Os cursos de MBA e de especialização executiva costumam ser vendidos como passaporte para alavancar rapidamente carreiras e salários. Chega-se a apontar casos de executivos que, ao longo do curso, que pode durar de um ano e meio a dois anos, mudaram de emprego até três vezes, sempre com remuneração crescente. A realidade não é bem assim. A maioria das pessoas leva algum tempo para pôr em prática o que aprendeu e convencer seus superiores e o mercado de que merecem um salário maior.

É verdade que as empresas valorizam os profissionais que possuem uma especialização, MBA, mestrado ou doutorado no currículo. A diferença de remuneração entre o profissional que tem curso superior completo e aquele que conta com maior bagagem na formação é mais significativa nos cargos mais baixos da hierarquia funcional.

Pesquisa feita pela empresa de recrutamento Catho constatou que o profissional sênior que tem uma especialização ganha 20,6% a mais do que aquele que tem o curso superior completo; com um MBA, o salário é um terço maior; e com um mestrado ou doutorado, chega perto do dobro.  No caso de um coordenador, a especialização e o MBA garantem salários de 31% a 36% maiores; e o mestrado e doutorado, 86% maior.

Entre os gerentes, há um nítido benefício no MBA, que rende um salário 34,5% superior ao de quem tem apenas o curso superior, enquanto a especialização, mais comum nessa faixa, aumenta a remuneração em 12%; com mestrado ou doutorado, o profissional pode ganhar até 60% mais. Na faixa de diretor, as diferenças são bem menores. Um diretor com especialização ganha 13% a mais do que aquele com curso superior completo; com MBA, 16% a mais; e com mestrado ou doutorado, 25% a mais.

Especialistas do setor divergem a respeito do tempo que o MBA leva para ter impacto no salário do executivo que faz o curso. Leandro Morilhas, diretor da Fundação Instituto de Administração (FIA), que foi fundada nos anos 1980 como um departamento da Faculdade de Administração da Universidade de São Paulo (USP) e oferece uma quinzena de cursos de MBA, afirma que há alunos que chegam a mudar de emprego duas ou três vezes durante o curso, logicamente com melhorias salariais.

Paula Matos Marques Simões, gerente de coordenação de programas de MBA da Fundação Dom Cabral (FDC), que realiza cursos de especialização e de MBA, já verificou que o salário dos alunos de MBA pode subir de 20% a 30% durante o curso. Para ela, aumento salarial é consequência esperada do conhecimento adquirido. Já o presidente da escola de negócios Saint Paul, fundada em 2012, José Cláudio Securato, concorda com a perspectiva de um aumento salarial de 20% a 30% para quem faz um MBA, mas previne que o executivo precisa de pelo menos um ano e meio para mostrar o que aprendeu e aplicar os novos conhecimentos e, eventualmente, conseguir uma promoção.

Fazer o MBA não é, porém, garantia líquida e certa de aumento de salário, mostra pesquisa feita junto a alunos e ex-alunos do curso, no ano passado, pela Associação Nacional de MBA (Anamba). Dos ex-alunos de MBA que participaram de pesquisa, 44%, ou menos da metade, afirmaram que os conhecimentos obtidos no MBA contribuíram para o aumento do salário recebido.

A pesquisa registra, de toda forma, que os ex-alunos estão em posição superior à dos atuais alunos na escala hierárquica. Cerca de 67% dos alunos têm, pelo menos, posição de coordenador; já entre os ex-alunos, o percentual chega a 75%. Nada menos do que 28% dos ex-alunos dos cursos mais conceituados atingiram o cargo de diretor ou presidente em suas empresas, percentual que é de apenas 13% entre os alunos. Já o cargo de gerente predomina entre os alunos, com 37%, e é de 35% entre os ex-alunos.

A consultora da BTA e professora da PUC Minas Betania Tanure afirma que os cursos de MBA, assim como as especializações, podem se traduzir em avanços na carreira profissional, em resultados efetivos no desempenho das funções, desde que se saiba implementar os conhecimentos adquiridos.

O primeiro passo nesse caminho é certamente escolher bem o curso que se vai fazer e onde fazer. Betania alerta que houve, nos últimos anos, uma enorme proliferação dos cursos de MBA que fizeram a sigla “perder o significado”. Muitos deles são cursos de especialização que não são MBA, têm objetivos diferentes e servem a públicos distintos. O valor do diploma é proporcional à credibilidade da instituição que o concede e os empregadores sabem distinguir o peso de cada uma. Considerando que o investimento em um curso de MBA não é pequeno, aconselha muita atenção na escolha da instituição onde estudar.

