Mesmo diante do histórico recente, quando grandes companhias apresentaram perdas expressivas ao utilizarem contratos derivativos, este segmento de mercado não para de crescer. Os contratos negociados em bolsa representam a maior parcela, mas o montante negociado em balcão também é bastante alto — em torno de R$ 500 bilhões de contratos em aberto na Cetip (empresa que centraliza registro, custódia, negociação e liquidação de ativos e títulos para mais de 15 mil instituições financeiras no Brasil) e BM&F. O estoque total de ativos negociados em balcão na Cetip cresceu 44%, passando de R$ 2,5 trilhões em outubro de 2008 para R$ 3,6 trilhões em outubro último.

A internacionalização das empresas brasileiras e os altos volumes de nossas exportações (principalmente de commodities) justificam a construção de operações financeiras capazes de proteger o fluxo de receitas futuras contra flutuações nas variáveis de mercado. Neste sentido, os contratos derivativos, em todas as suas variantes (opções, swaps, futuros, termos) cumprem um papel fundamental, permitindo a adequada repartição de riscos entre “compradores” e “vendedores” de proteção (empresas exportadoras e bancos, por exemplo).

Contudo, uma das características principais desses contratos, o risco de crédito potencial, parece não ter sido ainda devidamente detectado pelo radar dos gestores de risco — em especial quando analisamos os contratos de balcão ou OTC (over the counter, na sigla em inglês). Esse tipo de risco origina-se quando uma contraparte (“compradores” ou “vendedores” de proteção) falha ao cumprir suas obrigações contratuais, ocasionando severas perdas a seu par na operação.  

A crise global de 2008 mostrou todo o poder de destruição de contratos derivativos mal geridos, e também o despreparo de muitas instituições de renome para lidar com o risco de crédito potencial — ou risco de contrapartes. Na esteira da crise, como em outras épocas, vieram os reguladores, buscando limitar os perigos inerentes às inovações financeiras — grupos políticos nos Estados Unidos chegaram a propor até mesmo o fim dos contratos derivativos bilaterais (os derivativos seriam negociados apenas em bolsas e balcões organizados, eliminando-se por completo o risco de crédito potencial).

Entretanto, o lado positivo e útil dos derivativos bilaterais prevaleceu, e esse radicalismo não foi levado adiante. As regras foram ajustadas para induzir que o risco de crédito potencial passasse a ser mensurado de maneira adequada e a fazer parte do arsenal de ferramentas para tomada de decisões financeiras dentro das empresas.

Riscos diferentes

Risco de mercado é o risco associado a perdas econômicas no valor de ativos e passivos devido a alterações nas condições de mercado. De que forma os eventos de mercado podem impor desvalorizações nos preços de ativos e passivos? Basicamente, a partir de três componentes fundamentais: flutuações nos preços de mercado, volatilidades dos fatores de risco e correlações entre os mesmos.

O efeito das flutuações de preços está intrinsecamente relacionado às metodologias utilizadas para a apuração do valor justo ou “valor marcado a mercado” dos diferentes ativos e passivos que constituem as carteiras de uma instituição financeira. Vieses e erros de julgamento podem levar administradores financeiros e gestores de risco a utilizar modelos para previsão de preços (apreçamento) inapropriados, sem o correto equilíbrio entre a simplicidade desejável e a adequação à realidade.

Um aspecto não menos importante, mas frequentemente ignorado pelos analistas, como mais uma vez ficou evidente com a crise deflagrada nos EUA a partir dos títulos subprime, é o efeito “inovação” — o dinamismo inerente aos mercados financeiros, em constante busca por novos instrumentos de repartição de riscos, torna muito difícil seu acompanhamento por parte dos gestores e reguladores. Nesse caso, era fácil observar que os administradores americanos das carteiras lastreadas em hipotecas não apreçaram de maneira minimamente razoável os ativos em questão — ao contrário, erraram feio em suas previsões.

