Tese: quando há uma boa comunicação entre as pessoas, a atividade cerebral de quem ouve começa a espelhar a atividade cerebral de quem fala.

 
Estudo: Uri Hasson e dois colegas (Greg J. Stephens e Lauren J. Silbert) registraram a atividade cerebral de uma mulher enquanto esta contava uma história sobre seu baile de formatura e a atividade no cérebro de um punhado de gente que ouvia o relato. Em seguida, fizeram uma série de perguntas para avaliar a compreensão da história pelos ouvintes. As imagens mostraram que o cérebro de quem ouvia começava a se assemelhar ao da pessoa que falava — a entrar em “sintonia” com ele. Quanto maior a sintonia, maior era a compreensão da história pelo ouvinte.
 
Dúvida: a comunicação é um processo cognitivo único, compartilhado por dois cérebros? Um excelente comunicador poderia, literalmente, mexer com nossa cabeça? Professor Hasson, defenda seu estudo.
Hasson: Há uma correlação clara e dramá­ti­ca. Quanto mais uma pessoa entende o que um outro indivíduo está dizendo, mais parecida fica sua atividade cerebral à atividade do cérebro de quem faz o relato. Além disso, embora normalmente haja um ligeiro intervalo entre a atividade no cérebro de quem fala e a atividade no cérebro de quem ouve, quando a compreensão é extremamente elevada esse atraso quase desaparece. Aliás, nas pessoas com a maior pontuação em compreensão, a resposta do cérebro às vezes precedia a do locutor.
HBR: Ou seja, essas pessoas entenderam o que o outro ia dizer antes que abrisse a boca?
Acreditamos que as imagens registradas mostravam que um ouvinte bom, ativo, podia prever o que o locutor ia dizer. Foi algo surpreendente.
Ou assustador.
Não. São apenas dois cérebros muito sintonizados se comunicando bem. É aquela sensação que temos quando estamos na mesma frequência de alguém. É quase visceral. Um consegue completar as frases do outro. A propósito, sentimos algo igualmente forte quando não estamos em sintonia com alguém. Às vezes, dá para sentir quando o outro está falando e não estamos entendendo nada. Os cérebros não estão sintonizando.
Mas por que é importante que a resposta dos cérebros se torne parecida? O que isso vem explicar?
A produção da fala e a compreensão da fala sempre foram estudadas como processos separados que ocorrem dentro dos limites de um único cérebro. Ao falar, meu cérebro está fazendo uma coisa. Ao ouvir, seu cérebro está fazendo outra. Nosso estudo é um dos primeiros a observar a interação entre dois cérebros como um processo único, compartilhado. A sintonia não é resultado da compreensão. É a base neural graças à qual entendemos o outro. O que estamos sugerindo é que a comunicação é um ato único realizado por dois cérebros.

 

Os voluntários do estudo estavam dentro de um aparelho de ressonância magnética quando ouviram a gravação de alguém contando uma história. É realmente possível extrapolar essa conclusão para a complexa comunicação na vida real?
Suspeitamos que o efeito da sintonia seja ainda mais forte na comunicação cara a cara, que é reforçada por expressões e gestos. Além disso, não haveria distrações como o barulho pouco natural do aparelho de ressonância magnética. É verdade que usamos equipamentos especiais de gravação e audição para eliminar parte do ruído. E, ainda que os ouvintes não tenham recebido qualquer pista não verbal, a sintonia se estendeu a distintos níveis da rede cerebral, do processamento básico da informação auditiva a funções mais complexas. Infelizmente, a tecnologia no estado atual ainda não permite a visualização da atividade cerebral na vida real. Esse dia chegará!
Lá vai, então, a pergunta valendo um milhão: por que o cérebro de certas pessoas sintoniza com mais facilidade?
Ainda não sabemos. É o que vamos investigar a seguir. Será que certos líderes, por exemplo, são melhores para sintonizar o cérebro com o dos outros? Fico pensando em como as pessoas se deixam hipnotizar por um bom comunicador. Vi o Obama discursar num comício certa vez, o público na plateia estava fascinado. Será que, por algum motivo, ele é mais capaz de induzir respostas cerebrais similares em todo ouvinte? Que mecanismos permitem ao cérebro de um ouvinte sintonizar ou não? Se não concordar com a opinião de Obama, a pessoa pode impedir que seu cérebro sintonize com o dele? Posso interferir nesse sinal? Por que se produzem falhas na comunicação, ou falta de sintonia? Como a criança adquire a capacidade de sintonizar o cérebro? São, todas, coisas que queremos investigar.
Será que certas pessoas nascem com a capacidade de sintonizar seu cérebro com outras?
É provável que haja um espectro de capacidade. Num extremo está o autista, que não consegue transmitir ou captar a informação certa para produzir uma boa sintonia cerebral. Não consegue se conectar com os outros. No outro extremo há gente que parece quase transmitir um sinal comum, com quem é muito fácil se conectar.
Se entender esse mecanismo, a pessoa conseguiria avançar nesse continuum?
Sem dúvida. Para nós, é um rumo importante a seguir. E se pudéssemos ajudar uma pessoa autista a se conectar? E se pudéssemos testar a capacidade das pessoas de transmitir e receber esses sinais? Há como ajudar alguém a aprender a liderar melhor? É possível aumentar a sintonia e, com isso, reduzir falhas de comunicação?
Você usa termos relacionados à comunicação sem fio: “sintonia”, “frequência”, “sinal”. A seu ver, o
cérebro é uma espécie de transmissor sem fio?
É justamente isso. Estou gerando uma onda cerebral que gera uma onda sonora que gera uma onda cerebral em você. Não há nada de sobrenatural nisso. Não é um truque mental de um Jedi. Isso é comunicação. É o que o ser humano faz melhor — e é algo singular e surpreendente.
Como?
Embora não queira soar muito filosófico, todos os cérebros estão, basicamente, conectados com o mundo exterior. Se me sentasse a seu lado num cinema e alguém medisse a atividade de nossos cérebros, veria padrões extremamente semelhantes. Nossa reação a estímulos externos é a mesma porque, como espécie, o homem tem uma percepção similar do mundo exterior. O cérebro de todo macaco responde a uma banana basicamente da mesma maneira. Mas seres humanos conseguem sintonizar seus cérebros diretamente, sem estímulos externos. Se disser “elefante”, você vai entender o que estou dizendo ainda que não haja um elefante na sala. Meu cérebro transmitiu a ideia de um elefante diretamente ao seu. Nem todo animal tem essa capacidade. Mas o homem, sim.
Sinceramente, isso tudo está me dando dor de cabeça.
É que nossos cérebros devem estar fora de sintonia.
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Uri Hasson é professor-assistente de psicologia da Princeton University, nos EUA.
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