O diretor-executivo da Anamba, professor Armando Dal Colletto, diz que o Ministério da Educação e Cultura (MEC) regula com rigidez os cursos de graduação e pós-graduação “stricto sensu”, mas só recentemente voltou sua atenção aos cursos “lato sensu”, em que se encaixam os MBA, e está levantando a situação do setor. Segundo Dal Colletto, há cerca de 2,5 mil escolas de administração no país e todas podem potencialmente oferecer cursos de educação executiva.

Com o cadastramento, espera-se maior fiscalização sobre a atividade e a regulamentação da qualidade desse tipo de curso. Na ausência de um padrão oficial, a Anamba estabeleceu regras como carga horária, currículo, assuntos abordados, critérios para a seleção de alunos, proporção entre aulas presenciais e a distância e importância da vivência prática do mundo dos negócios. Com base nesses critérios, avaliza cerca de 30 cursos.

Dal Colletto afirma que o MEC ainda não definiu as características do curso de MBA. Para ele, o MBA deve desenvolver as habilidades e competências para a carreira de gestão. Por isso, o curso tem que oferecer conhecimento das várias áreas dentro das empresas, fornecer ferramentas, em temas mais técnicos como marketing, recursos humanos e estratégia. Além disso, precisa focar os mais abrangentes, relacionados com a sociedade, ambiente econômico local e global, governança, responsabilidade social, papel das empresas e sustentabilidade. Há um terceiro grupo de temas ligados a atributos de liderança como comunicação, relações humanas, gestão de pessoas e equipes, motivação por meio de exercícios, jogos e simulações.

 

 

O diretor da Anamba considera ainda importante a interdependência de todos esses temas, dentro da dinâmica dos mercados, das mudanças que ocorrem na sociedade e na tecnologia, que alteram as regras e formas de fazer negócios, sem deixar de lado o desenvolvimento do pensamento crítico e da capacidade de análise para a tomada de decisões e condução dos negócios.

Qualidades desenvolvidas

Levando-se em conta que geralmente predominam entre as qualidades que as grandes empresas buscam em seus altos executivos atributos intangíveis como liderança, sensibilidade e  flexibilidade, torna-se ainda mais importante a escolha do curso por todo o ambiente que oferece, além de um currículo impecável e atualizado. Afinal, essas qualidades dificilmente são ensinadas, mas podem ser desenvolvidas.

Sondagem feita pela Cambridge University junto a cerca de
600 alunos de MBA registrou que eles manifestaram maior atenção ao ambiente de aprendizado do que propriamente ao currículo formal do curso, valorizando os conhecimentos adquiridos fora da sala de aula e o relacionamento com outros estudantes, por exemplo. Em relação ao currículo, destacaram os temas menos técnicos como liderança.

A pesquisa feita pela Anamba mostra um retrato semelhante (ver Motivos para fazer o curso). A principal justificativa dada pelos executivos para fazer o curso de MBA foi buscar maior conhecimento de gestão (30%). Em seguida, com 20% das respostas, ficou o networking, ou seja, o relacionamento com outros profissionais que o curso possibilita. Na sequência, vieram dois fatores relacionados a salário, a expectativa de maior remuneração (15%) e de mudança de carreira (12%).

A pesquisa feita com os ex-alunos, cujos objetivos eram basicamente os mesmos, indica que 87% tiveram suas expectativas atingidas em sua maioria ou plenamente; 9% informaram que apenas uma minoria de objetivos foi atingida; e 4% não alcançaram suas metas.

A Anamba também perguntou aos entrevistados os critérios para a escolha do MBA feito, admitindo múltiplas respostas. A tradição e a imagem da escola foram os principais motivos, segundo 15% dos entrevistados, mais importantes do que o programa do curso (13%). A recomendação ficou com 9%; o perfil do corpo docente e a existência de módulo internacional, com 8% cada um; a colocação em ranking nacional e a localização, com 7% cada um; o credenciamento nacional, a presença em ranking internacional e o networking tiveram 6% cada um; a infraestrutura ficou com 5% das respostas; o preço e as condições de pagamento, 4%; a carga horária acima de 480 horas, 3%; a carga horária presencial, 2%; e a duração acima de um ano, 1%.

