Gestão de talentos

Como a crise do coronavírus está redesenhando o trabalho

Ravin Jesuthasan, Tracey Malcolm e Susan Cantrell
27 de julho de 2020

O surto da Covid-19 forçou as organizações ao que talvez seja a mais relevante experiência social do futuro do trabalho ativo, com a política do trabalho de casa e do distanciamento social alterando radicalmente a maneira como trabalhamos e interagimos. Mas o impacto no trabalho é muito mais profundo do que somente mudar o local de trabalho, pois está mudando, também, como e qual trabalho as pessoas estão realizando.

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Muitos trabalhadores estão realizando tarefas que jamais pensaram realizar até algumas semanas atrás – às vezes, de formas que nunca imaginaram. Funcionários de empresas de vestuário como a Brooks Brothers e a New Balance estão produzindo máscaras e aventais cirúrgicos, enquanto a Tesla, Ford, e General Motors transformaram suas instalações para produzir respiradores a partir de peças de carros, depois que as fábricas automobilísticas paralisaram por conta da queda na demanda do consumo.

Com empregos sendo o ponto central para a efetivação do trabalho, os líderes têm uma oportunidade sem precedentes de se reinventar ao reorganizar o trabalho e fazer com que funcionários assumam responsabilidades diferentes para responderem melhor às necessidades que possam surgir das suas organizações, clientes e funcionários. Propomos três maneiras de como realocar as funções, o talento e as habilidades, para onde e quando são mais necessárias, criando, assim, a resiliência organizacional e agilidade essenciais para transitar por tempos de incerteza e voltar com força quando a economia se recuperar.

1. Torne o trabalho móvel para toda a organização.

Devido à atual situação com a Covid-19, tornou-se mais importante do que nunca reposicionar as pessoas para a maior missão-crítica do trabalho, da forma mais ágil e eficiente possível. Como parte da resposta à crise do coronavírus, por exemplo, o Bank of America está temporariamente trocando as funções de mais de 3 mil funcionários em todo o banco para atender à enxurrada de ligações de consumidores e clientes de pequenas empresas.

Ao se libertar das restrições rígidas do emprego, o talento certo e o trabalho podem ser combinados para solucionar – em tempo real – os crescentes desafios comerciais. Redes de equipes capacitadas para trabalhar fora das estruturas organizacionais, hierárquica e burocrática existentes, formam um recurso importante para reagir de forma rápida em tempos de crise.

Muitas organizações, tais como a Allianz Global Investors e a Cisco, já instalaram centros comerciais que dividem o trabalho em tarefas e projetos que podem ser destinados a pessoas de qualquer parte da organização que tenham as qualificações necessárias e disponibilidade. Esses centros comerciais permitem que as pessoas que se virem privadas do seu emprego normal encontrem trabalhos diferentes e façam uso de suas habilidades principais ou secundárias, onde a sua contribuição fará a diferença. 

Ao utilizar esses centros comerciais, as organizações podem rapidamente cobrir o espaço deixado por um funcionário doente, adicionar membros aos projetos principais e lidar com a paralisação repentina de contratações. Um gerente de recrutamento e seleção, frente a uma paralisação, recentemente dividiu um posto novo em cinco experiências de meio período entre os funcionários já existentes, podendo assim, conceder novas oportunidades de aprendizado e crescimento ao mesmo tempo que os capacita para atingir as metas da empresa.

Desmembrar as funções em tarefas também facilita a verificação de quais delas podem ser realizadas por funcionários em trabalho remoto ou em qualquer outra localização geográfica. Os líderes podem acoplar tarefas adjacentes que possibilitam o trabalho remoto a novos cargos e transferir as tarefas que exigem trabalho local para outras poucas funções a fim de limitar a quantidade de trabalho que precisa ser executado no escritório ou in-loco.

