Saúde

A ansiedade diz respeito à saúde pública

Sandro Galea
7 de agosto de 2020

Entender e mitigar o trauma coletivo da covid-19

À medida que a pandemia da covid-19 se estende, muitos de nós passamos a sentir a pressão sobre nossa saúde mental. Alguns se sentem aflitos ante a possibilidade de ser demitido; outros precisam continuar trabalhando em supermercados e empresas de entrega ou em serviços essenciais, às vezes sem a proteção necessária para se manter seguros. Famílias tentam equilibrar os cuidados domésticos com o trabalho remoto. Todos nós estamos preocupados com a possibilidade de algum ente querido ficar doente ou de nós mesmos pegarmos o vírus. Há, ainda, a repentina instabilidade generalizada, uma vez que a pandemia vira de ponta-cabeça sistemas globais com os quais muitos nem se preocupavam. Entrementes, as medidas de distanciamento social que estamos tomando para retardar a propagação da doença implicam semanas de confinamento, o que traz consigo sua própria ansiedade.

Ao nos preocuparmos com os riscos físicos desta pandemia, é fácil ignorar a carga mental que muitos de nós sentimos. Podemos até ter a tendência de minimizar nossa ansiedade, pensando que, comparada com o que a covid-19 pode causar ao corpo, seu efeito sobre a mente é um problema menor.

Isso seria um equívoco. Saúde mental é saúde pública, e a carga mental provocada pela pandemia merece tanta atenção quanto o dano físico. Estamos vivendo, coletivamente, uma experiência traumática em larga escala. A ansiedade é parte de uma família de problemas mais amplos relacionados à saúde mental, como depressão e transtornos de estresse pós-traumático (TEPT), que muitas vezes são consequências de tais experiências. Embora ainda haja muita coisa sobre a covid-19 que precisamos aprender, existe uma enormidade de estudos que documentam a relação entre traumas coletivos em grande escala e suas consequências para a saúde mental. Guerras, ataques terroristas, desastres naturais e surtos de doenças no passado foram todos estudados e têm muito a ensinar, como os efeitos de curto e de longo prazo de catástrofes e momentos perturbadores como este para a saúde mental.

Passei minha carreira na saúde pública estudando tais acontecimentos e suas consequências para a saúde mental. Esse trabalho me ensinou sete pontos-chave que podem nos ajudar a entender e a mitigar os problemas para a saúde mental provocados por esta pandemia não só nos dias de hoje, como também nos meses e anos subsequentes.

1. Evidências indicam aumento de transtornos mentais após experiências traumáticas.
Traumas coletivos passados causam aumento de problemas de saúde mental em toda população. Depois do atentado terrorista de 11 de setembro de 2001, por exemplo, aproximadamente uma em cada dez pessoas na área de Nova York se enquadrava em todos os critérios de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) relacionados ao atentado, e certamente muitas outras sentiram aumento significativo em seus níveis de ansiedade. Após o surto da síndrome respiratória aguda grave (SARS, na sigla em inglês), em 2003, houve prevalência de angústia psicológica entre as populações em quarentena, incluindo taxas altas de depressão e TEPT. E quase metade dos moradores de Nova Orleans sofreram de ansiedade e transtornos de humor logo após a passagem do furacão Katrina. Esses dados refletem a carga emocional de tais catástrofes.

2. As evidências que surgem sobre a covid-19 são condizentes com os efeitos de acontecimentos traumáticos anteriores.
A covid-19 provavelmente não será diferente desses traumas anteriores. Já começamos a coletar dados a respeito da carga na saúde mental provocada pela pandemia. Um estudo recente, por exemplo, descobriu prevalência elevada de depressão e de ansiedade associada à constante exposição do problema nas redes sociais. Isso reflete outro fator complicador do surto: está ocorrendo na era das redes sociais. Ainda estamos aprendendo como as novas tecnologias, com seu potencial para nos conectar, mas também para manter a crise presente o tempo todo em nossas telas, interferem nos efeitos da pandemia para a saúde mental.

3. As crises econômicas agravam os problemas de saúde mental.
Receitas financeiras e saúde são duas realidades intimamente relacionadas à quantidade de dinheiro que temos, e são um dos melhores indicadores de quão sadios conseguimos ser. Por conseguinte, quando a economia sofre, também sofre a saúde pública. Por exemplo, em estudo de que participei como coautor sobre as condições econômicas e as taxas de suicídio no estado de Nova York, descobrimos que quando as atividades econômicas estavam no auge, os índices previstos de suicídio eram mais baixos do que quando atingiam seu ponto mais baixo. A Grande Recessão, por sua vez, estava relacionada com a redução da autoavaliação do estado de saúde, incluindo ansiedade e esgotamento psicológico. Dadas as consequências econômicas que já vimos surgir desta pandemia — queda nas bolsas de valores, pagamento de indenizações e milhões de pessoas à procura do seguro desemprego e seu potencial para provocar problemas ainda mais graves ao longo do caminho, incluindo outra recessão —, faríamos bem em nos preparar para despesas com problemas relacionados à saúde mental.

