Economia e sociedade

Como entender o choque do coronavírus na economia

Philipp Carlsson-Szlezak, Martin Reeves e Paul Swartz
6 de abril de 2020

Enquanto o coronavírus continua sua marcha ao redor do mundo, governos têm lançado mão de medidas comprovadas de saúde pública, como, por exemplo, o distanciamento social para, fisicamente, impedir o contágio. No entanto, ao assim fazer, interrompeu o fluxo de mercadorias e pessoas, paralisou a economia e está prestes a provocar uma recessão global. O contágio econômico está se espalhando tão rapidamente quanto a doença em si.

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Isso não parecia plausível  algumas semanas atrás. Conforme o vírus começou a se espalhar, políticos, legisladores e mercados, baseados em informação de surtos epidêmicos históricos, ficaram de espectadores enquanto a pequena janela (neste momento, mais efetiva e menos custosa) para o distanciamento social se fechava. Agora que a trajetória da doença já se encontra avançada, o custo econômico é muito maior e prever o que virá a seguir é praticamente impossível, já que diversas dimensões desta crise não têm precedentes e são desconhecidas.

Neste território inexplorado, dizer que é uma recessão global acrescenta muito pouca clareza que não seja atribuir expectativas de crescimento negativo. Questões prementes incluem o caminho do choque e da recuperação, se as economias conseguirão retornar aos níveis de produção e crescimento anteriores ao choque, e se haverá algum legado estrutural deixado pela crise do coronavírus.

Perspectivas ruins, visibilidade limitada

A janela de tempo para o distanciamento social — a única medida conhecida que traz algum impacto positivo contra a proliferação da doença — é pequena. Na província de Hubei, perdeu-se esta janela de tempo, mas o restante da China fez questão de aproveitá-la. Na Itália ela também foi perdida, e o resto da Europa também não a aproveitou. Os EUA, limitados pela quantidade insuficiente de testes, também perderam sua janela inicial de tempo. Conforme a doença se espalha, medidas de distanciamento social mais severas e de maior duração terão de ser implementadas para se alcançar os mesmos resultados, o que sufocará a atividade econômica durante este processo.

Uma nova onda de contágio é uma possiblidade real, o que significa que, mesmo os países que reagiram rapidamente, encontram-se em risco toda vez que colocam sua economia de volta em funcionamento. De fato, vimos o vírus ressurgir em Cingapura e Hong Kong. Neste sentido, só a história dirá se suas repostas rápidas e contundentes valeram a pena.

Atualmente, as perspectivas econômicas para os países que reagiram tarde parecem péssimas e pegaram desprevenidos os políticos, legisladores e mercados financeiros. O que aconteceu nas últimas quatro semanas não fazia parte do “risco calculado’’. Previsões não ajudam neste caso. Por exemplo, o consenso era que as estimativas para pedidos de seguro-desemprego nos EUA fossem de 1,6 milhão na semana de 23 de março, mas os números chegaram a 3,28 milhões — quantidade sem precedentes históricos, cerca de cinco vezes superior ao da pior semana da crise financeira mundial. Notoriamente céticas, mesmo nos tempos de bonança, as projeções e estimativas parecem extremamente duvidosas neste momento já que existem muitas variáveis desconhecidas:

  • As propriedades do vírus não são totalmente conhecidas e podem mudar.
  • O papel dos pacientes assintomáticos ainda é completamente desconhecido.
  • As taxas reais de contágio e imunidade são consequentemente desconhecidas, principalmente em locais onde os testes são limitados.
  • As políticas públicas instauradas são desiguais, muitas vezes atrasadas e incorrerão em erros.
  • As reações das empresas e domicílios são incertas.

Talvez a única certeza seja a de que qualquer tentativa para uma previsão definitiva falhará. No entanto, acreditamos que examinar alguns cenários ainda acrescente valor neste ambiente de visibilidade limitada.

O formato do choque

O conceito de recessão é binário e contundente. Tudo o que indica é que as expectativas de crescimento mudaram de positivas para negativas, pelo menos para os próximos dois trimestres.

Acreditamos que a pergunta sobre o cenário geral gira em torno do formato do choque — que denominamos “geometria do choque’’ — e de seu legado estrutural. O que impulsiona o caminho do impacto econômico de um choque e onde a Covid-19 se encaixa?