Assim como as técnicas de apreçamento de ativos, os demais drivers também fazem parte do núcleo de atividades da gestão de risco de mercado: modelagem e mensuração de volatilidades e correlações para os diversos fatores de risco, incluindo preços de ações, curvas de juros, taxas de câmbio, índices de inflação, etc. Assim, em seu exercício diário de “previsão”, e a partir de modelos que mapeiem corretamente o valor dos ativos em seus fatores de risco, o gestor de risco de mercado utiliza uma combinação entre ferramentas estatísticas e cenários históricos para tentar antecipar quais seriam os movimentos bruscos em tais variáveis (volatilidade), como as mesmas se relacionam (correlações) e qual o efeito líquido dessas flutuações sobre as posições mantidas em carteira (perdas potenciais e perdas sobre cenários de estresse).

O risco de crédito, por outro lado, está associado às perdas econômicas decorrentes dos chamados “eventos de default”. Um “evento de default” ocorre quando, numa transação financeira, uma das partes envolvidas (ou “contraparte”) falha ao cumprir suas obrigações previamente estabelecidas em contrato.

Temos exemplos desse tipo de evento em diversas dimensões, considerando tanto transações multilaterais quanto bilaterais. Como eventos de crédito multilaterais, podemos citar os defaults soberanos — neste caso, como se teme atualmente com relação a muitos países da zona do euro, um país emissor de títulos de dívida deixa de cumprir pagamentos de juros e/ou principal nas datas preestabelecidas no momento de colocação de tais papéis no mercado. Assim, tal evento afeta diversas “contrapartes” ao mesmo tempo, já que, normalmente, esses ativos encontram-se nas mãos de muitos e diferentes credores. Quando tratamos dos eventos bilaterais, estamos nos referindo, essencialmente, às transações OTC. Essas operações incluem financiamentos feitos por bancos a empresas e, também, contratos derivativos (swaps, termos, opções e futuros) firmados entre instituições para fins de compra e venda de proteção contra fatores de risco de mercado.

De maneira semelhante ao que discutimos com relação a risco de mercado, alguns parâmetros são habitualmente utilizados para a caracterização do risco de crédito e, também, para sua gestão: probabilidade de default (PD), perda dado o default (LGD — loss given default, em inglês) e exposição ao default (EAD — exposure at default).

A estimativa adequada desses parâmetros envolve, novamente, modelos estatísticos e análise de cenários e dados históricos. A estimativa da PD expressa a chance de um devedor ou contraparte não honrar as bases contratuais, isto é, a expectativa quanto à ocorrência de um default (não pagar o que é devido ou atrasar o pagamento, por exemplo); a LGD indica o percentual do valor transacionado que se espera perder dada a ocorrência do calote; finalmente, a EAD é uma estimativa do valor de mercado que seria perdido no momento do default.

Nesse ponto, somos capazes de estabelecer uma interação clara entre os riscos de mercado e de crédito: o risco de contrapartes, associado às perdas econômicas ocasionadas pelo default de uma contraparte em um contrato bilateral devido a flutuações nas condições de mercado. Assim, esse tipo de risco fundamenta-se na ideia de que movimentos nos fatores de risco de mercado são capazes de afetar o risco de crédito de carteiras de contratos de balcão ou bilaterais.

Para esclarecer a natureza bilateral do risco de contrapartes, consideremos um exemplo simples e comum no mercado brasileiro: um swap DI x dólar. Nesse contrato, comumente transacionado em balcão e registrado em centrais de custódia como a Cetip, uma parte “A” deve receber de sua contraparte “B”, na data de ajuste (settlement), o rendimento da taxa de juros praticada no mercado doméstico (DI); por outro lado, a parte “B” deve receber de sua contraparte “A”, na mesma data, o equivalente à variação da taxa de câmbio dólar/real ocorrida no período.

Note que, na ausência de quaisquer outras especificações, ambas as partes (“A” e “B”) estão sujeitas aos riscos de mercado e de crédito. Do ponto de vista de risco de mercado, tanto a taxa de câmbio quanto a taxa de juros são fatores de risco para as duas partes, dado que suas variações afetam o valor “marcado a mercado” do swap (o que as partes teriam que pagar e receber em termos de valor presente).