2. Agilize a automação

Para certos tipos de trabalho, a automação aumenta a confiabilidade, aprimora a segurança e o bem-estar e lida com picos repentinos de demanda. Na verdade, a automação não acaba com os empregos no ambiente econômico atual, uma vez que está se tornando uma capacidade obrigatória para gerenciar crises.

Muitas concessionárias de serviços públicos expandiram o uso de software de automação nas últimas semanas para permitir aos trabalhadores operar, monitorar e controlar os sistemas de forma remota, reduzindo o risco de exposição ao vírus e possibilitando às concessionárias operar sem qualquer problema ou intercorrência.

Para lidar com o crescente volume de ligações, outras empresas aumentaram o uso da automação em call centers. A automação pode acelerar o tempo de resposta e livrar os operadores das tarefas de transação para que eles possam se concentrar em atender com a inteligência empática e emocional de que, mais do que nunca, os clientes precisam nos dias atuais.

3. Compartilhe os funcionários nas trocas de talentos entre os setores.

Como líderes, devemos nos perguntar: de que forma podemos tirar proveito de um ecossistema de talentos mais amplo para desenvolver a resiliência não só nas organizações, mas também nas pessoas durante tempos de crise? Uma resposta inovadora seria desenvolver uma troca de talentos entre os vários setores,  deslocando, temporariamente, funcionários que estão sem trabalho por conta da crise (por exemplo, empresas aéreas e serviços de hospitalidade) para aquelas organizações que têm trabalho em excesso (por exemplo, o setor da saúde, de logística e alguns varejistas). Essa prática evita os custos da fricção e da reputação associados às demissões, ao mesmo tempo que dá suporte aos trabalhadores para o desenvolvimento de novas habilidades e redes de contatos.

Por exemplo, os supermercados Kroger estão, em caráter temporário, empregando por trinta dias funcionários dispensados da Sysco Corporation, empresa de varejo distribuidora de alimentos para restaurantes, fortemente afetada pela crise do coronavírus.

Na China, alguns meses atrás, as empresas também foram criativas ao compartilhar os funcionários, transferindo aqueles que estavam sem trabalho em estabelecimentos como restaurantes, emprestando-os para terceiros que tiveram um aumento na demanda, como a Hema, cadeia varejista de suprimentos da Alibaba, conhecida por sua rápida entrega de alimentos. Mais de três mil funcionários novos de mais de 40 empresas de diferentes setores participaram do plano de compartilhamento de funcionários da Hema.

Sob essa modalidade, as empresas que aceitam os funcionários e definem quais são as habilidades que elas procuram.  Elas trabalham em conjunto com a empresa que compartilha seus funcionários para definir a duração dessa troca, bem como as implicações relacionadas ao pagamento, benefícios e seguro.

Embora a pandemia da covid-19 seja uma época difícil, pode ser também uma oportunidade sem precedentes para a criatividade. Recriar os empregos em face dos ambientes de trabalho desafiadores e restritivos de hoje pode acelerar o futuro do trabalho e abrir caminhos novos e inovadores na forma como, onde e por quem o trabalho é realizado. No final das contas, isso poderá ajudar a desenvolver maior resiliência e eficácia nas nossas empresas, bem como ajudar as pessoas a terem uma vida mais saudável e mais sustentável.


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Ravin Jesuthasan é diretor executivo da Willis Towers Watson. Jesuthasan é membro do Comitê de Direção do Trabalho e Emprego e foi reconhecido como um entre os 25 consultores mais influenciadores do mundo. Junto com John Boudreau, Jesuthasan é coautor do livro novo “Reinventing jobs: a 4 step approach for applying automation to work” e vários artigos sobre trabalho, automação e capital humano. 


Tracey Malcolm é líder mundial do futuro do trabalho da Willis Towers Watson.  Malcolm é autora de vários artigos sobre trabalho e automação.


Susan Cantrell é consultora sênior da Willis Towers Watson. Juntamente com David Y. Smith, é coautora do livro “Workforce of one: revolutionizing talent management through customization” (Harvard Business Press, 2010) e de vários artigos sobre trabalho, talento e organização.

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