Liderança

Como liderar em um mundo repleto de ansiedade

Morra Aarons-Mele
7 de agosto de 2020

Você e sua equipe podem ser bem-sucedidos em meio ao estresse e à incerteza.

A CEO de uma startup em rápido crescimento está sentada no escritório que acaba de alugar. É hora do rush, mas as ruas estão em silêncio, assim como os 600 cubículos vazios no andar de escritórios. Ontem, sua equipe tomou a decisão importante, porém difícil, de enviar todos os funcionários para trabalhar em casa por tempo indeterminado. Em meia hora, ela vai fazer uma videoconferência para tranquilizá-los. Mas está desanimada, ansiosa e assustada.

Cenas como essa vêm ocorrendo em todo o mundo nos últimos meses, à medida que os casos de covid-19 aumentam e as economias se fecham. Fundadores, executivos, gestores e funcionários perceberam como tudo o que construíram se tornou frágil quase da noite para o dia. Certa noite, em março, meu marido me disse: “Estou com muito medo, mas não posso deixar que as pessoas que dependem de mim percebam”. Fez ligações por Zoom durante horas, tentando convencer sua equipe e colegas de que superariam a crise. Precisava mostrar-se calmo, mas estava aterrorizado.

Como é possível liderar com autoridade e determinação quando se está ansioso? Como inspirar e motivar as pessoas quando sua mente e seu coração estão acelerados? E se você esconde o medo para manter a aparência de líder, que fazer com esse sentimento?

A ansiedade, é claro, tem um propósito. Ela nos protege do mal. O psicólogo Rollo May escreveu em 1977: “Já não somos vítimas de tigres e mastodontes, mas da baixa autoestima, do ostracismo do grupo ou da ameaça de perder a luta competitiva. A forma da ansiedade mudou, mas a experiência permanece mais ou menos a mesma”. Em outras palavras, mesmo que nós, os seres humanos, já não sejamos perseguidos por predadores, somos perseguidos pela incerteza da saúde de nossos entes queridos, da permanência no emprego por mais uma semana ou mais um ano, da falência da empresa – preocupações que provocam as mesmas respostas neurológicas e físicas.

De acordo com a Anxiety and Depression Association of America, “o estresse é uma resposta a uma ameaça em determinada situação. A ansiedade é uma reação ao estresse”. É o medo do que pode acontecer no futuro. Às vezes esse medo é racional e às vezes não. E às vezes é por algo que acontecerá em três minutos (subir ao palco para fazer uma apresentação) ou em 30 anos (ter dinheiro suficiente para a aposentadoria).

Nos Estados Unidos, ansiedade é o transtorno mental mais comum e afeta mais de 40 milhões de adultos por ano. Dados do National Institute of Mental Health indicam que cerca de 30% dos americanos sofrem de ansiedade em algum momento da vida. De acordo com estimativas globais do Institute for Health Metrics and Evaluation, até 2017, 284 milhões de pessoas tiveram ansiedade, o que faz dela o transtorno mental prevalente no mundo. E dados recentes do Mind Share Partners, SAP e Qualtrics indicam que ele é muito difundido no local de trabalho: quase 37% dos entrevistados relataram sintomas de ansiedade no ano passado. Esses números deverão aumentar depois da pandemia.

A boa notícia para aqueles que, há muito tempo, controlam a ansiedade, é que eles foram preparados para este momento. Os dados mostram que pessoas ansiosas processam ameaças de forma diferente, usando regiões do cérebro responsáveis pela ação. Reagimos rapidamente diante do perigo. Também podemos nos sentir mais à vontade com sentimentos desconfortáveis. Quando bem canalizada, a ansiedade pode nos motivar a tornar nossas equipes engenhosas, produtivas e criativas. Pode quebrar barreiras e criar novos vínculos.

Portanto, a ansiedade não é inútil. Nas crises econômicas, a ansiedade que não nos deixa dormir pode nos ajudar a encontrar uma solução para manter a empresa aberta. Mas, sem controle, a ansiedade nos distrai, destrói nossa energia e nos leva a tomar más decisões. A ansiedade é uma inimiga poderosa, por isso devemos fazer dela uma aliada.

Você pode ser um líder eficaz mesmo que tenha recebido diagnóstico de transtorno de ansiedade ou esteja sentindo pela primeira vez essa emoção intensa. Mas vou ser franca: se, em algum momento, você não encarar sua ansiedade, ela vai derrubá-lo. Não é fácil, mas isso mudará sua vida para melhor e aumentará sua capacidade de liderar.