Para ilustrar, pense em como um mesmo choque — a crise financeira global — provocou recessão com progressão e recuperação muito diferentes em três países de nossa amostra:

  • Perfil em “V”. Em 2008, o Canadá impediu uma crise bancária: o crédito continuou a fluir e a formação de capital não foi interrompida de forma tão significativa. Evitar um colapso mais profundo ajudou a manter o emprego nos trilhos e impediu a atrofia de habilidades. O PIB caiu, mas retomou substancialmente sua trajetória pré-crise. Essa tendência é típica de um clássico impacto em “V”, onde a produção se desloca, mas o crescimento acaba retornando ao seu percurso anterior.
  • Perfil em “U”. Os Estados Unidos tomaram um rumo notadamente distinto. O crescimento caiu vertiginosamente e nunca voltou ao seu percurso pré-crise. Observe que a taxa de crescimento se recuperou (as curvas são as mesmas), mas a diferença entre o caminho antigo e o novo permanece grande, representando uma perda econômica isolada no lado da oferta, e a produção perdida indefinidamente. Isso foi causado por uma profunda crise bancária que abalou a intermediação de crédito. Conforme a recessão se arrastava, causava mais danos à oferta de emprego e à produtividade. Os EUA em 2008 representam um clássico perfil em “U”: uma versão muito mais dispendiosa do perfil em “V” canadense.
  • Perfil em “L”. A Grécia é o terceiro exemplo e, de longe, o pior perfil – o país não apenas nunca mais recuperou sua trajetória anterior de produção, mas sua taxa de crescimento também diminuiu. A distância entre o percurso antigo e o novo está aumentando, com a perda produção aumentando de forma contínua. Isso significa que a crise causou danos estruturais econômicos duradouros no lado da oferta. Entrada de capital, insumos de trabalho e produtividade sofrem danos repetidamente. A Grécia pode ser vista como um exemplo do perfil em “L”, de longe o perfil mais pernicioso.

Então, o que determina a “geometria do impacto”, como discutimos acima? O principal determinante é a capacidade do impacto de danificar o lado da oferta de uma economia e, mais especificamente, a formação de capital. Quando a intermediação de crédito é abalada e o estoque de capital não aumenta, a recuperação é lenta, os trabalhadores perdem seus postos, as habilidades são perdidas e a produtividade diminui. O impacto se torna estrutural.

Os impactos em “V”, “U” e “L” podem ocorrer em diferentes intensidades. Um perfil em “V” pode ser raso ou profundo. Um perfil em “U” pode acompanhar uma queda brusca para um novo caminho de crescimento ou para um menor.

Onde o impacto do coronavírus se encaixa até o momento? A intensidade desse impacto será determinada pelas propriedades subjacentes do vírus, pelas políticas públicas adotadas e pelo comportamento de consumidores e empresas diante da adversidade. Mas o perfil do impacto é determinado pela capacidade do vírus de danificar o lado da oferta nas economias, particularmente a formação de capital. Neste momento, tanto um perfil em “V” acentuado quanto um em “U” são plausíveis. A batalha que temos pela frente é impedir uma clara trajetória em “U”.

Entenda os mecanismos de dano

Pensando nas geometrias acima, duas perguntas sobre o impacto da Covid-19 devem ser feitas:

  • Qual é o mecanismo de dano do lado da oferta?
  • Qual é a resposta em termos de formulação de políticas públicas para se evitar esse dano?

Tradicionalmente, as crises financeiras prejudicam o lado da oferta da economia. Há um longo histórico desse tipo de crise, e os formuladores de políticas públicas aprenderam muito sobre como enfrentá-la. Mas o coronavírus estende os problemas de liquidez e de capital à economia real – e em uma escala sem precedentes. Como se já não bastasse a ameaça dupla dos impactos financeiros e de liquidez real, esses dois elementos também estão inter-relacionados, aumentando os riscos.

Examinemos mais detalhadamente os dois percursos em que a Covid-19 pode causar danos estruturais em um cenário de perfil em “U”:

  • Riscos ao sistema financeiro. O impacto sem precedentes da Covid-19 já gerou estresse no mercado de capitais, provocando uma forte reação dos bancos centrais. Se os problemas de liquidez persistirem e os problemas da economia real levarem à redução do valor dos ativos, podem surgir problemas de capital. Mesmo que, da perspectiva das políticas públicas, nós possamos conhecer as soluções, os resgates e a recapitalização dos bancos são politicamente controversos. No caso de uma crise financeira, a formação de capital sofreria um grande golpe, provocando uma queda prolongada, prejudicando o emprego e a produtividade.
  • “Congelamento” estendido da economia real. A possibilidade verdadeiramente inédita. Meses de distanciamento social poderão abalar a formação de capital e, em última análise, a participação do emprego e o aumento da produtividade. Diferentemente das crises financeiras, um congelamento prolongado dessa magnitude e prejudicando o lado da oferta representaria um território inédito para os formuladores de políticas públicas.