Entretanto, quando passamos a analisar o risco de crédito, mais especificamente o risco de crédito de contrapartes, podemos perceber que cenários adversos para o câmbio afetam, na verdade, a parte  “B”,  uma vez que, nessas situações, a subida abrupta do câmbio deteriora a capacidade de “A” honrar o seu lado no contrato. De maneira análoga, cenários de subida nas taxas de juros (como resposta a expectativas de inflação mais elevadas, por exemplo) acabam por afetar a parte “A”, uma vez que neste caso “B” é que fica com sua capacidade de pagamento comprometida.

Casos recentemente ocorridos no Brasil e decorrentes da crise do mercado de crédito nos EUA ajudam a ilustrar os efeitos de risco de mercado e de crédito na prática. Algumas empresas não financeiras, apostando na queda permanente do dólar em relação ao  real, transformaram posições que deveriam ser utilizadas para hedge em operações financeiras altamente rentáveis quando consideramos o período pré-crise nos EUA.

“Vendidas” em dólar, algumas dessas empresas chegaram a registrar em seus demonstrativos contábeis ganhos com transações financeiras superiores àqueles advindos de suas próprias operações, a despeito da (falta de) governança da situação, onde operações que serviriam de proteção contra possíveis perdas de caixa operacional tornaram-se operações meramente especulativas, fugindo aos objetivos de uma companhia não financeira. Contudo, a quebra do banco Lehman Brothers, ao aumentar a aversão ao risco em termos globais, provocou uma reversão na tendência do câmbio, fazendo com que a taxa subisse abruptamente.

 

Desse modo, as empresas brasileiras (e algumas mexicanas) que contavam com o dólar desvalorizado passaram a incorrer em pesadas perdas, dado o tamanho de suas exposições à moeda americana. Entre os exemplos mais notórios, temos os de uma companhia do setor de alimentos e outra do ramo de papel e celulose — as perdas com derivativos cambiais registradas no balanço de 2008 foram da ordem de R$ 2 bilhões e US$ 2 bilhões, respectivamente. Mas outras empresas, de diversos portes e setores, também incorreram em perdas significativas dada a mudança de patamar do câmbio. Tal qual em nosso exemplo anterior de um simples swap DI x dólar, as empresas não financeiras em questão gerenciaram de maneira inadequada suas exposições ao risco de mercado (no caso o fator de risco câmbio), fato bastante abordado pela imprensa na época, em combinação com as eventuais falhas de governança corporativa que originaram a excessiva alavancagem em moeda americana.

Quando consideramos a análise pela ótica do risco de crédito, entretanto, observamos que as perdas originadas pelo “risco de crédito de contrapartes” não tiveram a devida cobertura na época, talvez pelo fato de o sistema bancário brasileiro ter passado pela crise em situação muito melhor do que o americano. A companhia que perdeu R$ 2 bilhões, por exemplo, impôs uma perda potencial associada a risco de contrapartes para um pool de bancos no mesmo montante.

Assim, o que parecia um cenário interessante para os bancos (contrapartes) — a valorização do dólar — mostrou-se, na verdade, nefasto, uma vez que tal situação implicou a insolvência das empresas não financeiras, que se viram incapazes de honrar os compromissos contratados. Nesses casos, a má gestão do risco de contrapartes por parte dos bancos, envolvidos nas transações com derivativos cambiais, levou a perdas também relevantes para o setor bancário brasileiro; vale notar que algumas dessas operações, devido a sua natureza complexa, ainda são alvo de ações judiciais por parte das empresas não financeiras, potencializando ainda mais os efeitos do risco de contrapartes para os bancos.

Reação regulatória

Como historicamente é comum em situações de pós-crise fin

anceira, observamos uma reação das autoridades regulatórias no mundo todo. Um ponto relevante levantado no período foi a suposta incapacidade dos órgãos de regulação do sistema financeiro de antecipar movimentos como aqueles. Essa falha, infelizmente, é pouco passível de correções, dada a dinâmica e as inovações próprias do mercado financeiro. Em nenhum outro setor ou mercado temos um fluxo de inovações e criação de novos produtos tão peculiar, com transações sendo montadas de maneira a atender aos interesses específicos de cada cliente. Assim, os reguladores acabam, na maior parte das vezes, ficando defasados com relação aos novos instrumentos criados e seus respectivos fatores de risco.