Então vamos começar hoje, neste momento de intensa ansiedade. A primeira etapa é aprender a identificá-la: como ela se manifesta e que sensações provoca. A segunda é tomar medidas para administrá-la no dia a dia e em momentos particularmente difíceis. A terceira, tomar decisões inteligentes e exercer a liderança em tempos de ansiedade. Finalmente, a quarta: construir uma infraestrutura de apoio para ajudá-lo a administrar sua ansiedade de forma duradoura.

COMO RECONHECER E ACEITAR SUAS EMOÇÕES
Uma atitude comum dos líderes é seguir em frente apesar do estresse, da fadiga e do medo. Mas isso significa ser bem-sucedido apesar das emoções, quando é muito melhor prosperar por causa das emoções. Você precisa aprender a aceitar sua ansiedade — mesmo que isso pareça desconfortável ou contraintuitivo.

ROTULE SEUS SENTIMENTOS
A premiada psicóloga Angela Neal-Barnett, especialista em ansiedade de pessoas negras e autora de Soothe your nerves (Acalme seus nervos, em tradução livre), acredita firmemente na honestidade das pessoas consigo mesmas. Ao dar nome aos sentimentos — ou a dizer internamente estou ansioso —, você pode começar a tratá-los. E aprender que a ansiedade influencia o seu comportamento e suas decisões e pode aumentar de forma repentina — o que o deixa preparado para administrá-la.

Ninguém precisa ouvi-lo dizer isso. É só para você. Aproveite o tempo para mergulhar em seus pensamentos. Permita-se sentir o desconforto do medo e da ansiedade. Imagine os piores cenários. Entregue sua imaginação aos pensamentos catastróficos. Chore. Sofra. Mas não fuja. Como disse Alice Boyes, ex-psicóloga clínica e autora de The anxiety toolkit (O kit de ferramentas da ansiedade, em tradução livre): quanto mais você tenta controlar sua ansiedade, mais ela reage.

Décadas de pesquisas sobre inteligência emocional mostraram que os indivíduos que entendem os próprios sentimentos têm mais satisfação profissional, melhor desempenho e bons relacionamentos; são inovadores; capazes de sintetizar opiniões diversas e atenuar conflitos. Tudo isso os torna excelentes líderes.

Se “ansiedade” não parece ser a palavra certa, rotule-a como quiser. Chame-a de “desconforto” ou “incerteza temporária” ou dê um nome bobo. Penso na minha própria ansiedade como um personagem que viaja comigo. Não tem nome nem rosto, mas eu sei quando está presente. Jerry Colonna, coach de liderança e CEO da Reboot, diz que a melhor maneira de lidar com sentimentos desconfortáveis é acolhê-los. “Imagine que seus pensamentos e emoções são como trens entrando numa estação e saindo”, ele aconselha. Observe sem apego a chegada e a partida. Diga: “Olá, ansiedade. Até mais, medo”. Essa técnica o ajudará a distanciar-se dos sentimentos negativos.

Às vezes pode ser impossível livrar-se da ansiedade, o que parece frustrante. Rebecca Harley, psicóloga do Massachusetts General Hospital e da Harvard Medical School, enfatiza: “O objetivo não é aperfeiçoar as coisas por mágica. É aprender a surfar a contento nas ondas da angústia. Dê crédito a si mesmo, ainda que a situação pareça ruim”.

FAÇA O PAPEL DE DETETIVE
Depois de rotular sua ansiedade, tente descobrir quando e por que ela aparece. Harley me ajudou a aprender isso. Quando se sentir ansioso, observe as reações físicas — o que ela chama de “sistema de alerta inicial” — indicativas de que a ansiedade está dominando você.

Seus gatilhos podem ser pequenos. Você vai notar uma reviravolta no estômago e uma faísca de pavor ao ver em sua caixa de entrada o nome de determinada pessoa. Ou podem ser maiores. Quando os números de desemprego disparam, você talvez se sinta enjoado e incapaz de se concentrar, apesar de ainda estar empregado.