Os riscos ao sistema financeiro e à economia real estão inter-relacionados de duas maneiras: a primeira, uma prolongada crise da Covid-19 poderia aumentar o número de falências na economia real, o que traria ainda mais dificuldades de gerenciamento para o sistema financeiro. Ao mesmo tempo, uma crise financeira estrangularia a disponibilidade de crédito para a economia real.

Não é um exagero afirmar que o perfil de risco da crise da Covid-19 é particularmente ameaçador. Embora exista um manual de políticas públicas para o enfrentamento de crises financeiras, não existe um equivalente para um congelamento da economia real em grande escala. Não há cura pronta para problemas de liquidez de economias reais inteiras.

Inovação advinda do impacto

É importante reconhecer que nenhum dos cenários de impacto descritos acima será inevitável, linear ou uniforme em todos os países. As diferentes nações terão experiências consideravelmente distintas por dois motivos: a resiliência estrutural das economias para absorver esses impactos – chamemos de destino – e a capacidade de médicos pesquisadores e formuladores de políticas públicas em reagir de novas maneiras a um desafio sem precedentes – chamemos de inovação. Poderão as nações elaborar novas intervenções, a uma velocidade inaudita, capazes de romper com o espinhoso e pouco atraente dilema entre a perda de vidas e a criação de miséria econômica?

No campo médico: Obviamente, uma vacina reduziria a necessidade do distanciamento social e, assim, reduziria o estrangulamento das políticas públicas na economia global. Mas um desfecho deve demorar a chegar e, portanto, o foco poderá recair na inovação incremental dentro dos limites das soluções existentes.

Exemplos dessa inovação podem ser encontrados em todo o espectro médico: no lado terapêutico, os tratamentos existentes podem se mostrar eficazes no combate à doença. Algumas dezenas de tratamentos existentes estão sendo avaliadas no momento. No outro extremo do espectro, necessitaremos da inovação organizacional para liberar a capacidade produtiva necessária para satisfazer à demanda por recursos, como a mobilização ideal de profissionais da área médica, o reaproveitamento de espaços para tratamento e mudanças na triagem médica para priorizar a crise da Covid-19.

No campo econômico: Nos EUA, os políticos aprovaram um pacote de estímulo de US$ 2 trilhões para amenizar o golpe da crise do coronavírus. No entanto, a inovação das políticas públicas também será necessária. Por exemplo, os bancos centrais operam as chamadas “janelas de desconto” que oferecem financiamento ilimitado de curto prazo a fim de garantir que problemas de liquidez não quebrem o sistema bancário. O que precisamos imediatamente é uma “janela de desconto para a economia real” que também possa proporcionar liquidez ilimitada para domicílios e empresas estabelecidas.

Do ponto de vista das políticas públicas, surge um cenário com muitas ideias extremamente válidas. Entre elas estão os “empréstimos-ponte”, que consistem em empréstimos sem juros a famílias e empresas durante a crise e um período generoso de liquidação da dívida; uma moratória dos pagamentos de imóveis financiados para tomadores residenciais e comerciais; ou a utilização de reguladores bancários para que os bancos possam conceder financiamento e reformular os termos dos empréstimos existentes. Políticas públicas inovadoras podem ter uma repercussão positiva na redução do impacto do vírus no lado da oferta das economias. No entanto, a execução também precisa ser ágil e eficiente.

Acreditamos que existe a chance de a inovação impedir um perfil em “U” generalizado, mantendo a trajetória do impacto mais próxima de um perfil em “V” acentuado do que seria possível de outra forma. Mas a batalha ainda não acabou e, sem a inovação, as chances não são favoráveis a um cenário com perfil em “V”, menos prejudicial.


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Philipp Carlsson-Szlezak é sócio e diretor administrativo do escritório do BCG em Nova York e economista-chefe do BCG. 


Martin Reeves é sócio sênior e diretor administrativo do escritório do BCG em São Francisco e presidente do Instituto BCG Henderson, o think tank do BCG para gerenciamento e estratégia.


Paul Swartz é diretor e economista sênior do BCG Henderson Institute, cuja sede fica no escritório do BCG em Nova York.

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