda pós-tributação de muitos do setor financeiro (e de executivos pagos principalmente com opções de ações — uma prática de remuneração baseada na crença equivocada de que maximizar o retorno dos acionistas é a única responsabilidade de um executivo). Isso, é claro, aumenta seu poder e seu prestígio. Por que o governo deveria subsidiar financistas e altos executivos à custa de cientistas e soldados quando não há nenhum benefício econômico em fazer isso? Uma política baseada numa teoria plausível, mas falha — que, na prática, favorece um grupo de elite —, é um exemplo clássico do pensamento distorcido causado por um desequilíbrio de poder.

POR UMA GERAÇÃO, o setor financeiro dos EUA tem crescido imensamente, enriquecido amplamente seus membros mais poderosos e sido tratado com deferência pelas empresas e pelo governo do país. Ao mesmo tempo, a financeirização dos EUA tem obscurecido e até prejudicado o trabalho crucial feito pela maioria dos participantes desse setor, de banqueiros comerciais e de varejo a capitalistas de risco e avaliadores de seguro.

Empresas não financeiras precisam transformar numa prioridade a restauração do equilíbrio. O poder só pode ser combatido pelo poder e, por mais forte que seja Wall Street, as empresas que compõem o restante da economia são muito mais fortes. Acreditar que a maioria dos mercados está excessivamente regulamentada enquanto os mercados financeiros estão insuficientemente regulamentados — ou seja, que a desregulamentação das companhias aéreas foi uma ótima ideia, mas a dos bancos foi desastrosa — é perfeitamente consistente. Os mercados financeiros são diferentes dos outros e, por isso, devem ser tratados de forma diferente. Uma comunidade empresarial americana mobilizada pelo conhecimento de que a financeirização é um empecilho para seu sucesso seria uma força a ser levada em conta.

Empresas não financeiras já estão começando a reagir. No ano passado, o New York Times noticiou que grandes instituições financeiras vinham usando sua propriedade de grandes depósitos de armazenagem de alumínio (o Goldman sozinho possuía instalações que abrigavam 70% dos estoques de alumínio da América do Norte) para elevar o preço desse metal, o que custou aos consumidores americanos US$ 5 bilhões desde 2010. Empresas que utilizam o alumínio reclamaram, o que resultou numa audiência no Senado e na revisão, pelo Federal Reserve, de uma decisão de 2003 que permitia que os bancos comercializassem commodities físicas. À medida que as empresas perceberem que esse é apenas um exemplo específico de um problema geral, elas devem pressionar tão duramente por uma reforma financeira como fariam por qualquer outra questão crucial para sua competitividade.

A liderança é crucial. Em A liderança indispensável: aprenda com grandes líderes de todos os tempos, eu descrevo como, apesar de os líderes serem muitas vezes restringidos pelas circunstâncias, a pessoa certa, no lugar certo e na hora certa pode transformar empresas, forças militares e até mesmo nações inteiras. Abraham Lincoln reforjou os EUA nas chamas da Guerra Civil. Franklin Roosevelt deu ao povo americano um New Deal nas profundezas da Grande Depressão. Líderes — principalmente presidentes — podem reestruturar o debate político e mudar o país inteiro para criar um novo e melhor equilíbrio político. Na esteira da crise de 2008, o sistema financeiro talvez fosse muito frágil para que se arriscasse em reformas como as descritas aqui. Em 2013, foi bem o suficiente para que o bônus médio de Wall Street fosse de US$ 164.530 — o mais alto desde 2007. Continuamos, porém, a enfrentar desemprego crônico, crescimento econômico lento, rendas médias estagnadas e todas as outras características de uma economia ferida que está mancando há tanto tempo que essa realidade ameaça se tornar a nova situação normal.

Não precisa ser dessa forma. A resposta de Roosevelt à oferta de Morgan de “consertar isso” foi clara: “Isso não pode ser feito”. Seu secretário de Justiça explicou: “Não queremos consertar isso. Queremos parar com isso”. Dois anos depois, o governo Roosevelt desmantelou o truste de Morgan. Morgan era muito mais poderoso que qualquer financista de hoje. Ele pode ter controlado tanto quanto 40% de todo o capital nos EUA. Mas isso não impediu Roosevelt de enfrentá-lo.

O que temos feito não está funcionando. Não estava funcionando nem antes da crise, quando a bolha imobiliária escondia os problemas mais profundos da economia. Hoje o fracasso da economia para gerar os empregos e as rendas que os americanos esperam e merecem é evidente para todos. Podemos reequilibrar nossa sociedade e liberar as empresas americanas para fazer o que sempre fizeram tão bem — criar riqueza que beneficie todos os americanos. Podemos fazer melhor. A escolha cabe a nós. 

 

Gautam Mukunda é professor assistente da Harvard Business School e autor de A liderança indispensável: aprenda com grandes líderes de todos os tempos (Elsevier, 2013). Edição original em inglês da HBR Press, 2012. Twitter: @gmukunda.

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