Toda vez que uma interação ou situação desencadear a reação, examine o motivo. Você pode hesitar em se aprofundar nas questões da sua infância, mas as “questões mal resolvidas” de seu passado, como diz Colonna, são muito presentes e relevantes em sua maneira de liderar. Ele observa que pode ser um alívio entender como suas velhas feridas influenciam seu comportamento atual. Quando percebi que minha preocupação quase constante de ir à falência tinha mais a ver com minha infância do que com minha situação financeira naquele momento, consegui administrar meu dinheiro de forma proativa, depois de anos em que evitava essa atitude e acumulava dívidas. Quebrei um padrão prejudicial.

Também é bom entender como você reage diante de um gatilho. Chamo isso de “indicadores” de ansiedades. A assistente social e terapeuta Carolyn Glass sugere que você se pergunte: “Como eu respondi à ansiedade naquele momento? Aquelas atitudes foram úteis ou não? Alimentaram ou aliviaram minha ansiedade?”. Glass diz que anotar os próprios medos ajuda a examiná-los. Manter um diário de ansiedade — quando isso acontece, o que a desencadeia e como você reagiu — é uma ótima maneira de desenvolver a autoconsciência. Seus indicadores nem sempre serão de comportamentos negativos; por exemplo, muitos de nós nos conectamos mais com amigos e familiares durante momentos estressantes. Quando estou muito ansiosa, cozinho e congelo as refeições!

Muitos líderes bem-sucedidos reagem à ansiedade com trabalho duro, estabelecendo para si e para os outros um padrão incrivelmente alto, ou tentando controlar coisas que estão além de seu poder. Para eles, é difícil não se envolver com todos os projetos e detalhes de sua vida profissional, não assumir a responsabilidade por tudo e dar tudo de si. “As pessoas respondem à ansiedade tentando ser mais perfeitas e controladas”, afirma Boyes. “Elas não têm apenas um plano B, mas um plano C, D e E.” Em muitas sociedades essas atitudes são recompensadas. Consideramos isso uma “boa ética de trabalho”, mas muitas vezes o perfeccionismo e o excesso de trabalho causam mais ansiedade — em você e nos outros.

Imagine um CEO aterrorizado pelas notícias econômicas em torno da covid-19. Ele ataca o problema da forma que funcionou para ele no passado: fazendo projeções detalhadas sobre todos os aspectos do negócio. Ele se enterra em gráficos e ao mesmo tempo acompanha as notícias sobre a crise. Alguns da equipe podem se perguntar o que ele está fazendo ou se sentir perturbados por seu pânico visível, embora não expresso. Os gráficos que ele cria são precisos? Quem sabe! Mas o mergulho profundo no planejamento do pior cenário dá a ele a ilusão de controle.

Seus indicadores podem ser também físicos. A ansiedade se manifesta na forma de aperto no peito, respiração superficial, mandíbulas cerradas, ombros tensos, sintomas gastrointestinais, irrupções de pele, alterações no apetite e flutuações radicais de energia. Quando recentemente tive um ataque de pânico, por exemplo, fiquei convencida de que era insuficiência cardíaca — embora já tivesse tido ataques de pânico antes.

Para ajudar a identificar as maneiras pelas quais a ansiedade pode afetar você fisicamente, faça este exercício de duas partes:

Primeiro, sente-se em uma cadeira. Coloque os pés no chão e as mãos no colo. Mantenha o queixo neutro. Observe qual parte do corpo você sente de imediato. Depois, com os olhos fechados, verifique:

  • cabeça
  • mandíbula
  • pescoço
  • ombros
  • pulsos e antebraços
  • peito
  • coluna torácica
  • coluna lombar
  • estômago
  • quadris
  • ísquios e traseiro
  • panturrilhas, tornozelos e pés

Observe quais destes estão tensos e, para obter alívio, respire nas áreas de tensão ou de dor.

Preste atenção ao que está acontecendo com o seu corpo em diferentes momentos do dia de trabalho, quando ocorrem fatos específicos, ou quando você toma certas decisões:

  • Como é que você se sente às 9 horas, ao meio-dia, às 3 e às 6 da tarde?
  • Seu corpo muda ao longo do dia?
  • Quando você fica estressado, determinada parte do seu corpo reage?
  • Com que frequência você bebe, usa medicamentos, relaxante muscular ou analgésico durante a semana?
  • Seu corpo se sente diferente após o exercício?
  • Seus ombros estão mais leves?
  • Como seu corpo se sente no fim de semana ou quando você faz algo de que gosta?

DISTINGA O PROVÁVEL DO POSSÍVEL
Depois de entender seus gatilhos e indicadores, comece a desenvolver um novo relacionamento com sua ansiedade.

