Empreendedorismo

É possível ensinar empreendedorismo em sala de aula?

Ashish K. Bhatia e Natalia Levina
17 de novembro de 2020

No início de abril, um aluno tailandês da nossa turma de empreendedorismo notou uma escassez de álcool em gel de baixo custo por toda a Tailândia. Para apoiar o auxílio emergencial devido à Covid e gerar receita, ele rapidamente mudou a produção de suprimentos médicos da empresa da família para a produção de álcool em gel. Mais próximo de casa, quando a Dollaride – empresa incubada pela Future Labs da NYU – constatou que a pandemia havia eliminado a demanda pelo seu negócio – vans compartilhadas que fazem trajetos em Nova York – ela reformulou seu modelo de negócio para utilizar as vans existentes, a tecnologia e as rotas, para suportar a crescente demanda por entregas de encomendas.

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Nenhum empreendedor seguiu a típica proposta de uma escola de negócios ao decidir fazer seu negócio girar: não fizeram uma longa análise de mercado, não desenvolveram um plano de negócios, tampouco avaliaram abordagens alternativas. Na verdade, se tivessem feito essas análises, teriam chegado à conclusão de que os ganhos em curto prazo não justificariam o gasto com adaptações, ou ficariam travados ao tentar estimar a duração da pandemia ou a rapidez com a qual a produção global deve retomar. Em vez disso, eles simplesmente tomaram atitudes com base nos recursos de que dispunham.

Essa atitude para com o empreendedorismo chama-se “effectuation”, ou seja, tirar proveito daquilo que sabemos, de quem conhecemos e de quem somos para, então, agir. Em geral, as escolas de negócios não ensinam essa abordagem, uma vez que tendem a focar mais nos cálculos de risco e retorno em longo prazo. No entanto, à medida que enfrentamos um futuro cada vez mais incerto e complexo, as escolas precisam adotar novas filosofias destinadas a moldar líderes ágeis e empreendedores.

As escolas de negócios sabem ensinar empreendedorismo?

Enquanto modernos programas de MBA oferecem uma série de cursos de empreendedorismo – desde cursos formais a concorrências entre startups e incubadoras -, existe um alto nível de ceticismo acerca da ideia de que o empreendedorismo pode ser ensinado numa sala de aula. Inúmeros empreendedores de sucesso jamais frequentaram uma escola de negócios – e muitos não têm formação superior. Além disso, desenvolver uma predileção pela imaginação, ruptura e uma atitude contraditória exigida para um empreendedorismo eficaz, em geral, não se encaixa na grade curricular de uma típica escola de negócios, definida por modelos analíticos abstratos e cálculos precisos.

Entretanto, muitas escolas acham que ainda há espaço no mundo do empreendedorismo para a educação formal, e tomaram medidas para atualizar suas contribuições a fim de atenderem às necessidades dos alunos de atualmente. Em um estudo recente, analisamos três renomados programas de MBA na América do Norte para entendermos melhor como estão lidando com esse desafio. Em um setor onde os programas tendem a imitar uns aos outros, descobrimos que esses programas quebraram o molde e desenvolveram suas próprias filosofias para ensinar empreendedorismo.

A primeira abordagem que observamos concentrava-se em incutir o valor da experiência real de uma “sala de operações” montada num cenário de sala de aula. A Rotman School of Management da University of Toronto converteu a aula de empreendedorismo em uma sala de operações semelhante à da faculdade de Medicina, onde os alunos se sentam num grande auditório e assistem a um professor fazer uma cirurgia, não em um corpo humano, mas numa startup. No Creative Destruction Lab da Rotman, um painel composto de empreendedores se junta aos professores , atiçando e cutucando as startups, ajudando os alunos a absorver a ideia de que as habilidades do empreendedorismo somente podem ser desenvolvidas por meio da experiência. Outras escolas de negócios adotaram programas similares – como o Endless Frontier Labs da Stern da NYU, que compartilha o foco no aprendizado através da experiência.

A segunda abordagem que observamos concentrava-se em reprogramar os alunos para a ação, em vez de cair na paralisação da análise. Todos nós temos uma voz em nossa mente, que diz “E se der errado?” ou “Como gerencio o risco?” Imagine o poder de uma educação que ajude a calar essa voz e, ao contrário, disser “E se der certo?” A Darden School of Business da The University of Virginia é o local de origem do empreendedorismo “efectual”, uma abordagem que convida os alunos a reconhecerem seus recursos existentes para o empreendedorismo e a aceitarem um certo número de riscos. Essa mentalidade é antiética para uma abordagem mais convencional de uma escola de negócios que enfatiza minimizar os riscos. Além disso, enquanto o mundo dos negócios é em geral reconhecido por sua natureza degoladora e fortemente competitiva, o programa da Darden incute nos alunos o prazer pelo poder da inovação colaborativa ao incentivá-los a, abertamente, compartilhar ideias com seus colegas e tirar proveito dos vários insights e perspectivas para cocriar aventuras empreendedoras.

O último programa que observamos adotou uma abordagem mais tradicional. Nossa pesquisa sugere que a Wharton School, da University of Pennsylvania, ainda enfatiza os tipos de abordagens para a otimização de recursos e riscos, que são mais características das escolas de negócios do resto do mundo. Essa abordagem é fundamentada na ideia de que as escolas de negócios deveriam ensinar empreendedorismo de forma similar à maneira como ensinam outras matérias – dando aos alunos modelos analíticos e ferramentas provenientes de pesquisas acadêmicas já publicadas sobre a abertura de uma nova empresa. Enquanto essa filosofia possa ser útil para startups mais maduras, ou para ajudar os fundadores a evitar as armadilhas comuns de uma startup – como escolher errado o cofundador, concordar com os más cláusulas financeiras, ou decidir sobre produtos medíocres – é pouco útil para os empreendedores lidar com tamanha incerteza.

Ensine os alunos de MBA a abraçar o futuro desconhecido

A pandemia atual ilustra a importância de preparar os empreendedores para enfrentar um mundo cada vez mais complexo e incerto. Precisamos ensinar esses futuros líderes a ver a incerteza de um futuro desconhecido, não como um problema a ser solucionado, mas como uma realidade a ser aceita.

Afinal de contas, em um futuro desconhecido, todos os líderes precisarão ser empreendedores: visionários que conseguem imaginar, adaptar-se e agir rapidamente para lidar com qualquer tipo de desafio que possa surgir. As escolas de negócios não podem demorar a adotar as novas filosofias de ensino que empoderam a próxima geração de empreendedores e líderes para enfrentarem esses desafios.


Ashish K. Bhatia é professor adjunto de Gestão e Empreendedorismo e Diretor Acadêmico da Escola de Negócios dos programas de negócios, tecnologia e empreendedorismo da NYU Stern School of Business. 


Natalia Levina é Professora de Ciências da Informação da Toyota Motors Corporation, da Stern School of Business da NYU e diretora do Fubon Center for Technology, Business and Innovation. 

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