Presidente de uma rede sofisticada de lojas de roupa, a americana Hathaway Jones, Fred Westen passou os últimos quatro anos lutando para revigorar a imagem da empresa e turbinar as vendas. Acaba de soltar um plano ambicioso para penetrar o efervescente mercado de artigos de luxo na China quando recebe um telefonema de um velho amigo de escola. Fred aceita entrevistar a filha do amigo, Mimi Brewster, para um possível emprego – quem sabe até o comando da principal loja da rede na China, em Xangai.

 

Fred fica impressionado com o currículo de Mimi. A entrevista também é muito boa, mas uma busca de rotina no Google revela informações sobre a moça que poderiam afetar o desempenho da Hathaway Jones na China. Artigos de jornal e fotografias revelam que Mimi, logo depois de deixar a universidade, participara de protestos barulhentos – incluindo um em frente ao consulado chinês em San Francisco – contra a Organização Mundial do Comércio. Com a diretora de RH sugerindo cautela, Fred pondera práticas de contratação na era digital. O executivo sabe que nada mais é segredo – sobretudo entre a geração mais jovem, que expõe sua intimidade sem pudores na internet, para quem quiser ver. Se contratar Mimi e sua conduta no passado vier à tona, a expansão da empresa no exterior poderia ser prejudicada. Só que um astro em ascensão como Mimi não bate todo dia à porta. Fred deveria contratá-la, apesar de tudo?

 

Fictício, o caso traz comentários de John G. Palfrey Jr., professor e diretor executivo do Berkman Center for Internet & Society da Harvard Law School; Jeffrey A. Joerres, presidente da Manpower; Danah M. Boyd, candidata ao doutorado na University of California em Berkeley e consultora de empresas; e Michael Fertik, presidente da ReputationDefender.

 

 

 

Fred Westen achou uma excelente candidata para tocar a inauguração de uma loja de roupas do grupo na China. Mas a ficha da moça na internet pode impedir sua contratação.

 

O vento uivava, incessante, enquanto Fred Westen abria a porta de casa. Entrou e gritou o nome da mulher, para avisar que chegara. Enquanto a esperava, serviu-se de uma dose de uísque, virando com a mão esquerda a garrafa. Na direita tinha um jornal, o The Wall Street Journal daquele dia. Presidente de uma rede sofisticada de lojas de roupa, a Hathaway Jones, Fred queria ouvir a opinião da mulher sobre uma reportagem.

 

Martha Westen desceu a escada a um passo quase langoroso. Foi à cozinha, preparou um chá, rumou com a xícara para a sala e se aconchegou na poltrona favorita, à beira da lareira. Fred passou o jornal à mulher e apontou para a capa. Lá, Martha encontrou um artigo sobre como uma seguradora recusara o pedido de indenização por invalidez de uma mulher que sofria de dores crônicas na coluna com base em informações obtidas de anotações do psicólogo da segurada.

 

Martha sacudiu a cabeça. "Está cada dia pior." Sentiu um calafrio ao imaginar um futuro no qual a ficha médica de todo mundo estivesse na internet. "Nem nossos pensamentos já não são privados." Aos 58 anos, Martha não se julgava nenhuma especialista na divulgação de conteúdo online ou em qualquer outra coisa ligada à internet. Tudo o que sabia vinha daquilo que lia na grande imprensa – o que bastava para tirar seu sono.

 

"É o que eu sempre digo, Fred. Hoje em dia, nada mais é segredo e a gente vai ter de aprender a viver nessa nova realidade."

 

Martha se calou. Ficou ali, fitando pensativa o fogo. Fred sentiu até um certo alívio quando o telefone tocou. De um salto, foi atender.

 

Do outro lado da linha estava John Brewster, velho companheiro de quarto dos tempos do colégio interno e, hoje, correspondente de uma série de jornais americanos em Xangai. Embora os dois não tivessem mantido muito contato desde aqueles dias, ainda trocavam cartões de Natal e, aqui e ali, se falavam ao telefone. Depois de alguns minutos contando as novidades, John desviou o foco da conversa para sua filha, Mimi.