Lembre-se, algum nível de ansiedade é racional e útil. Em crises econômicas, faz sentido o líder ficar ansioso. Ele talvez tenha de demitir pessoas. A empresa pode fracassar. Mas você consegue perceber que está preso a um ciclo de pensamentos negativos que o impede de avançar; você começa a ficar obcecado. Boyes ressalta que alguns líderes ficam paralisados de tão focados no pior cenário e sobrecarregados de possibilidades assustadoras.

Então, como evitar a paralisia? Nesse ponto, relembro o conselho de Colonna: “Diferencie o que é possível do que é provável. É possível que todos que eu amo morram em uma pandemia e que eu perca tudo o que quero bem. Mas não é provável que tudo o que amamos e queremos bem desapareça”. Tente distinguir seus piores medos do que provavelmente acontecerá. Isso o ajudará a se acalmar e a dar espaço para seguir em frente. Então, quando um pensamento catastrófico lhe vier à cabeça, como “meu companheiro e eu vamos perder o emprego” ou “definitivamente vou
ficar doente”, lembre-se de que você é um narrador não confiável quando está ansioso. Entre em contato com uma pessoa em quem você confia e peça-lhe que diga o que é provável e o que não é.

No início de março, quando o mercado de ações caiu pela primeira vez e o medo da covid-19 aumentou, um dos meus maiores clientes suspendeu os serviços da minha pequena empresa. Eu logo me convenci de que ela estava condenada, que levaria apenas alguns meses para que tivéssemos de fechá-la. “Nós jamais sobreviveremos”, eu dizia. Foi então que consultei minha sócia — narradora mais confiável do que eu —, e ela sugeriu que reajustássemos nossa previsão, o que fizemos. Agora, estamos projetando que perderemos metade de nossa receita do ano. Isso é provável e perturbador, mas é muito diferente de fechar as portas por completo.

Focar o que é provável requer flexibilidade — o futuro não será o que você imaginava, e isso dói. Quando minha filha em idade pré-escolar quer continuar seu desenho, mas é hora do jantar, digo a ela: “Por favor, seja flexível. Você vai poder desenhar mais tarde, prometo”. Agora, estou tentando fazer o que ensinei aos meus filhos há anos: lidar com a frustração das coisas que não são do jeito que eu esperava ou gostaria. Essas decepções são reais e, às vezes, as mudanças são pesadas. Reconheça a tristeza e a raiva que sente (pelo menos para si mesmo) e faça ajustes, identificando os aspectos de sua maneira de pensar que dão certo e mantendo o foco no que é provável.

ATITUDES PARA GERIR SUA ANSIEDADE
Depois de seguir essas etapas, comece a administrar sua ansiedade diariamente para crescer como líder e ser mais produtivo e capaz.
As táticas a seguir podem fornecer os fundamentos de que você precisa.

CONTROLE O QUE FOR POSSÍVEL
Muitas tradições religiosas nos ensinam a aceitar o que não podemos controlar, sem preocupação ou pânico. Mas, no meio de um surto de ansiedade no trabalho, você não terá tempo de filosofar. Então, eis o que fazer quando as coisas parecem sair dos trilhos.

Estruture seu tempo. As pesquisas mostram, de forma consistente, que quanto maior for a “disposição para administrar o tempo”, mais positivo será o impacto na saúde mental. E ela é especialmente importante quando se é dominado pela ansiedade.

De manhã, antes de mais nada, crie uma lista de tarefas e um cronograma detalhado para o seu dia. Gosto de fazer isso enquanto tomo café. Adicione intervalos de 30 minutos para especificar quando tomar banho, almoçar, fazer uma ligação telefônica ou o relatório que precisa ser concluído. É o que muitos especialistas chamam de timeboxing (compartimentalização do tempo, em tradução livre). Enquanto faz isso, tente evitar o que a terapia cognitivo-comportamental chama de “distorções cognitivas”. São os pensamentos catastróficos, autojulgamentos e ideias extremadas que geralmente acompanham a ansiedade.

Cuidado para não detalhar demais o agendamento ou superestimar sua produtividade; em vez disso, concentre-se no trabalho fundamental e reserve tempo para cuidar de si mesmo.

