O crescimento da quantidade de mulheres graduadas no Brasil explica boa parte da transformação do País na sexta maior economia mundial. Mas será que as empresas têm recebido essas mulheres tão bem como poderiam?

 

Mulheres ambiciosas hoje podem escolher entre uma vasta gama de oportunidades educacionais e profissionais, o que era inconcebível até uma geração atrás. As mulheres representam 60% dos um milhão de universitários no Brasil, levando vantagem sobre outros países do BRIC, Reino Unido e EUA em relação à posição feminina frente à masculina no mercado de trabalho. De acordo com “A Batalha para o talento feminino no Brasil”, nova pesquisa do Center for Talent Innovation (CTI), mais da metade são os primeiros em sua família a se formar na faculdade, e impressionantes 31% delas têm pós-graduação. E elas estão ansiosas para usar essa qualificação para subir na carreira. A pesquisa do CTI mostra que 80% das mulheres com ensino superior aspiram a um cargo mais alto – mais do que na China e na Rússia, e superando de longe suas colegas americanas (52%).

 

Os gerentes de contratação têm notado a mudança. “Quando você olha para quem está ingressando na força de trabalho e o que podem significar para o desenvolvimento do capital humano, é óbvio que as mulheres hoje têm vantagem competitiva”, diz Valentino Carlotti, presidente da Goldman Sachs Bank no Brasil.

 

Mas os head hunters corporativos estão enfrentando um problema.

 

Não é apenas uma guerra acirrada por talentos na economia em expansão. É que muitas mulheres altamente qualificadas estão preterindo empregos no setor privado. A pesquisa do CTI constatou que 65% das mulheres brasileiras educadas vêm o setor público como muito desejável para se trabalhar, percentual muito acima do que mulheres em outros países do BRIC. Apenas 49% das mulheres consideram as empresas privadas brasileiras na categoria “muito desejável para trabalhar”, e ainda menos mulheres (39%) pensam o mesmo de uma multinacional norte-americana.

 

Suas razões têm pouco a ver com o poder, prestígio, projetos interessantes ou avanços, e tudo a ver com segurança do trabalho, benefícios e equilíbrio trabalho-vida. A ênfase na segurança do emprego – escolhida por 79% das pesquisadas – não é surpreendente em uma economia que não há muito tempo experimentou inflação de três dígitos e tem uma história de altos e baixos. Os salários podem não ser tão altos como no setor privado, mas graças a um dos sistemas de pensão mais generosos do mundo, os trabalhadores podem se aposentar com seu salário integral e receber os mesmos aumentos que seus colegas de trabalho na ativa.

 

Igualmente atraentes são os benefícios para toda a família e quantidades generosas de tempo de folga para férias, por motivos de saúde e licença maternidade. Esposas e mães trabalhadoras apreciam a jornada semanal de trabalho do serviço público de no máximo de 44 horas – além de pagamento de horas extras de 150% de um salário-base – coisas que estão longe de serem adotadas por empresas privadas.

 

E se a maioria das organizações do setor público não são tão dinâmicas e complexas como as do setor privado – nem oferecem tantas oportunidades de progressão na carreira –, prometem uma rede de segurança confortável que apoia as mulheres cansadas de desviar das pedras e flechas de uma sociedade em transição.

 

O que nos traz ao elefante na sala que todo mundo vê, mas apenas alguns mencionam: vivendo em uma cultura que continua a colocar o casamento e a maternidade antes das aspirações de carreira, as profissionais brasileiras são confrontadas com um preconceito de gênero sutil, mas indiscutível no local de trabalho. Mais de um quarto (26%) das entrevistadas e 23% dos entrevistados na pesquisa do CTI acham que as mulheres encontram preconceito no ambiente de trabalho por causa de seu gênero. Significativamente, 40% das mulheres relatam que os problemas de preconceito são graves o suficiente para fazê-los considerar engatar a marcha-a-ré nas suas ambições de carreira – ou até a abandoná-la por completo.

 

“Nenhum homem jamais diria: Você não pode fazer isso porque é mulher; mas as mulheres em geral têm de provar sua capacidade a cada dia”, diz a diretora de operações de uma empresa farmacêutica multinacional. Uma colega da área de recursos humanos concorda. “A forma como eles fazem perguntas ou como eles testam o seu conhecimento é diferente da forma como interagem com seus pares masculinos. Eles vão mais fundo em detalhes – quase como um interrogatório.”

 

Um trabalho no governo já significou estacionar as ambições de carreira na porta de entrada –- um entrevistado foi tão longe a ponto de dizer que “manchava currículos.” Mas essa percepção está mudando, e o setor público agora promete possibilidades cada vez maiores para alimentar a ambição de uma mulher com ambiente de trabalho amigável. A Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016 oferecem oportunidades para trabalhar em grandes projetos públicos. Como o Brasil assume uma posição mais proeminente nos palcos mundiais, empresas estatais emblemáticas como o Banco do Brasil e Petrobras estão se tornando ímãs de talentos. Um
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evantamento de 2010 entre estudantes universitários classificou a Petrobras como o empregador número 1 dos seus sonhos, batendo até mesmo o Google.

 

E que melhor modelo existe para expressar o quão longe as mulheres podem subir no setor público do que a primeira presidente do Brasil, Dilma Rousseff?

 

Ao mesmo tempo, mais mulheres estão caminhando para cargos de gerência sênior no setor privado. Segundo uma pesquisa da Grant Thornton, as mulheres brasileiras ocupam 27% dos cargos de chefia em empresas, tanto nas de capital aberto quanto nas fechadas (ultrapassando o percentual de 17% nos EUA); e, de acordo com o Instituto Ethos, constituem 13,7% dos cargos executivos nas 500 maiores empresas brasileiras. Uma reportagem da revista Veja mostrou recentemente que há oito CEOs femininas no Brasil, incluindo presidentes nacionais da Johnson & Johnson, GM, Estée Lauder e PepsiCo – provando que mulheres determinadas podem realmente prosperar e serem promovidas.

 

Como o cabo-de-guerra entre o setor público e privado para atrair o talento feminino deve se intensificar nos próximos anos, será interessante ver como cada lado vai mudar para atrair as melhores e mais brilhantes.

 


Sylvia Ann Hewlett é presidente do Center for Talent Innovation (CTI) e da Ann Sylvia Hewlett Associates. Ela é a autora de 11 livros, incluindo Ganhar a Guerra por Talentos em Mercados Emergentes. Siga-a no Twitter em @ sahewlett.

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