Diretora de operações do Facebook, Sheryl Sandberg vem cuidando do complexo lado operacional da rede social desde 2008. Nos últimos tempos, assumiu outro papel, tão público quanto, mas desta vez fora da empresa: paladina da mulher que aspira a cargos de liderança. Sandberg lançou há pouco um livro — Lean In, que no Brasil recebeu o título de Faça Acontecer — que, na descrição da própria, seria “uma espécie de manifesto feminista”. Nele, a executiva convoca a mulher a tomar as rédeas da própria vida, a agir para transpor barreiras institucionais e pessoais ao sucesso. Nesta entrevista ao editor-chefe da HBR, Adi Ignatius, Sandberg explica por que o local de trabalho estaria pronto para uma revolução.

HBR: Quando declara que seu livro é “uma espécie de manifesto feminista”,
o que você quer dizer?

Sandberg: O livro é uma combinação de coisas. Tem episódios da minha vida, da minha própria experiência. Tem dados e estudos sobre questões de gênero. E traz um chamado à ação de mulher para mulher.

Você se considera uma feminista? O termo foi vilipendiado nos últimos anos.

Se tivesse me perguntado isso quando eu estava na faculdade, teria dito que não. Mas acho que precisamos recuperar o termo se seu significado for apoiar a igualdade de oportunidades para homens e mulheres.

Qual a grande ideia em Faça Acontecer?

O livro é para toda mulher interessada em saber como chegar aonde quer que queira chegar e para todo homem interessado em trabalhar para a criação de um mundo mais igual para todos. Se pudéssemos atingir um estado de verdadeira igualdade, um ponto no qual o que fazemos na vida é determinado não por nosso sexo, mas por nossos interesses, teríamos empresas mais produtivas e uma vida pessoal não só mais equilibrada, mas também mais feliz.

No livro, você fala em reacender uma revolução. Na sua cabeça, como seria isso?

A mulher está fazendo progresso em todas as frentes, exceto como líder. Começamos a responder por 50% dos diplomas universitários 30 anos atrás, mas o avanço lá no alto estancou. Na última década, por exemplo, a mulher ocupou só 14% dos cargos de diretoria e apenas 17% dos assentos do conselho em empresas americanas. Não há um número suficiente de mulheres sentadas à mesa na qual são tomadas decisões. Para mim, reacender a revolução significa levar em conta esses fatos e buscar maneiras de incentivar mais mulheres a tomar a dianteira e mais empresas a reconhecer a contribuição da mulher.

Quando a mulher não corre atrás daquilo que ambiciona, qual o custo para a sociedade?

Em uma declaração muito famosa, o [megainvestidor americano] Warren Buffett disse que uma das razões para seu sucesso é que teve de competir com apenas metade da população. Quanto mais gente entrar no páreo, mais acelerada ficará a corrida.

Teve gente que a acusou de simplesmente culpar as mulheres por não serem “melhores”, ainda que muitos dos desafios que enfrentam sejam institucionais. Qual sua resposta?

A mulher enfrenta barreiras institucionais enormes. Mas também há barreiras dentro de nós mesmas, às vezes como resultado da socialização da mulher. Durante a maior parte da minha vida profissional, ninguém nunca veio falar comigo sobre a maneira como eu mesma me sabotava. Estou tentando acrescentar algo a esse aspecto do debate. Há uma grande frase da [escritora americana] Alice Walker: “Em geral, a pessoa abre mão de seu poder quando acha que não tem nenhum poder”. Não estou culpando a mulher, estou apenas a ajudando a enxergar o poder que tem e a usá-lo.

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E essa questão de a mulher mesmo se sabotar?

Como eu digo no livro, é o que ocorre, por exemplo, quando a mulher “sai antes de sair”. Ou seja, quando desiste de subir profissionalmente porque quer ter uma família. Só que muitas vezes a mulher está tomando essa decisão com anos de antecedência, antes mesmo de ter encontrado alguém! Nessa hora, a mulher devia estar insistindo, avançando — e não recuando.

Já falamos bastante dos erros que a mulher comete. Há alguma coisa boa que o homem devia copiar de líderes do sexo feminino?

Não acredito que haja um estereótipo de liderança masculina e um estereótipo de liderança feminina. Mas creio que certas coisas que aprendemos a fazer, por sermos mulheres, podiam ser boas para todo e qualquer líder. Em geral, a mulher é boa para ouvir, para buscar o consenso. E sabe como tornar uma equipe coesa.

Qual a meta final para homens e mulheres? Ficarem mais parecidos uns com os outros ou identificar e celebrar as diferenças?

Acho que queremos entender as diferenças e celebrá-las. Mas precisamos acabar com limitações impostas por estereótipos. Não incentivamos de verdade a mulher a liderar. Ninguém chama um menino de mandão: as meninas é que são “mandonas”. Superestimamos a capacidade do menino de engatinhar e subestimamos a das meninas. Ao longo de toda a vida, a mulher recebe mensagens sobre por que não deveria liderar. E o mundo ainda não mostra muito interesse ou respeito pelo pai que fica em casa para cuidar dos filhos.