Faça ações pequenas e significativas. Durante as primeiras semanas de isolamento do coronavírus, o tráfego diminuiu drasticamente onde eu moro. O departamento de obras públicas aproveitou esse período para repintar todas as faixas de pedestres. Durante uma semana, as estradas foram bloqueadas parcialmente enquanto eram pintadas. Não havia problema, porque a nossa cidade, geralmente movimentada, estava calma. E cada vez que eu diminuía a velocidade ao passar por uma das equipes, sorria pensando: esta é a ação pequena e significativa desse pessoal.

Quando você se sente ansioso, uma tarefa imediata pode se tornar avassaladora. Veja o caso da análise do fluxo de caixa da empresa. Quando você abre o software de contabilidade, sua mente pode ir para um lugar escuro e, de repente, os números do mês formam uma espiral em que a empresa afunda e você perde sua casa. Para quebrar essa espiral de pensamento, faça uma ação pequena e significativa. Se a execução de uma projeção de fluxo de caixa o aterroriza, organize alguns recibos ou limpe algumas pastas de arquivos até o pânico desaparecer.

Em geral, concentre-se no curto prazo sempre que puder. Talvez você não consiga dizer aos seus funcionários o que vai acontecer no próximo ano — ou mesmo em três meses. Você não pode prometer que tudo ficará bem. Mas pode ajudar seu pessoal a se sentir seguro durante a semana. Concentre-se nisso e lide com as grandes questões quando se sentir mais calmo ou quando puder obter informações de colegas de confiança. Às vezes é preciso se desligar do futuro por algum tempo para administrar o presente.

DESENVOLVA TÉCNICAS PARA SITUAÇÕES QUE VOCÊ NÃO CONTROLA
Obviamente, nem sempre é possível se desligar do futuro. E se seu conselho de administração precisar das projeções de fluxo de caixa em 30 minutos e você estiver em espiral descendente? Aqui você precisa de ferramentas que o ajudem a se acalmar rapidamente e fazer o seu trabalho.

Encontre uma técnica de mindfulness que alivie sua ansiedade aguda. O neurologista Victor Frankl disse: “Entre o estímulo e a resposta, há um espaço. Nesse espaço está o poder de escolher a resposta. Em nossa resposta reside o crescimento da nossa liberdade”. Isso é mindfulness em poucas palavras. Mesmo se você estiver ansioso e com o tempo apertado, poderá ocupar o espaço intermediário.

Existem várias maneiras de fazer isso; a chave é descobrir o que é mais eficaz para você. Uma opção é concentrar-se na respiração. A respiração ventral é uma técnica clássica. Outros preferem o chamado “método 4-7-8”. Qualquer um é simples de memorizar e discreto o suficiente para ser feito em sua mesa. Quando se diminui a respiração de modo deliberado, isso envia uma mensagem ao cérebro para a pessoa se acalmar, e o cérebro envia essa mensagem ao corpo para que muitos dos sintomas físicos da ansiedade — como aumento da pressão arterial e da frequência cardíaca — diminuam.

É possível também mudar o foco da atenção. Glass diz que a técnica é “ótima para quem não quer meditar, mas fica ansioso de forma exagerada e não consegue se concentrar em mais nada”. Concentre-se primeiro em sua ansiedade e depois, aos poucos, foque a atenção em algo tangível, algo que você segura na mão, como um livro. Ao se concentrar em um objeto no momento presente, você diminui o volume da sua preocupação até que ela se torne um ruído de fundo.

Se estou cheia de energia, ansiosa e incapaz de ficar quieta, ou se exercícios de respiração silenciosa não funcionam, gosto de escutar minha música favorita e dançar por cinco minutos. Algumas pessoas gostam de cantar. Teste o que funciona para você e guarde a tática no bolso para quando precisar.

Compartimentalize ou adie suas preocupações. Às vezes, falo em voz alta com minha ansiedade: “Desculpe, vou lidar com você depois que terminar o trabalho”. Anote a preocupação e guarde-a para um horário específico —
talvez mais tarde no mesmo dia ou na sua próxima sessão com o terapeuta.

Em tempos de crise, talvez você descubra que coisas que o preocupavam no passado ficaram no segundo plano. O que acontece no momento se faz urgente. Para impedir que sua ansiedade entre sorrateiramente no primeiro plano, diga: “Fique onde está. Sou eu quem resolve as coisas, e preciso concluir esta tarefa”.