 

Mimi vivia em San Francisco. Ficara sabendo que Fred planejava levar a Hathaway Jones, sediada em Filadélfia, para a China, e queria fazer parte da expansão. A última vez que Fred a vira, Mimi era uma adolescente – sua lembrança era a de uma garota confiante e precoce, como toda criança que viveu no exterior costuma ser. John perguntou se Fred não a receberia. "É uma garota maravilhosa", prometeu o velho amigo, "do tipo que faz e acontece."

 

"Para mim, seria um prazer", disse Fred, com sinceridade. "Peça a ela para falar com minha secretária."

 

A candidata

Um mês depois, do outro lado dos Estados Unidos, Mimi Brewster admirava a própria imagem no espelho do quarto. Seu rosto era iluminado pelo rastro de um sorriso – sorriso que Mimi jamais deixaria outra pessoa ver, mas que indicava a satisfação que sentia com a própria vida. Com o cabelo negro em um corte curtinho e os sapatos Manolo Blahnik, Mimi sentia estar no caminho certo. Ainda não tinha 30 anos e já era o tipo de pessoa que se fazia notar.

 

"Você está linda, ele vai ficar tão maluco por você quanto eu", disse Chandler, o namorado. Ainda na cama, o rapaz não conseguia ocultar o fascínio que Mimi exercia sobre ele. "Só um louco não contrataria você."

 

Mimi achava o mesmo. Tinha crescido na China e falava tanto mandarim quanto um dialeto local. Embora tivesse sido uma estudante sem muito destaque, esse passado garantira à moça uma vaga em algumas das melhores universidades dos EUA. No final, Mimi se decidira por Berkeley, onde seu pai estudara. Lá, se especializara em história moderna da China, formando-se com altas honras.

 

O diploma universitário lhe rendera uma série de ofertas de emprego. Mimi acabou aceitando um posto em uma
c
onsultoria administrativa. Lá, ganhou o que queria: um amplo conhecimento sobre o mundo dos negócios. Com a carreira deslanchada, foi fazer, dois anos depois, um MBA em Stanford – que preferiu a Harvard por considerar a primeira mais perto do agito. Já formada, foi contratada pela filial da costa oeste da maior empresa de roupas, calçados e acessórios do país, a cadeia Eleanor Gaston. Estava ali há quatro anos e mostrara uma capacidade incrível de farejar o que queria vestir um público jovem, afluente, de gosto volátil e interessado em gastar o que ganhara nas pontocom. Depois de ter relançado com sucesso duas marcas, Mimi buscava, agora, uma experiência mais geral na administração, de preferência em um mercado de crescimento acelerado como a China.

 

Mimi foi até a cama, sentou e deu um beijinho maroto na boca do namorado. "Não vá ficar o dia inteiro 'chateando' com a turma", disse. "Você precisa levar o Patapouf ao veterinário." O gato siamês de Mimi tinha um humor terrível – mas tinha também certos ares, e Mimi adorava aquilo. Pegou Patapouf e deu um abraço no gato.

 

Levantou abruptamente, ajeitou o terninho para a entrevista na Hathaway Jones e deu tchau. Toda negócios, apanhou a bolsa, o BlackBerry e as chaves e rumou para o aeroporto, para pegar o vôo para Filadélfia.

 

Aposta na China

Fred saía de casa todo dia às 5h30 rumo ao trabalho, no número 1 da avenida Constitution. Tinha muito a fazer, e não havia um segundo a perder. Embora tivesse faturado US$ 5 bilhões em 2006, a Hathaway Jones enfrentava dificuldades. Quatro anos antes, a rede, de controle privado, instalara Fred no comando devido a seu currículo imponente e a uma vida inteira trabalhando com marcas de luxo. Fred fora incumbido de revigorar as lojas da rede – conservadoras, modorrentas.

 

Não fora fácil. Embora a intensa transferência da produção de certas marcas de segunda linha da empresa para o México tivesse ajudado a aproximar as margens de lucro da média do setor, aquilo fora só o começo. Ávido consumidor dos relatórios de marketing da rede, Fred sabia que a imagem da empresa vinha envelhecendo – e rápido. O público mais jovem nos EUA, onde a Hataway Jones tinha 144 lojas e outlets, queria roupas mais baratas, mais descoladas. A tendência começava a se fazer notar no declínio das vendas da linha mais sofisticada – para alguns, careta – da empresa, de preço salgado. Havia planos para mudar radicalmente a imagem e a linha de produtos.