Procurei presidentes do sexo feminino para que falassem sobre a experiência de atuar em um universo que ainda é, basicamente, masculino, mas recebi de todas a mesma resposta: “Sou presidente, não um presidente do sexo feminino”. Será mesmo que não há uma diferença digna de ser explorada?

Se você me tivesse feito esta pergunta cinco anos atrás, teria dito a mesma coisa. Ninguém fala de gênero no local de trabalho, pois se alguém disser algo como “Sou mulher”, o outro provavelmente vai ouvir “Quero tratamento especial” ou “Vou processar você”. Um homem que dirige uma grande organização me disse que é mais fácil falar em público sobre sua vida sexual do que sobre as diferenças entre os sexos — que existem, sim. A forma como cada um de nós se enxerga, a visão que tem do outro. Um de meus objetivos é que se possa falar com liberdade e franqueza sobre a questão do gênero no trabalho.

E por que tanta mulher altamente qualificada deixa o mercado de trab
al
ho?

Há muitas razões para a mulher sair, da falta de flexibilidade e discriminação ao desejo de investir em outras coisas na vida. O fato de que tantas mulheres das melhores faculdades deixem o mercado de trabalho é uma das maiores causas da escassez de mulheres em postos de liderança. Se quisermos equilibrar os papéis de liderança no local de trabalho, teremos de equilibrar as responsabilidades em casa.

Atingir um equilíbrio entre trabalho e vida pessoal pode ser dificílimo. Até hoje, não vi uma mãe que trabalha fora que sinta satisfeita com o que está fazendo, quer como profissional, quer como mãe. Qual seu conselho para a mulher que se sente assim tão dividida?

Temos de ser realistas sobre nossas escolhas. Quando nos comparamos com gente no trabalho que não tem outras responsabilidades, sentimos que deixamos a desejar. E quando nos comparamos com mulheres que estão com os filhos o dia inteiro, sentimos a mesma coisa. Precisamos reconhecer que não dá para ter tudo, que é preciso fazer escolhas a cada minuto do dia. Precisamos parar de nos torturar por não sermos perfeitas em tudo.

A seu ver, por que a mulher em postos de liderança é menos “querida” do que o homem?

Os dados mostram que há uma correlação positiva entre sucesso e simpatia (“likability”) no caso do homem e negativa no caso da mulher. Ou seja, quanto mais sucesso a mulher tem, menos querida é — tanto por homens como por outras mulheres. Isso porque queremos que as pessoas se encaixem em nossos estereótipos. E quando não o fazem, gostamos menos delas. Todo mundo espera que o homem tenha características de líder, que seja assertivo e competente, que diga o que pensa. E todo mundo espera que a mulher tenha qualidades “comunais”, que se doe mais, que partilhe mais, que busque o bem comum. O problema é que queremos promover e contratar gente que seja tanto competente como querida. E é muito mais fácil para o homem ser as duas coisas.

Acho justo perguntar se a Sheryl Sandberg é um modelo realista. Você era a primeira da turma em Harvard, teve desde cedo um grande mentor como o Larry Summers, tem o apoio de um marido com um excelente trabalho e flexibilidade. Seus críticos dizem que você não entende a luta travada pela maioria das mulheres no trabalho.

Não estou dizendo que eu seja um exemplo a seguir. Sou uma pessoa muito afortunada, tive oportunidades incríveis, mentores, apoio. Mas a luta sobre a qual escrevo é a luta de toda mulher: a luta para acreditar em si mesma, para não se sentir culpada, para dormir o suficiente, para acreditar que pode ser tanto uma boa profissional como uma boa mãe.

E por que não há mais mulheres contando com o apoio de mentores e patrocinadores fortes?

Precisamos incentivar abertamente o homem a patrocinar a mulher. De tanto martelarmos para a mulher o importante que é uma relação dessas, algumas chegam a indivíduos que mal conhecem e perguntam “Você seria meu mentor?”. Mas não é assim que funciona. É preciso achar maneiras de criar um relacionamento. Para piorar, homens no alto escalão de empresas não gostam nem de ficar a sós com uma mulher, por medo do que os outros possam achar. Só que o trabalho com um mentor é individual, a sós. É preciso incentivar isso.

Com o livro, e com palestras como a do TED em 2010 sobre a questão da mulher no mercado de trabalho, você virou uma grande promotora do tema. Como isso se encaixa com seu papel no Facebook?

É tudo complementar. A missão do Facebook é permitir que as pessoas se expressem e se conectem com gente e com causas de seu interesse. Estou tremendamente empenhada em que o Facebook seja o melhor lugar possível [para alguém trabalhar]. E, desde que passei a discutir mais essa questão da mulher, nossa capacidade de atrair mulheres incríveis para a empresa, e de segurá-las, tem sido excelente.