Faça conexão. Conectar-se com amigos e familiares pode quebrar o ciclo negativo dos pensamentos que geralmente acompanha a ansiedade. Em vez de se concentrar em si mesmo, você volta sua atenção para o exterior. Perguntei à minha amiga e colega Cheryl Contee, CEO e cofundadora da agência digital Do Big Things, como conseguia continuar motivada durante a crise. Ela respondeu que estava tentando “ser uma boa vizinha”, hábito que aprendeu com seu avô, William G. Contee, homenageado com o nome de um parque em Baltimore. “Ser bom vizinho é surpreendentemente simples — é apenas uma conexão humana. Você cumprimenta seus vizinhos? Já perguntou como eles estão ou se precisam de alguma coisa?”

Contee se conecta digitalmente com as pessoas de sua área, que se apoiam e contribuem para as causas que julgam importantes. Na empresa, ela e seus colegas estão começando a conversar sobre seus sentimentos e familiares, especialmente se estão conseguindo equilibrar os deveres domésticos com o trabalho. “Somos todos veteranos do conhecimento virtual, mas ter filhos por perto e ser responsável por sua educação é um novo desafio que estamos enfrentando juntos”, disse ela.

Em sua própria vida, pense em fazer algo rápido e generoso. Você pode perguntar a um ex-colega se ele está bem por mensagem de texto. Ou a um membro da família como você pode ser útil. Quando estou ansiosa, às vezes vou ao LinkedIn e dou like aos artigos escritos por meus colegas, ou elogio e recomendo o trabalho deles. Isso me faz esquecer as preocupações e me concentrar em coisas positivas.

Por fim, se a ansiedade persistir e tornar seus dias difíceis, consulte um terapeuta ou profissional de saúde mental. Conversar com alguém treinado a ajudar as pessoas a administrar a ansiedade fornece mecanismos adicionais para lidar com sintomas debilitantes.

LIMITE O IMPACTO DA ANSIEDADE NA LIDERANÇA
Depois de ter uma noção melhor de como você experimenta a ansiedade e como pode administrá-la no dia a dia, é hora de examinar como isso afeta suas habilidades de liderança e gestão.

TOME BOAS DECISÕES
A ansiedade prejudica nosso julgamento. Isso pode nos levar a priorizar coisas erradas, distorcer os fatos ou tirar conclusões precipitadas. O ideal seria adiar decisões críticas até estarmos em um estado de espírito melhor, mas isso nem sempre é possível.

Em momentos de ansiedade, é importante ser proativo para fazer boas escolhas. Da mesma forma que você faz ao separar o possível do provável, comece reconhecendo que suas emoções podem torná-lo um narrador não confiável e que você provavelmente estará propenso a mergulhar em pensamentos negativos. Digamos que você esteja se preparando para um discurso e se lembra de que, na última vez que falou a um grupo de tamanho semelhante, se sentiu atacado. Talvez você até acredite que é um péssimo orador porque uma apresentação sua no ensino médio provocou risadinhas. Pergunte a si mesmo: você está sendo objetivo? Se não tiver certeza, verifique se sua memória está correta, talvez pedindo feedback a um colega que estava na sala.

Claro, você precisa perguntar às pessoas certas. Boyes sugere que você encontre um consultor de confiança dotado de estilo decisório diferente do seu. Se você é impulsivo, consulte alguém metódico e conservador, por exemplo.

Por fim, todo líder deve desenvolver uma equipe de colegas sinceros, que dizem a verdade sem reservas. Você mesmo pode agir com essa franqueza com as pessoas. E oferecer clareza e discernimento, mesmo sendo um narrador não confiável de sua própria experiência.

PRÁTICA DA COMUNICAÇÃO SAUDÁVEL
Um dos aspectos mais perigosos da ansiedade é que ela é contagiosa, e são os líderes que definem o ambiente. Daniel Goleman, o renomado psicólogo e autor de Inteligência emocional, chama isso de “wifi neural”, pelo qual os humanos percebem os sentimentos tácitos dos outros.

Se você não admite que está ansioso, mas esbanja irritabilidade ou distração, não está ajudando sua equipe. Mas como ser honesto com seu pessoal sem lhes causar medo? Que grau de emoção é apropriado para expressar?

Por fim, o quanto você revela é uma decisão pessoal.