 

A grande aposta de Fred, porém, era conquistar um naco do mercado de artigos de luxo da China, que crescia 70% ao ano. Milhões de dólares tinham sido reservados para a inauguração de lojas em três das maiores cidades do país, incluindo Pequim e Guangzhou. A principal ficaria em Xangai, a cidade mais rica e mais cosmopolita da China. Munido dos planos, Fred tratava agora de montar uma equipe estelar. "Como será a Mimi, hoje?", se perguntava, checando o currículo da moça. "Quem sabe não a encaixo aqui? Fazer um favor a um amigo e apostar em alguém em ascensão? Nada mal. Estaria matando dois coelhos…"

 

Primeira impressão

Mimi era o último compromisso de Fred no dia. "Vamos entrando!", exclamou, abraçando a moça e indicando uma poltrona para que se sentasse. Mimi deu uma geral na sala e fitou por um instante uma litografia da primeira Hathaway Jones, uma loja de cortinas em Filadélfia. "Você é a cara da sua mãe", disse Fred, já acomodado na cadeira macia de couro. "E como vai ela?"

 

Mimi se pôs a contar como, depois de quase 30 anos pintando retratos, a mãe virara fotógrafa de moda para capitalizar o interesse inédito da China na imagem e na fama. "É incrível o apetite da nova classe média chinesa por moda", comentou Mimi. "É verdade", disse Fred, acrescentando que a demanda de artigos de luxo pelos Chuppies – os yuppies chineses – parecia insaciável. "Sem dúvida!", disse Mimi, com um certo atropelo. "Todo mundo sabe disso."

 

Mimi tentava pensar em algo que causasse uma bela impressão em Fred. Sabia que, à primeira vista, o primeiro que vinha à cabeça quando se pensava na China era dinheiro. "Agora, em conversas com altos executivos nas grandes cidades", disse, em tom inteligente, "o confucionismo é um tema recorrente". Segundo ela, o chinês buscava equilibrar o intenso materialismo das duas últimas décadas com alguma forma de espiritualidade – e Fred devia estar preparado para isso.

 

Mimi o encarou de frente, olho no olho. Era óbvio que não esperava um favor. Queria, sim, ser parte dos planos da Hathaway Jones para expansão na China, pois achava que merecia fazer parte desses planos. Aliás, esperava encabeçar a equipe que inauguraria a loja principal, na rua Nanjing – que está para Xangai como a 5a Avenida está para Nova York. "Uma loja é mais do que a cara de uma marca", disse, com perspicácia. "É a fantasia de moda de uma mulher. Posso ajudar a rede a criar uma fantasia irresistível." Mimi falou em usar arquétipos da China antiga para dar vida à marca da empresa. Fred achou interessante a idéia. "Vou abrir a porta para você e marcar um par de entrevistas", disse, sem assumir nenhum compromisso. "Depois disso, é por sua conta."

 

Mimi deu uma piscadela. "Obrigada, chefe", disse, girando no salto e já dando como certa sua contratação pela Hathaway Jones.

 

O passado condena

Diretora de recursos humanos da Hathaway Jones, Virginia Flanders era veterana de casa – e, por ser da velha guarda, não entrara para o círculo íntimo do novo presidente. Aliás, ela e Fred tinham divergido sobre a maneira como o presidente montara sua alta equipe. Fred ignorava os talentos da própria empresa e minimizava o valor do RH. Para Virginia, apostava demais no sexto sentido na hora de decidir quem contrata

r. Era típico dele estar se derramando em elogios a Mimi depois de apenas uma entrevista, refletia a diretora.

 

Ao reunir o material sobre Mimi para a equipe, Virginia teve de admitir que suas cartas de recomendação eram excelentes. A moça era descrita pelos chefes anteriores como altamente criativa, original, cheia de opiniões, alguém que topava riscos. Talvez um pouco ousada demais para a Hathaway Jones, pensou Virginia. Para completar a ficha, fez uma busca de rotina no Google com o nome da moça. O primeiro resultado era sobre a dona de um restaurante com um nome igual. Virginia refez a busca, acrescentando um punhado de termos: Berkeley, Stanford e o nome da empresa para a qual Mimi trabalhava.