Tal qual em outras épocas — como durante o período da crise de 1929 —, as culpas recaem sobre o setor financeiro, cujo “furor especulativo” precisa ser “domado” pelos reguladores em benefício da sociedade. Nesse estado de espírito é que surgem as soluções mais radicais — nos EUA, por exemplo, uma parte da classe política chegou a sugerir o fim das transações de derivativos em mercados de balcão, medida que felizmente não foi levada adiante pelo grupo de trabalho que conduziu a reforma do sistema financeiro americano. Em nossa opinião, isso acabaria por prejudicar todas as instituições, financeiras e não financeiras, que buscam a montagem de produtos derivativos específicos (não padronizados ou negociados em bolsas) para proteger seus fluxos de caixa operacionais. O mecanismo de diversificação de riscos próprio do mercado financeiro ficaria comprometido, pelo menos a curto prazo, enquanto as bolsas não conseguissem atingir o grau de flexibilidade e a amplitude necessária de produtos.

Mas, se os reguladores mantiveram a permissão para montagem de transações bilaterais com derivativos, tomaram ações no sentido de introduzir práticas e diretrizes capazes de mitigar o risco de crédito de contrapartes. Em termos globais, o controle e a mensuração adequada desse tipo de risco foram enfatizados nos mais diversos fóruns de regulamentação. Com relação ao Dodd-Frank Act (*), devemos ressaltar a importância dada à gestão do risco de contrapartes como instrumento capaz de evitar grandes perdas em bancos, não permitindo, assim, situações de “risco moral” como as decorrentes da crise recente.

 

No Brasil, a reação foi encampada pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) já em 2008, ao antecipar diretrizes do International Financial Reporting Standards (IFRS, o padrão contábil global que vem sendo adotado gradativamente no Brasil) relativas ao tratamento e evidenciação de contratos derivativos. A Instrução CVM 550, por exemplo, tornou obrigatória para companhias não financeiras a apuração de possíveis perdas com contratos derivativos sob cenários de estresse nos fatores de risco de mercado. Muitas empresas, adicionalmente, passaram a evidenciar suas exposições às diversas contrapartes (bancos, principalmente) em relatórios específicos, incluindo limites de concentração e exposição.

No quadro “Fatores a considerar”, da página anterior, temos um resumo das principais aplicações relacionadas ao risco de contrapartes, considerando situações enfrentadas tanto por instituições financeiras quanto por companhias não financeiras: controle de limites e aprovação de informações, cálculo do valor justo (credit value adjustment — CVA), avaliação de chamadas de margem sob situações extremas (cenários de crises e de liquidez) e avaliação de capital econômico e regulatório.

“Modelando” a exposição

Dado que o principal objetivo da mensuração do ris-co de crédito de contrapartes é mitigar perdas fu-turas ocasionadas pela falha de uma contraparte em honrar seus compromissos contratuais em uma situa-ção de mercado adversa, a modelagem de cená-rios alternativos para os fatores de risco em datas futuras (settlement dos contratos, por exemplo), bem como de sua distribuição de probabilidades, é fundamental.

Portanto, métodos intensivos em simulação, apartir da seleção apropriada dos processos esto-cás-ticos (processo estocástico é qualquer tipo de evolução temporal analisável em termos de probabilidade) mais ajustados a cada fator de risco, devem ser utilizados em detrimento da simples “marcação a mercado” tradicionalmente utilizada em métricas para gestão de risco de mercado.

As técnicas de simulação também são capazes de incorporar todas as características relevantes das carteiras, como ajustes, acordos de consolidação (“netting agreements”) e efeitos de diversificação.  Desse modo, o primeiro passo para a construção de medidas de exposição a uma contraparte consiste em realizar uma estimativa da exposição de cada contrato individual à mesma. O processo envolve três etapas.