Muita gente comentou quando você disse que sai do trabalho todo dia às 17h30 para poder estar com os filhos. Será que todo mundo não devia ir para casa às 17h30 e se desligar do trabalho?

Todo mundo devia achar um jeito de fazer aquilo que quer na vida. Não estou tentando dar uma fórmula. É difícil alguém admitir que vai embora do trabalho às 17h30, seja lá o ponto em que estiver na carreira. Mas fiz isso de propósito, para dizer às pessoas “Veja, posso ser mãe e posso ser uma profissional, e para tanto vou embora às 17h30”. Também disse que, depois de jantar com meus filhos, de dar banho e colocar os dois para dormir, volto a ligar o computador.

Você falou abertamente de já ter chorado no trabalho. Mulheres e homens deviam ter liberdade para deixar aflorar tudo quanto é emoção no trabalho?

Chorar no trabalho não é uma prática recomendada. Não estou sugerindo que, se quiser chegar ao topo, a pessoa vá sacando o lenço de papel. Mas somos humanos, e é importante abrir o leque de comportamentos considerados aceitáveis ​​no trabalho.

Na sua opinião, o modo como a mulher é retratada na TV e no cinema contribui para uma reação antifeminista?

Acho que precisamos ampliar as percepções, e não estou falando apenas da questão da imagem corporal. A mídia raramente mostra a mulher que trabalha fora e é mãe como um ser feliz, ajustado, de bem consigo mesmo. Essa mulher sempre soa atormentada. A [comediante] Tina Fey contou um episódio vivido com o ator Steve Carell, quando os dois estavam rodando o país para promover um filme. Ambos tinham séries na TV, ambos tinham filhos. A ela, todo entrevistador perguntava “Como você dá conta de tudo?”. Ninguém nunca perguntou o mesmo a ele. Todo mundo acha que o homem consegue, mas a mulher não. Meu objetivo é mudar este discurso.

A mídia também gasta muita tinta sobre o modo de vestir de mulheres executivas.

Tenho sorte de não trabalhar em um setor no qual isso importa. O Vale do Silício é demais! Vou de jeans para o trabalho quase todo dia. É um ótimo lugar para a mulher, pois o que importa é realmente aquilo que você constrói e o que faz.

Alguma parte de você questiona se há imperativos biológicos que justifiquem papéis tradicionais desse ou daquele gênero?

Bem, como diz a [feminista] Gloria Steinem, é uma questão de consciência, não de biologia. A gente evolui. O ser humano é biologicamente programado, por exemplo, para ser obeso. O corpo humano foi feito para armazenar gordura e açúcar para que pudéssemos sobreviver quando a temporada de caça acabasse. Mas podemos controlar esse impulso — e controlamos. Não creio tampouco que o desejo de liderança tenha fundo biológico. Será que realmente acreditamos que o homem seja um líder natural e a mulher, não? Acho que o desejo de liderança é, em grande medida, criado e reforçado pela cu

ltura.

No final, a impressão é que a coisa mais importante para uma mulher ambiciosa é ter um parceiro que a apoie.

É a decisão profissional mais importante que uma mulher faz: decidir se vai ter um parceiro na vida e saber se esse parceiro vai apoiar sua carreira. E por “apoio”, quero dizer acordar no meio da noite metade das vezes para ir trocar fraldas.

Imagino que os homens estejam cada vez melhores nesse quesito.

Estão melhorando muito. Mas ainda estão fazendo muito menos do que a metade na hora de cuidar dos filhos e da casa. A próxima vez que for a uma festa, veja o que acontece quando um bebê começa a chorar. Olhe para os pais e veja qual se levanta. A mulher basicamente ainda tem dois empregos, enquanto o homem tem um só.

Você acha que teve sucesso apesar de ser mulher ou porque é mulher?

É uma pergunta difícil de responder. Tive muita sorte, muita gente me patrocinou, tive um monte de mentores. Trabalhei duro. Mas o sucesso e essa coisa de ser querida foram difíceis. Quando tive minha primeira avaliação de desempenho com o [presidente do Facebook] Mark Zuckerberg, ele disse: “Você se importa demais em ser querida, isso vai te segurar”. Era algo que eu precisava superar. E, nesse caso, tinha a ver com meu sexo.

O maior desafio que você enfrenta em tudo isso talvez seja a sensação de que estamos travando a mesma batalha há décadas.

Sim. Mas acho que agora é nossa vez. Minha mãe ouviu de todo mundo que tinha duas alternativas: podia ser enfermeira ou professora. Hoje, as barreiras externas são muito menores. Se começarmos a reconhecer quais são os verdadeiros problemas, podemos resolvê-los. Não é tão difícil.

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