 

Virginia costumava se limitar aos 11 primeiros resultados do Google. Na nona página, vislumbrou algo que poderia preocupar. Um artigo de novembro de 1999 em uma revista identificava Mimi, recém-formada em Berkeley, como a líder de um barulhento – mas pacífico – grupo de manifestantes que ajudara a armar campanhas contra a Organização Mundial do Comércio.

 

"Que estranho", pensou Virginia, que em seguida digitou "direitos humanos" e "livre comércio" ao lado do nome de Mimi. Não esperava achar grande coisa, mas a lista de resultados foi farta. Não tardou para ficar claro que o envolvimento de Mimi fora mais do que um gesto de rebeldia de uma estudante. Uma reportagem de jornal trazia uma foto de Mimi na frente do consulado chinês em San Francisco, protestando contra o tratamento dispensado a um jornalista dissidente.

 

Virginia acabara de clicar em outra página quando uma janelinha indicou que recebera um e-mail de Fred – cancelando a reunião que teriam mais tarde. Resmungando sozinha, Virginia digitou uma mensagem curta e apertou o botão "Responder". Teria de falar sobre o assunto com Fred imediatamente.

 

Notícia ruim

Na sala de reuniões, Fred estava encerrando uma discussão com a alta cúpula executiva. Virginia esperou um pouquinho e entrou. Fred a conhecia o suficiente para saber que, fosse qual fosse o assunto, não seria algo que o deixaria contente. "Qual o problema, Virginia?", perguntou, fechando a pastinha a sua frente.

 

"Olha, acho que estamos com um probleminha em mãos", começou, orgulhosa da capacidade de se manter objetiva. "Dei uma busca no Google sobre a Mimi Brewster e descobri algo que talvez possa nos trazer problemas." Virginia mostrou a Fred a meia dúzia de reportagens que imprimira. Escolhendo a dedo as palavras, disse que Mimi poderia ser o tipo de pessoa que traria dor de cabeça para a empresa na China.

 

"Ora, tenha paciência", disse Fred, a irritação à mostra. "Se buscar bem no Google, a pessoa vai achar podres sobre qualquer um." No íntimo, porém, Fred estava aliviado por Virginia não ter encontrado nada de oito anos para cá – e mais aliviado ainda por não ter achado uma foto de Mimi semidesnuda no MySpace, o que poderia, sim, ser um constrangimento para a empresa.

 

A mente de Fred voltou no tempo. Estava lembrando da década de 1960. Pensou, meio na defensiva, que para ser sincero ele também não "tinha tragado", assim como o resto dos amigos. De repente, sentiu uma certa paranóia – ou seria realismo? Não sabia ao certo.

 

"Chamemos a Mimi de volta para contar sua versão dos fatos", disse, encarando Virginia. Sabia o suficiente sobre a internet para entender que qualquer um podia jogar a informação que quisesse na rede.

 

Virginia começou a piscar, ansiosa. Sugeriu que Fred fosse primeiro consultar o departamento jurídico. A diretora explicou que a equipe de advogados estava examinando as implicações legais e para a privacidade desse tipo de busca na internet, para definir a postura adequada para a empresa. "É meio arriscado revelar que estamos cogitando não contratá-la por causa daquilo que achamos no Google", observou Virginia. "Talvez seja mais seguro abortar a idéia antes de nos envolvermos mais."

 

"Pode ser", admitiu Fred, reconhecendo que talvez tivesse de repensar a contratação de Mimi. "Só que não é todo dia que um profissional com o currículo e as referências dela bate à porta de uma empresa como a nossa. Se ela for parar na concorrência, o azar vai ser nosso."

 

Hora da decisão

"Cuidado!", gritou Martha. Fred ignorara a preferencial e quase batera no carro que cruzava a pista. Martha e Fred tinham decidido jantar fora, mas a cabeça de Fred estava a quilômetros dali.

 

"Está tudo bem?", perguntou a mulher, tentando não soar muito intrometida. "É algo que a gente pode discutir?"

 

Fred deu o sinal para indicar que viraria à esquerda. Contou a Martha o que o RH descobrira sobre Mimi. "E aí, vou fazer o quê?", resmungou. "Com os pecados de todo mundo escancarados na internet, é difícil o pessoal dessa geração mais jovem chegar a nós sem nenhuma bagagem." Ligou o desembaçador e afrouxou a gravata. "Todo mundo vai ter de ser um pouco mais compreensivo", disse.