Como empresária e apresentadora de um podcast sobre ansiedade e saúde mental, sou um livro aberto. Mas sei que a maioria dos líderes não compartilha seus demônios. Poucos se sentem à vontade para iniciar uma reunião de equipe com um “Uau, como estou ansioso hoje”. Mas os líderes conscientes sabem quando é apropriado mostrar-se vulnerável. E eis a questão: sua equipe precisa que você seja transparente e honesto em relação à sua ansiedade e saúde mental, especialmente quando o futuro da empresa e seu meio de subsistência lhe são incertos.

Amelia Ransom, diretora sênior de engajamento e diversidade da Avalara, diz que prefere que seus líderes admitam quando não estão bem, porque isso valida sua experiência. “Se alguém que eu respeito e em quem confio admite não estar bem, isso me faz sentir uma pessoa normal. Penso: ‘obrigada por ser humano’, e quero estar perto dessa pessoa”. Ransom relata um momento poderoso quando um executivo sênior de sua empresa reuniu a equipe em uma videoconferência e disse: “Não posso lhes dizer ‘vocês entenderam’. O que posso fazer é abrir espaço para que estejamos juntos agora, para conversar e descobrir algumas coisas juntos”.

Admitir “estou ansioso hoje” ou “não dormi bem” faz todos na sala respirarem aliviados (“Ufa, não é minha culpa que ele esteja tão tenso.”). E lembre-se, você não precisa compartilhar detalhes; apenas compartilhe seu estado no momento.

A psicóloga social Amy Cuddy nos diz que precisamos de líderes que demonstrem calor e força. “Hoje a maioria dos líderes enfatiza a força, competência e experiência no local de trabalho, mas essa abordagem está errada”, ela escreve. “Líderes que projetam força antes de transmitir confiança correm o risco de despertar o medo e, junto com ele, uma série de atos disfuncionais.” Nada cria mais confiança do que a conexão emocional promovida pela empatia e pela humanidade compartilhada. É por isso que se abrir sobre sua ansiedade pode ser tão eficaz. Perguntar aos colegas “como vai?” gera confiança, e eles não acham que precisam mentir ou fazer cara de feliz, porque sabem que você também sente a tensão.

Isso não significa, é claro, que você deva cair em lágrimas durante uma videoconferência ou perder o controle de forma visível. Seus funcionários talvez queiram saber que você está monitorando de perto o fluxo de caixa para garantir que as contas sejam pagas, mas não precisam saber que sua ansiedade tem raízes profundas nos problemas financeiros de seus pais durante a infância. É possível modelar o cuidado pela saúde mental sem fazer as pessoas perderem a confiança em sua competência.

Imagine que você entrou em uma espiral de ansiedade ao ler as notícias sobre a covid-19, mas precisa liderar uma reunião da equipe em dez minutos. Inicie a reunião dizendo: “É evidente que as notícias estão ficando mais perturbadoras a cada minuto, mas que tal deixarmos isso de lado na próxima meia hora?”. Ou mostre-se vulnerável dizendo que está trabalhando para conter seus pensamentos assustadores, dando a si mesmo o que Glass chama de “momento da preocupação”, quando você se permite manifestar suas maiores preocupações antes de guardá-las novamente e seguir em frente.

Se você deseja incentivar as pessoas a compartilhar, mas não quer que a conversa entre em um festival de ansiedades, faça o exercício vermelho-amarelo-verde. Os membros da equipe indicam cada um, com uma das três cores, como está seu humor naquele dia, e podem ampliar o motivo se desejarem. Isso permite que as pessoas compartilhem, caso se sintam à vontade, e fornece informações úteis sobre as emoções do grupo. Você pode ajustar seu estilo de comunicação e mensagens a esta situação.

E lembre-se: embora pensar positivo seja importante para evitar o contágio emocional, você não quer dar falsas esperanças a ninguém. Se fizerem perguntas difíceis como “meu trabalho está seguro?” ou “a empresa estará aberta em seis meses?”, não é sua função adivinhar o futuro. Ninguém tem bola de cristal e, portanto, diga o que sabe no momento e afirme a importância de trabalhar em conjunto e se concentrar no que cada um pode controlar.

CONSTRUA UM SISTEMA DE APOIO
O passo final para superar a ansiedade é garantir que você tenha apoio constante. Isso significa não só cercar-se das pessoas certas, mas também desenvolver rotinas que o ajudem a lidar com crises de ansiedade e estabeleçam as bases para manter a saúde mental.