Uma proposta de cálculo

A exposição (E, na fórmula a seguir) de um contrato individual, desconsiderando colaterais e garantias, a uma determinada contraparte, é calculada considerando o máximo (max) entre o valor (V) do contrato — ou zero (0) para cada instante do tempo (t):

 

E(t) = max { V(t); 0 }.

 

A lógica da formulação reside em considerar apenas aquilo que “se tem a receber” em cada contrato e com cada contraparte; assim, salvo especificações adicionais, em uma transação de swap, por exemplo, somente a “ponta ativa” seria levada em consideração.

Num passo subsequente, uma vez calculada a exposição associada a cada cenário e a cada data, é possível construir o perfil da distribuição das exposições ao longo do tempo e estimar a exposição potencial futura à contraparte em cada um desses períodos (pior exposição em condições normais de mercado para uma data futura e nível de significância). Assim, diferentes tipos de contrato podem apresentar diferentes perfis de exposição ao longo do tempo. Isso ocorre em função de dois efeitos principais, os quais agem em direções contrárias:

“MsoNormal” style=”margin-top: 5.0pt; text-align: justify;”>Efeito difusão: de maneira inerente a qualquer modelagem que envolva a estimação e calibração de processos estocásticos, à medida que o tempo passa, o efeito difusão age no sentido de aumentar as exposições, uma vez que temos maior imprevisibilidade, maiores volatilidades e, consequentemente, movimentos de amplitude maior nos preços de mercado (levando os fatores de risco a valores mais distantes dos valores atuais).

Efeito de amortizações: em sentido contrário, a existência de amortizações, comum em contratos com múltiplos fluxos de caixa, age na direção de diminuir as exposições potenciais ao longo do tempo, uma vez que os valores sujeitos a default são reduzidos à medida que o vencimento do contrato se aproxima.

Estimando a exposição agregada

Com base nos preços e exposições calculados para cada contrato individual, em cada um dos cenários e datas ao longo do tempo, é possível calcular a exposição agregada da instituição a cada contraparte por meio dos seguintes passos:

 

1. Agregação e avaliação em conjunto com as cláusulas de consolidação (“netting agreements”)

A medida de exposição agregada pode ser drasticamente reduzida se diferentes contratos e fluxos de caixa negociados com a mesma contraparte puderem ser consolidados para efeitos de liquidação.  Nessa situação, contratos com valores a pagar podem ser usados para reduzir os valores positivos a receber de outros contratos. Assim, o primeiro passo para o cálculo das exposições às contrapartes (CE, na fórmula abaixo) agregadas (S, na fórmula) é agrupar os contratos e fluxos que possuem cláusulas desse tipo e recalcular as exposições. Assim, a exposição a uma dada contraparte passa a ser dada por:

 

CE(t)  = Sk max {  S V(t);0 }  +  Si max { V(t);0 }

 

onde o primeiro termo representa a avaliação para as k cláusulas de netting existentes em contrato, onde sempre é levado em consideração o efeito líquido para as contrapartes sujeitas a netting agreement; o segundo termo, tal qual já apresentado, diz respeito à agregação para as i contrapartes não sujeitas a acordos de consolidação (e no qual consideramos apenas o “a receber”).

Exemplificando: considere o cálculo da exposição para um banco A, que possui dois contratos de swaps em aberto com relação a uma contraparte B, ambos sujeitos à cláusula de consolidação:

 

Swap 1: A tem a receber 200 e tem a pagar 100

Swap 2: A tem a receber 400 e tem a pagar 600

 

Se não existisse a cláusula de consolidação, a exposição de A com relação à contraparte B, seria dada por:

 

CE = Si max { V(t); 0 }

= max (200; 0) + max (400; 0)

= 200 + 400

= 600

 

Entretanto, considerando a cláusula de “netting”, temos:

CE = Sk max {  S V(t); 0 } 

= max { (200 – 100 ) + (400 – 600 ); 0}

= max { 100 – 200; 0}

= max {–100; 0}

= 0

 

Assim, é possível perceber o poder de mitigação das cláusulas de “netting” (ou consolidação) e seu papel crucial no controle de exposições às contrapartes em contratos derivativos. Um risco potencial no montante de 600 (o que A teria a receber), revela-se, considerando a cláusula de consolidação, completamente mitigado.