 

Martha ficou calada por uns minutos, tentando digerir a notícia. Na sua opinião, ninguém ia esquecer e perdoar. "Aquilo que sai na internet é como uma tatuagem", disse, pondo fim ao curto silêncio. "Não dá para apagar. Cedo ou tarde, alguém mais vai achar essa informação – e se ela for parar nas mãos erradas, seus planos para a China podem ir para o espaço."

 

Fred olhou de relance para a mulher, surpreso. Tinha achado que Martha apoiaria a contratação de Mimi apesar das revelações.

 

Martha ficou irritada com a ingenui

dade de Fred. Agora, já não havia como ocultar os fatos. Teria de pensar primeiro nos interesses da empresa – e não se era certo ou errado usar informações que havia descoberto na internet.

 

Fred desviou o olhar de Martha e botou o limpador do pára-brisa no máximo. A neve caía rápida e forte, e Fred teve a estranha sensação de estar só. "Não sei", pensou, dando voltas mentalmente no argumento. "O problema é que tenho a responsabilidade de contratar os melhores profissionais que puder achar para a Hathaway Jones. Como cumprir esse papel se só puder considerar gente que nunca cometeu um deslize?"

 

Fred deve contratar Mimi apesar de sua ficha na internet? Quatro comentaristas dão a sua opinião.

 

{mosimage}

John G. Palfrey Jr. (jpalfrey@law.harvard.edu) é professor de prática jurídica e diretor executivo do Berkman Center for Internet & Society da Harvard Law School, em Cambridge, Massachusetts. É, também, fundador da RSS Investors. Palfrey tem um blog no endereço http://blogs.law.harvard.edu/palfrey/.

 

Fred Westen deve, sim, seguir o próprio instinto e contratar Mimi Brewster – se tudo mais o justificar. Fred deve procurá-la e dizer exatamente o que foi descoberto. Tem pouco a perder. Do ponto de vista legal, não há nada a temer em buscar informações na internet sobre o candidato a uma vaga – só há problema se o que for descoberto levar a uma discriminação proibida por lei. Se uma empresa estiver buscando apenas gente imaculada, que nunca fez nada que chegou à internet, é bem possível que acabe contratando apenas indivíduos desinteressantes. Uma estratégia dessas poderia trazer prejuízos terríveis: uma equipe sem ninguém dotado de chutzpah uma hora estará carente de líderes.

 

Além disso, a história revelada pelo departamento de recursos humanos pode ter outro lado. A informação digital é extremamente maleável. Qualquer pessoa com o mínimo de conhecimento pode facilmente falsificá-la – como quando alguém planta uma mentira sobre outra pessoa em uma sala de bate-papo e essa mentira se espalha e vira "verdade". Um comentário falacioso viaja com incrível rapidez na internet – mais depressa até do que a verdade. É difícil traçá-lo e eliminá-lo. Logo, se um fato que pode ser falso é associado a um candidato, é vital convocar a pessoa para esclarecer a situação e, quem sabe, dar mais referências para novas checagens. Uma vez que é tão fácil falsificar – e partilhar – a informação online, esse segundo nível de entrevista é cada vez mais importante.

 

Supõe-se que Mimi não foi aos jornais pedir que publicassem notícias sobre ela. Mas, na cultura do "nativo digital", a intenção de aparecer em público é comum. Gente criada na moderna era do computador é muito mais promíscua na troca de informações do que gerações anteriores e encara com certa displicência coisas que outros provavelmente considerariam privadíssimo – fotos comprometedoras, papos constrangedores e fatos dos quais mãe nenhuma deveria ficar sabendo. E não pensa duas vezes antes de revelar isso tudo na internet. É algo que não vai mudar – exceto se houver uma correção radical de rumo nas normas sociais.