PLANO DE AGENDAMENTO, ESTRUTURA E CENÁRIO
Quando você está ansioso, precisa planejar de forma deliberada os seus dias, como discuti anteriormente. Os métodos são simples: fazer listas, estabelecer prioridades e dividir o trabalho em partes gerenciáveis. Divida as tarefas que o deixam muito ansioso em partes suportáveis. Aprendi o truque com minha psiquiatra Carol Birnbaum.

Além disso, use a investigação que você fez sobre seus gatilhos e prepare-se para situações que você sabe que lhe causarão ansiedade. Se falar em público o estressa, arranje tempo suficiente para ensaiar as apresentações. Se tem medo de avião, faça um ensaio mental da viagem de negócios que inclua não só “vou fazer as malas”, mas também “vou pedir um táxi e telefonar ao meu amigo a caminho do aeroporto” e “quando chegar, vou comprar chocolate porque isso me deixa feliz”. E, finalmente, uma vez no avião: “Vou tomar um Xanax, fazer uma meditação calmante e sobreviver”.

Fico ansiosa quando trabalho longe de casa e não recebo notícias da babá ou do marido. Fico preocupada que algo ruim tenha acontecido e me distraio do que deveria estar fazendo. Para combater isso, peço ao meu marido ou à babá que me atualizem de três em três horas. Dessa forma, não os incomodo caso estejam dirigindo e as crianças estejam no carro, por exemplo. E saber que eles me manterão atualizada me permite mergulhar no trabalho.

SAIBA QUEM É A SUA “EQUIPE DE SEGURANÇA”
Como você deseja poupar seus funcionários dos detalhes conturbados de sua ansiedade, você precisa de um lugar para essas emoções. Certifique-se de ter uma “equipe de segurança” composta de pessoas a quem possa confessar pensamentos assustadores. Pode ser terapeuta, coach, mentor, cônjuge ou companheiro e amigos. Ou um grupo reservado de colegas líderes, online ou off-line, que se comprometam a compartilhar em segredo e a abrir espaço para as emoções difíceis dos outros.

CUIDE BEM DE SI MESMO
Não preciso me estender neste ponto. Cada um sabe o que implica cuidar de si: sono, exercício, hobbies, massagem, isolamento ocasional ou a companhia de pessoas queridas. A questão é levar isso a sério, como se o seu médico lhe tivesse passado uma prescrição. Não é algo frívolo nem opcional para você como líder. E aspectos que o fazem sentir-se à vontade em compartilhar são benéficos para a sua equipe: quando você dá o exemplo de boas práticas, outras pessoas se sentem autorizadas a cuidar de si mesmas. Isso pode ser tão simples quanto informá-las de que você não leva o telefone para a cama, que reserva uma hora por dia para se exercitar ou que não está o tempo todo ouvindo notícias nem usando o Twitter.

Montar uma infraestrutura de apoio para gerenciar sua ansiedade o ajudará a enfrentar contratempos e períodos difíceis. É uma estratégia para o sucesso duradouro e para a sustentabilidade como líder. Isso significa que você terá dias de trabalho melhores quando o statu quo predomina ou durante as transições e tempos difíceis.

No fundo, a ansiedade faz parte do trabalho do líder. Geri-la o fará mais forte, empático e eficaz. Mas talvez seja um caminho acidentado. Então lembre-se de tratar a si mesmo com compaixão. Reconheça que está fazendo o melhor possível, que suas emoções são normais e que o mais saudável que você pode fazer é permitir-se experimentá-las.

Muitos de nós pensam que é tabu falar sobre saúde mental no trabalho. Conheço muitos líderes que não se sentem à vontade para entrar em uma reunião da equipe e dizer: “estou ansioso hoje”.

Por que não? E por que não agora? Não são tempos normais, e reconhecer uma emoção universal pode ajudar as pessoas a entender que seu sentimento é legítimo.

Precisamos desesperadamente de melhores modelos de liderança, em especial quando a sociedade nos diz que ansiedade e depressão são fraquezas. Os dados confirmam isso: um relatório de 2019 da Mind Share Partners revelou que 86% dos candidatos a emprego nos EUA achavam que era importante a cultura corporativa apoiar a saúde mental, mas apenas 37% dos funcionários viam seus líderes nas empresas como defensores do bem-estar psíquico no ambiente profissional.

Este momento de crise — em que aqueles com histórico de ansiedade podem estar sofrendo intensamente, e outros experimentando essa condição pela primeira vez — é uma oportunidade para mudar essa percepção.

Você pode desempenhar um papel ao contar uma história diferente.

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