 

2. Avaliação em conjunto com as cláusu­las de garantias (“collateral”) e margens (“margin”)

A utilização de garantias e chamadas de margem é crescente entre as instituições com negociações no mercado de balcão e também devem ser consideradas. Elas também ajudam a mitigar o risco de contraparte, mas representam um desafio adicional para o processo de cálculo, dado que requerem o cálculo das exposições em períodos secundários para o controle das potenciais chamadas de margem. De maneira geral, as especificações exigem que uma das partes, ou ambas, sejam obrigadas a depositar garantias ou chamadas de margem sempre que a exposição ultrapassar um valor mínimo e preestabelecido em contrato. Assim, a exposição a uma dada contraparte (“counterparty exposure”, ou CE(t)  na fórmula abaixo)  fica determinada por

<p
class=”MsoNormal” style=”margin-top: 5.0pt; text-align: justify;”> 

CE(t) = max { E(t) – C(t); 0 }

onde C(t) representa a garantia (ou chamada de margem), agindo claramente no sentido de diminuir a exposição potencial (E(t), na mesma fórmula) e matematicamente expressa por

 

C(t) = max { E(t – s) – H, 0 }

onde E(t – s) representa a exposição (sem considerarmos as garantias) entre dois períodos de avaliação s e t; e H é o valor mínimo preestabelecido em contrato.

Note que, sempre que a exposição apurada entre dois períodos de tempo for inferior ao mínimo contratual H, chamadas de margem (ou uso de colaterais) não serão necessárias. Para melhor entendimento, consideremos o swap 2, entre as mesmas partes A e B,  de nosso exemplo anterior — adicionalmente, suponha que este swap é a única transação existente entre A e B (não há mais o swap 1):

 

Swap 2: A tem a receber 400 e tem a pagar 600

Novamente, sob o ponto de vista de A (e considerando que não há qualquer cláusula de “netting”), a exposição potencial ao risco de contrapartes seria dada por:

 

E(t) = max { V(t); 0 }

= max {400; 0}

= 400

 

Agora, vamos considerar este mesmo contrato com uma  cláusula de garantia previamente estabelecida entre as partes e que impõe o seu acionamento toda vez que que a exposição ultrapassar um valor de gatilho H = 200. Assim, neste caso, o montante a ser depositado por B, na forma de colateral ou garantia, será dado por:

 

C(t) = max { E(t – s) – H; 0 }

= max {400 – 200; 0}

= max {200; 0}

= 200

 

Operacionalmente, B deve passar para A um de-pósito de margem equivalente a 200 ou um ativo
(físico ou financeiro) cujo valor de mercado, na data (s) de avaliação, seja pelo menos igual a 200. Por
fim, considerando o efeito desta chamada de margem ou garantia, de valor C(t) = 200, temos o seguinte valor para a exposição potencial ao risco de contrapartes CE(t):

 

CE(t) = max { E(t) – C(t); 0 }

= max {400 – 200; 0}

= max {200; 0}

= 200

Este exemplo simples ilustra o poder de mitigação de riscos de acordos de garantias e margens: a exposição potencial simplesmente foi reduzida em 50% de seu valor original.

 

3. Avaliação da exposição agregada considerando todas as cláusulas contratuais

 

Finalmente, a exposição final da instituição a uma contraparte é calculada após a consideração das cláusulas de “netting”, das margens e garantias associadas a todos os contratos. Vale ressaltar que o perfil da exposição agregada geralmente é muito menos intuitivo do que o perfil de exposição ao longo do tempo de contratos individuais, o que reforça a importância do seu monitoramento adequado. 