 

Dada a tendência, critérios de contratação terão de mudar, ou será impossível contratar gente qualificada. Para a atual safra de presidentes e diretores de RH, é algo difícil de entender. Altos executivos são, em sua maioria, "imigrantes digitais" que não tiveram uma imersão na cultura eletrônica. A geração do pós-guerra, e até a de executivos mais jovens, tenta superar sua ambivalência em relação à geração dos 20 e poucos anos de idade, que cada vez mais lança na web informações negativas sobre si própria. Para o imigrante digital, a grande dificuldade é lutar contra o próprio instinto, que é impor freios ao nativo digital. Essa diferença de gerações vai seguir crescendo até que os nativos digitais virem, eles próprios, presidentes e executivos de RH.

 

Como não tenho bola de cristal, não sei dizer se a atual revolução será algo permanente ou não. Meu palpite é que, em algum momento, haverá uma forte revolta – prevejo grandes abalos à medida que aqueles que revelam informações pessoais em excesso na internet começarem a sentir as conseqüências. Quando tiverem de explicar aos filhos como foi parar na internet uma foto sua aos 25 anos, sem nenhuma roupa, certos nativos digitais talvez se arrependam. Isso posto, não creio que uma conversa dessas vá ser muito distinta daquela que quem cresceu na década de 1960 teve de ter com os filhos sobre drogas e amor livre.

 

 

{mosimage}

Jeffrey A. Joerres (chief.executive.officer@manpower.com) é presidente da Manpower, empresa americana de prestaçao de serviços de recursos humanos.

A evolução da mídia online e de redes sociais está provocando mudanças sutis mas fundamentais no cenário da contratação – mudanças que a maioria das empresas e dos candidatos só agora começa a entender plenamente e a administrar bem. Uma delas é conduzir, em caráter informal, no mínimo uma checagem parcial da ficha da pessoa na internet antes de entrevistá-la.

 

Até agora, essa checagem só era feita depois que o candidato tivesse passado por uma bateria de entrevistas e despontasse como um dos finalistas. E, até bem pouco, quem tivesse um passado imperfeito poderia tomar distância desse passado e começar do zero em outro lugar. Hoje, uma consulta ao Google pode eliminar um candidato qualificado da disputa antes mesmo da primeira entrevista. Já deixar toda uma bagagem para trás, mesmo cruzando os limites de um país, ficou difícil, pois a comunidade online n&

atilde;o conhece fronteiras.

 

No presente caso, Fred e a diretora de RH tomaram certas providências no início do processo de contratação e descobriram certas coisas que me levariam a descartar Mimi como candidata à vaga em Xangai. Além das revelações desconcertantes na internet, Mimi é descrita por antigos chefes como cheia de opiniões e ousada. Na entrevista com Fred, pareceu descabido que piscasse para o executivo e o chamasse de "chefe" ao se despedir. Se o cargo para o qual Mimi estivesse sendo considerada fosse em uma nação ocidental, talvez não houvesse motivo para preocupação. Já a China é um lugar distinto.

 

Embora Mimi tenha fortes qualificações, sua vivência na China não é o bastante para torná-la uma boa gestora no país. A Hathaway Jones vai abrir sua primeira loja em Xangai e precisa de alguém capaz de forjar uma relação construtiva com o poder público local. Contratar um executivo sem a qualificação e a postura que tal tarefa exige poderia prejudicar a capacidade da empresa de atingir êxito naquele mercado. E, naturalmente, o fato de que a internet é popular entre a população chinesa – que sabe muito bem usar o Google – provavelmente não contribuiria para a situação de Mimi.

 

Uma operação de varejo e serviços é de natureza tão local que, para ser sincero, hesitaria em instalar um estrangeiro no cargo em Xangai. O trabalhador chinês espera modéstia e humildade de seus dirigentes, que encara como uma figura de autoridade respeitada, imbuída de certos traços de um pai. Um líder ocidental que desconheça essa expectativa enfrentará uma rotatividade alta e uma produtividade baixa. Por mais que domine o idioma, Mimi não me parece personificar com credibilidade essa figura para o pessoal chinês.

 

Esse caso mostra como é importante para um potencial trabalhador – sobretudo jovens que dedicam um belo tempo a toda sorte de atividade na internet – proteger sua reputação e pensar duas vezes sobre a persona online que apresenta ao mundo. Uma informação lançada hoje seguirá disponível por anos e pode voltar para assombrar o indivíduo. É um fato que muitos secundaristas e universitários só vão entender de verdade quando estiverem em uma entrevista de trabalho e o gerente de RH abrir uma pastinha que inclui seu currículo e, ainda, seus últimos comentários no blog e fotos de festas. Já que o conteúdo online é informação pública, é justo que o empregador o explore.