4. Situações que provocam estresse socioeconômico de maneira contínua contribuem para aumentar o desenvolvimento de problemas de saúde mental.
Acontecimentos traumáticos não se desenrolam sozinhos, nem seus efeitos na saúde mental. Eles ocorrem em determinado contexto socioeconômico, que interfere na duração e na intensidade de suas consequências. Vimos isso após a passagem do furacão Katrina. O acontecimento em si causou preocupação com a saúde mental das pessoas, mas as adversidades socioeconômicas decorrentes tiveram esse efeito para os que perderam casa e emprego. Todos esses fatores desempenharam um papel importante na definição dos riscos da ocorrência de TEPT que iam muito além do problema climático em si, particularmente para os mais vulneráveis às mudanças repentinas nas condições socioeconômicas.

Embora nem sempre seja possível prever desastres, intervenções da saúde pública podem determinar suas condições. Resultados ruins em relação à saúde, tanto física quanto mental, são consequências de condições subjacentes que os funcionários de saúde pública registram e tentam mitigar. Para reduzir os danos provocados por perigos já conhecidos — furacões ou vírus, por exemplo —, é preciso construir estruturas que promovam resultados melhores para a saúde pública, incluindo a provisão de moradias seguras, igualdade de oportunidades, salários dignos, ar puro, água potável etc. São esses os pilares para a criação de um mundo saudável.

5. Saúde mental e saúde física são indissociáveis.
Embora, muitas vezes, as tratemos como categorias separadas, a saúde física e a saúde mental estão intimamente ligadas. Saúde física ruim pode significar saúde mental ruim, e vice-versa. Um estudo sobre os sintomas de TEPT e de diabete de tipo 2 na população feminina, do qual participei, mostrou que mulheres com os maiores números de sintomas de TEPT corriam quase duas vezes mais risco de desenvolver a doença do que as que não vivenciaram situação traumática. E a relação entre depressão, trauma e uso de substâncias é bem documentada — existe, por exemplo, uma relação entre trauma na infância, TEPT, e problemas com o uso de substância. O transtorno de ansiedade generalizada também está associado a inúmeras consequências prejudiciais para a saúde. Essas conexões mostram que dar apoio à saúde mental nesta época de covid-19 significa reconhecer que problemas físicos subjacentes, como doenças crônicas, podem contribuir para o surgimento de problemas de saúde mental, como ansiedade e TEPT.

6. As consequências para a saúde mental podem ser de longa duração — até mesmo eternas.
Esta pandemia não durará para sempre. Em algum momento, a covid-19 chegará ao fim — uma vacina será desenvolvida e distribuída. Porém, ainda que jamais desapareça, nós testemunharemos o término desta crise aguda. E vale lembrar que os efeitos de um acontecimento traumático para a saúde mental podem durar muitos anos, até a vida toda. Estudo de psicopatologia realizado no condado de Nimba, na Libéria, após o término dos conflitos e quase 20 anos depois da primeira batalha na região, descobriu que os padrões geográficos da TEPT eram condizentes com os locais onde os combates travados tantos anos antes. Exemplos como este mostram a importância de ter estruturas preparadas para cuidar dos futuros efeitos desta pandemia na saúde mental das pessoas, tanto a curto quanto a longo prazo — de ansiedade típica a TEPT.

7. Podemos mitigar algumas dessas consequências.
O mais importante: como sabemos, até certo ponto, o que vamos enfrentar, não temos de esperar para começar a lidar com questões de saúde mental. É possível adotar agora medidas para mitigar a ansiedade, a depressão e a TEPT: assegurar que profissionais de saúde mental estejam amplamente disponíveis por meio de telemedicina e linhas diretas; na medida do possível, usar registros de informações online para identificar as pessoas que correm maior risco e lhes enviar material e recursos referentes à saúde mental — da mesma forma que, hoje em dia, recebemos anúncios personalizados; no ambiente virtual, o aprendizado de máquina pode ser inestimável para melhorar a saúde mental. Infelizmente o que hoje se vê amiúde nas redes sociais é a exacerbação dos problemas dessa natureza, e consequentemente ansiedade ainda maior.

Além da importância dos serviços de saúde e da tecnologia, é fundamental desenvolver uma rede de apoio que possa nos ajudar a passar por este período desafiador. Podemos ajudar os outros em seus problemas de saúde mental encontrando formas de contatar amigos, familiares, vizinhos e pessoas potencialmente vulneráveis à covid-19 ou que estão sentindo mais agudamente a solidão que acompanha o distanciamento social que estamos enfrentando.

As empresas também podem desempenhar seu papel de apoio oferecendo ajuda aos empregados que estão enfrentando as mesmas dificuldades. Primeiro, falando com eles sobre saúde mental, mostrando que os sintomas relacionados são previstos e esperados durante calamidades como esta e de-
pois. Podem disponibilizar recursos para que seus empregados falem sobre ansiedade e tristeza e possíveis consequências em suas atividades diárias (veja “Quando a ansiedade se torna insustentável”). E ainda assegurar que haja profissionais de saúde mental a quem seus funcionários possam recorrer caso estejam enfrentando problemas dessa natureza.

Por fim, toda sociedade fundada no apoio e construída na compaixão durante momentos desafiadores é forte — uma sociedade em que a saúde, tanto física e mental, pode prosperar.


Sandro Galea é professor e diretor da Faculdade de Saúde Pública da Boston University School. Seu mais recente livro é Pained: uncomfortable conversations about the public’s health.

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