Estimando métricas

Uma vez calculada a distribuição da exposição agre-gada às contrapartes, algumas medidas podem ser utilizadas para resumir a exposição final da instituição:

 

1. Máxima (pior) exposição potencial futura: representa o valor máximo da exposição calculada durante todo o período simulado.  Em geral, a medida é utilizada com base nos valores de “worst credit exposure” (WCE) calculado para cada instante do tempo, mas também pode ser calculada com base nas métricas de valores esperados. Para efeito das regras do acordo internacional de Basileia, por exemplo, essas medidas são conhecidas também como máximo EE (“expected exposu

re”) efetivo e EPE (“expected potential exposure”) efetiva.

 

2. Exposição média esperada: representa a média das exposições esperadas ao longo do tempo, considerando todos os períodos e cenários simulados.

Implantando a estrutura adequada

A administração adequada do risco de contrapartes, além dos aspectos já mencionados acerca de modelagem quantitativa, envolve a definição de um entorno tecnológico apropriado e, também, a montagem de equipes capacitadas.

 

1. Entorno tecnológico

Uma vez que o cálculo das medidas de exposição potencial requer a utilização de modelos financeiros sofisticados, um grande número de simulações deve ser realizado ao longo do tempo, com um volume expressivo de informações a serem tratadas.  Além disso, o tratamento de carteiras com diferentes grupos de ativos e fatores de risco torna o processo de mensuração da exposição potencial ao risco de contrapartes ainda mais complexo. Assim, o processo de avaliação desse tipo de risco deve estar sempre ancorado numa estrutura de tecnologia da informação (TI) capaz de atender aos requisitos de volumes de informação, complexidade dos ativos financeiros e velocidade requerida para os fluxos de informação.

Portanto, lidar com todas as informações neces-sá-rias e requisitos de forma adequada e segura requer a utilização de uma infraestrutura de sistemas robusta e que seja capaz de atender a todas as exigências da instituição de forma integrada:

2. Equipes capacitadas

O gerenciamento do risco de contrapartes requer um time com pessoas capacitadas e com cultura de gestão de riscos. Tais pessoas serão responsáveis pela modelagem e calibração apropriada dos modelos necessários, por sua configuração e utilização otimizada dos sistemas de TI requeridos e, também, pela preparação dos relatórios a serem apreciados pela alta administração da companhia.

A rotina do time

Vale notar que as sugestões aqui apresentadas, ape-sar de baseadas no estado da arte em termos práticos e acadêmicos, não constituem um ponto de vista exaustivo acerca do assunto — acreditamos que há, ainda, um amplo espaço para o debate e evolução em termos de metodologias e práticas a serem utilizadas no tratamento do risco de crédito de contrapartes.

Dentre as questões em aberto, por exemplo, podemos citar a incorporação do cálculo do CVA (credit valuation adjustment, ou preço de mercado do risco de crédito) nas análises e, também, a adequação das instituições, financeiras e não financeiras, perante as novas demandas regulatórias oriundas do acordo internacional de Basileia III e do Dodd-Frank Act*.

Portanto, acreditamos que nossa principal contribuição com este artigo foi trazer para a arena de discussões um tópico de extrema relevância para administradores financeiros e gestores de risco — o risco de crédito de contrapartes. Dadas as dificuldades que enfrentamos, num passado muito recente, devido a práticas inadequadas com relação à mensuração e avaliação desse tipo de risco, e as reações tomadas pelas autoridades reguladoras ao redor do mundo, a existência de uma estrutura adequada ao seu gerenciamento é fundamental para garantir a saúde financeira das empresas e bancos e, também, a solvência do próprio mercado financeiro.


HBR Reprint R1112E–P

 

Carlos Vianna (carlos.c.vianna@accenture.com), senior executive, é líder da equipe de Risk Management da Accenture para a América Latina.

Edson Gonçalves (edson.d.goncalves@accenture.com), associate principal, é responsável por modelagem quantitativa da mesma equipe.

Gustavo Machado (gustavo.c.machado@accenture.com), senior manager, é responsável pela implementação de soluções tecnológicas para risco de mercado da equipe.

Rodrigo Nabholz (rodrigo.b.nabholz@accenture.com), senior manager, é responsável pelas práticas de risco de mercado e liquidez da equipe.

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