 

Sugerimos que todo candidato vasculhe a internet para descobrir qualquer coisa sobre si que possa vir à tona em uma entrevista. Com isso, pode se preparar para dar boas respostas. Deve pensar, também, em como usar a internet para revelar atributos que causariam uma impressão positiva em potenciais empregadores. É melhor inundar a internet de material que o retrate como um indivíduo capaz, dono de uma bela bagagem – um verdadeiro ativo para a nova empresa – do que divulgar detalhes de seu último fim de semana.

 

 

{mosimage}

Danah m. boyd (dmb@ischool.berkeley.edu) é candidata ao doutorado na University of California em Berkeley e consultora de grandes empresas de comunicaçao. Boyd tem um blog no endereço www.zephoria.org/thoughts/.

 

Acabo de celebrar meus dez anos de blogging. Comecei a blogar quando tinha 19 e, antes disso, postava regularmente em listas públicas de e-mail, em fóruns de discussão, na Usenet. Cresci com essa tecnologia e sou da geração que deveria estar constrangida por aquilo que postou. Mas não estou – essa informação é parte do meu passado, parte de quem sou. Quando penso em mim aos 15 anos, digo: "Mas que bobinha!" Muito dos adolescentes de hoje também vão revisitar a imaturidade dessa época e sorrir sem jeito. Com o tempo, um passado digital tolo vai virar parte do tecido cultural.

 

O jovem hoje faz o que o jovem sempre fez: tenta descobrir quem é. Ao se expor publicamente para que outros o examinem, o adolescente busca entender como a impressão que os outros têm dele condiz com a percepção que ele próprio tem de si. Ajusta seu comportamento e sua atitude com base na reação que obtém daqueles que respeita. Hoje, a gestão dessa impressão pública ocorre na internet.

 

Mais uma vez, o adulto está incomodado com o modo como uma nova geração se relaciona com artefatos culturais novos – no caso, a internet. Como em todo pânico moral em torno do jovem, o temor de possíveis danos à garotada inocente soma-se ao medo de atividades diabólicas dessa mesma garotada. Para complicar, muitos adolescentes, hoje, sofrem controles e restrições pesadas ao mesmo tempo que enfrentam excessiva pressão para vencer. A mensagem coflitante de adultos pode trazer danos emocionais.

 

O chamado comportamento problemático do adolescente pode ter origem, também, em narrativas que os grandes meios vendem a esse público, incluindo a celebridade de uma Paris Hilton, de uma Lindsay Lohan. Graças a uma série complexa de fatores sociais, o narcisismo cresce. O narcisista quer fama. Com reality shows mostrando ao adolescente que expor tudo traz sucesso, como sentir surpresa quando jovens em busca de atenção expõem tudo? Nem todo jovem quer tal atenção, mas as normas culturais mudaram e a internet virou tanto ponto de encontro de amigos como espaço para busca de atenção.

 

Qual a implicação disso tudo para a empresa do caso? Muitos jovens têm uma presença questionável na internet. Se não quiser contratar essa gente, a Hathaway Jones estará perdendo as melhores mentes de minha geração. Gente brilhante rompe limites, mas a definição de limite depende da época. Hoje, já não é a minissaia e o rock and roll, mas uma presença digital complexa.

 

É claro que sempre haverá gente capaz de passar pela adolescência e pelo início da vida adulta sem uma manchinha sequer em sua ficha. Uma empresa precisa de gente que respeite as regras, mas também precisa de gente "cr

iativa". Mimi é criativa e, para a vaga que Fred quer preencher, uma tradicionalista não serve. Fred deve ouvir o próprio instinto e contratar Mimi. Sugiro que inicie já uma discussão com a candidata para que possam, juntos, pensar em uma estratégia para enfrentar potenciais desafios trazidos pela atividade online de funcionários.