Entre os motivos para se fazer um MBA, um dos mais destacados é o networking. Muitos alunos apostam que o conhecimento de outros profissionais amplia as alternativas de emprego. Isso realmente pode acontecer. Ter uma rede de contatos é importante em qualquer profissão. Mas, para os especialistas, o verdadeiro ganho do networking é com a troca de experiências e o convívio com pessoas que têm diferentes modos de analisar e resolver os problemas e trazem bagagem de conhecimento diferenciada, o que deve ser explorado em um ambiente de aprendizado colaborativo.

O networking é mais eficiente nos MBA de melhor qualidade, diz o diretor-executivo da Anamba, em que as classes são formadas por pessoas com experiência, que têm o que transmitir aos outros e propiciem contatos que resultam em parcerias futuras e oportunidades de trabalho.

Fernando José Barbin Laurindo, professor titular da Escola Politécnica (Poli) da USP e presidente da comissão de pós-graduação da escola e da Fundação Vanzolini, fundada em 1970 e mantida por engenheiros de produção da Poli, não vê inconveniente que o aluno passe da graduação para o curso de especialização e MBA. A Vanzolini tem cursos de especialização, capacitação, atualização e MBA. Para o professor, o profissional pode participar de cada um deles em momentos diferentes de sua carreira.

A pesquisa da Anamba incluiu alunos de MBA com 21 anos a 63 anos. Mas 70% deles tinham de 28 anos a 40 anos, sendo que praticamente um terço tinha 32 anos, a idade mais frequente. Em relação ao gênero, há a predominância do sexo masculino, com 66% entre os alunos e 72% entre os ex-alunos. Está aumentando o número de mulheres nos cursos de MBA, mas ainda é pouco, considerando-se que o sexo feminino predomina nos cursos de graduação.

A idade certa

 Dal Colletto, da Anamba, não acha aconselhável emendar a graduação com o MBA, que deve ser cursado preferencialmente dos 28 anos aos 40 anos, na sua opinião. No Insper, o aluno do MBA executivo tem ao redor de 34 anos e o do MBA de finanças, 30 anos. O recém-formado geralmente não tem repertório suficientemente desenvolvido até para aproveitar bem o curso, que requer experiência gerencial e de liderança, explica Silvio Laban, coordenador-geral dos programas de MBA e professor do Insper. Para os alunos mais jovens, considera mais adequado o certificated.

 

 

A Saint Paul faz a mesma distinção. Securato indica o certificated para estudantes com 24 anos a 35 anos; e o MBA, dos 28 anos aos 40 anos, com a avaliação de que uma turma muito jovem não troca experiência porque não tem o que trocar. No certificated, o aluno é mais passivo e frequenta mais aulas expositivas. Já no MBA o aluno é mais protagonista e ocupa no mínimo um terço do seu tempo no estudo de casos práticos.

Além da idade dos alunos, a heterogeneidade é importante para estimular o networking. Por isso, quando faz MBAs consorciados, que juntam um grupo de executivos de uma mesma empresa, a Fundação Dom Cabral evita que o número supere muito os 10% do total de alunos exatamente para estimular a troca de experiências entre pessoas de diferentes empresas.

É nesse ponto que entra também a discussão dos MBAs no exterior, que levam ao nível global a troca de experiência e o networking. É famoso o MBA da Oxford University por reunir em suas turmas de 240 alunos representantes de até 50 países diferentes, cada um com seis anos de experiência profissional, uma verdadeira babel da educação administrativa. 

Não raras empresas patrocinam cursos de MBA e especialização para seus funcionários, total ou parcialmente. Em muitos casos, segundo Laban, do Insper, trata-se mais de uma estratégia de retenção de empregados do que de talentos. Para algumas empresas, é um benefício concedido a funcionários a partir de determinada posição, sem haver nenhuma interferência. Pode render um resultado melhor para o trabalho, pois, a princípio, indivíduos mais capacitados geram melhores resultados. Mas a empresa geralmente considera essa uma ferramenta para manter o funcionário motivado e próximo e não um canal de desenvolvimento. Dependendo dos humores da economia, essa política pode acabar. Muitas vezes, as empresas erram porque convocam os funcionários a participar dos cursos em vez de convidá-los e demonstrar-lhes como os conhecimentos ministrados podem melhorar seu desempenho e produtividade.