 

Creio que Fred aprenderá muito com a experiência. Minha geração não teme a opinião pública como a dele. Não fugimos dela, sabemos como enfrentá-la. Registramos digitalmente toda história de amor e todo drama adolescente imagináveis e jogamos na rede um conteúdo que crie uma persona pública matizada. Quem vê apenas parte disso terá uma visão distorcida. Por isso sugiro que Mimi comece a criar uma trilha própria no Google. Deveria expressar sua opinião atual sobre a China, mostrar como sua perspectiva foi ajustada ao longo do tempo. Viver numa sociedade em rede significa aprender a suprir de acessórios nosso ser digital – assim como aprendemos a escolher a roupa certa para ir ao trabalho.

 

 

{mosimage}

Michael Fertik (michael@reputationdefender.com) é fundador e presidente da ReputationDefender, firma da Califórnia especializada em localizar e eliminar informaçoes indesejadas na internet.

 

Como disse Fred à diretora de recursos humanos, quem buscar bem no Google vai achar podres sobre qualquer um. É a nova realidade. Empresa nenhuma quer admitir publicamente que checa a ficha de candidatos no Google, mas todo mundo faz isso. Seu currículo já não é o documento entregue à empresa – são os dez primeiros resultados de uma busca no Google. Tenho 28 anos e pertenço a uma geração que sequer sai com uma pessoa pela segunda vez sem buscar seu nome no Google.

 

Diante da disseminação da busca na internet, a Hathaway Jones terá problemas se contratar Mimi. O cargo é visado o bastante e as informações sobre a moça na internet são incômodas o bastante para tomadores de decisão na China. Logo, não há dúvida de que a informação será descoberta e propagada, ainda que esteja no nono item da lista de resultados do Google. Quando vier à tona, vai gerar ainda mais comentários na internet, e a comunidade estará atenta. Dado o clima atual, Mimi representa um risco para a Hathaway Jones.

 

Mimi não publicou o conteúdo em questão e não tem nenhum poder de retirá-lo da web. Trata-se de notícias em jornais. Nem mesmo nossa empresa, que foi criada para buscar e destruir informações indesejadas na internet, tentaria eliminar uma reportagem de jornal. Seria uma prática constitucional ruim – e, pior, em praticamente todo caso fracassaríamos. A internet adora jornais; pode levar um tempo longuíssimo para conduzir algo da primeira para a segunda página do Google.

 

Mimi deveria ter revelado a Fred a existência das reportagens logo no primeiro encontro. A moça é inteligente o bastante para saber que suas opiniões sobre a China e a globalização poderiam afetar o desempenho da empresa no país. Ao levar a informação a Fred antes do RH, teria sido capaz de exercer certo controle sobre o desdobrar do caso.

 

Mimi não precisa, contudo, passar o resto da vida chamando atenção para esse conteúdo. Pode – e deve – tomar uma série de medidas caso esteja realmente interessada em uma carreira na China. Uma opção é criar uma página da internet e nela publicar textos sobre a globalização. Outra é participar de um fórum online de discussão sobre a China e a Organização Mundial do Comércio. Ali, Mimi poderia explicar que tinha muitos interesses políticos e sociais quando mais jovem. Se sua opinião tiver amadurecido, poderia até repudiar a visão anterior e explicar, na internet, que a seu ver o mundo é mais complexo do que julgava ser quando tinha 21 anos de idade.

 

A lição a tirar dessa experiência – lição tanto para dirigentes de empresas como para quem busca um emprego – é que é preciso saber o que circula na internet sobre sua pessoa. A reputação de alguém depende não só daquilo que a pessoa revela sobre si, mas daquilo que outros dizem sobre ela. Hoje, o que os outros dizem chega a um público muito maior do que antes. Dez anos atrás, se alguém espalhasse o boato de que o leitor tinha herpes, provavelmente o rumor não iria longe. Hoje, basta que um inimigo lance algo em caráter anônimo na internet para que todo mundo fique sabendo, seja o fato verdade ou mentira. Não venha dizer que algo assim não teria um enorme impacto em sua saúde emocional e profissional. Há quem dê de ombros e diga que nossa noção de privacidade está evoluindo. E está. Mas, mesmo hoje, creio que todos têm direito a uma certa privacidade. É o grande tema na internet – e é por isso que estou nesse ramo.

 

__________________________________________

Diane Coutu (dcoutu@hbsp.harvard.edu) é editora sênior da HBR.

 

Para solicitar este reprint clique aqui

 

Share with your friends









Submit