Em parceria com instituições como a FIA, Insper, Fundação Getulio Vargas, Fipecafi e ISE Business School, o Bradesco patrocina para seus funcionários cursos de especialização, MBAs, pós-graduação e mestrado com o objetivo, segundo a diretora de RH do banco, Glaucimar Peticov, de desenvolver as capacidades e aperfeiçoar as práticas de gestão. O Bradesco investiu nesse programa R$ 8,1 milhões em 2013 e R$ 5,2 milhões neste ano até setembro.

No campo da educação executiva, o Bradesco tem programa de gestão estratégica com a participação em cursos no Brasil e no exterior de escolas internacionais como as americanas Harvard, Wharton, Chicago Booth, Columbia, Kellogg, MIT e Michigan. Inclui também a participação em programas de liderança no Center for Creative Leadership, além da ISE Business School, para superintendentes executivos, diretores departamentais e diretores executivos.

 

 

Existem algumas regras básicas para ser beneficiado, como ter certo tempo de casa. O programa de MBA ou especialização deve ter alguma afinidade com o que a pessoa faz dentro do banco, que concede patrocínio integral.

Também do setor financeiro, o Santander patrocina cursos para os funcionários, o que está até incluído em acordo com o sindicato do setor. O acordo inclui 2,5 mil bolsas de estudo por ano, desde a graduação até mestrado, doutorado e MBA. O conceito, informa Ricardo Bretas, superintendente de RH do banco, é o desenvolvimento dos profissionais. Do orçamento anual de educação, 9% são destinados aos patrocínios de MBA.

Tempo de casa

Um dos critérios de seleção é o tempo de casa. O banco patrocina até 75% do custo do curso porque acredita que, ao exigir uma participação do funcionário, terá seu comprometimento. Anualmente, o RH se

reúne com os executivos das principais áreas e analisa o desenvolvimento das competências dos funcionários do setor. O funcionário tem que continuar no banco por até dois anos após o término no curso.

Na Cargill, a prática é patrocinar metade do custo dos cursos de MBA, sendo as áreas mais beneficiadas as de gestão empresarial e organizacional.

O programa faz parte do processo de gestão de pessoas. Como forma de reverter para a empresa o que foi investido, o funcionário deve continuar no trabalho por dois anos.

Com 20 mil funcionários espalhados em 380 unidades de trabalho no Brasil, a Manserv, que possui quatro núcleos de negócios, tem dois programas de MBA para gestores, oferecidos em parceria com a Fundação Dom Cabral. Um é para gerentes e outro para coordenadores de unidades.

São cursos dentro da companhia, o que facilita o processo porque o pessoal está espalhado pelo país. Como os gerentes e coordenadores já realizam reuniões mensais em São Caetano e Campinas, foram aproveitadas essas ocasiões para a realização do curso, que tem um ano e quatro meses de duração, com uma turma em cada cidade, na sexta-feira e no sábado. Dos convidados, 90% aceitaram, totalizando 70 participantes. O curso é também uma oportunidade de os executivos se conhecerem melhor, uma vez que não estão fisicamente no mesmo local.

A política de patrocínio de MBAs para funcionários da AES Eletropaulo tem foco no desenvolvimento, e não caráter de benefício. O funcionário interessado expõe ao gestor quanto o curso vai contribuir para seu desenvolvimento e para o retorno na empresa. Os cursos mais comuns patrocinados são de gestão de negócio, gestão financeira e área técnica. A empresa entra com até 70% do valor e o funcionário favorecido deve ficar dois anos na empresa após o fim do MBA.

A White Martins está aberta a financiar cursos lato sensu e stricto sensu. A proposta pode partir do funcionário ou do gestor e será avaliada pela empresa em um processo de seleção, que não considera a concessão do suporte um benefício. Os cursos favorecidos pela White Martins em geral focam as áreas de gestão financeira e sustentabilidade, em seus três aspectos — social, ambiental e econômico.

O patrocínio cobre até 60% do valor, porque a empresa considera importante o envolvimento do funcionário e aposta no seu efeito na retenção dos funcionários. Há alguns critérios de elegibilidade: ser executivo e ter avaliação de desempenho acima da média nos dois anos anteriores. Para o MBA, precisa estar formado há cinco anos. A pós-graduação só é considerada em casos em que é necessário um funcionário com maior especialização.

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