Economia e sociedade

Não devemos esperar grandes avanços contra a pandemia da COVID-19

Gary P. Pisano
2 de setembro de 2020

Nos filmes de catástrofes, geralmente há um momento decisivo em que o herói transforma o desespero em triunfo com um ato extraordinário. Enquanto nós, americanos, assistimos ao nosso próprio filme do desastre da vida real chamado “COVID-19”, também procuramos uma suposta solução milagrosa que nos permita voltar à normalidade. Uma infinidade de especialistas nos alertam que as coisas não vão voltar ao normal até termos uma vacina ou remédio totalmente eficaz, e nos desesperamos quando nenhuma dessas opções parece próxima. Em vez de um milagre da medicina, somos informados de que devemos esperar por longos processos de teste e rastreamento antes que possamos suavizar as restrições draconianas sobre nossa vida econômica e social.

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A abordagem “tudo ou nada” para a resolução de problemas cria um ótimo espetáculo. No entanto, não se assemelha à forma como os grandes problemas reais são resolvidos na sociedade, nos negócios ou na ciência. Os grandes problemas são, em geral, resolvidos por meio de uma série de pequenas soluções, cada uma das quais pode não parecer de particular importância individualmente, mas que juntas podem ter um enorme impacto.

Embora a postura dos EUA em termos de políticas institucionais em relação à COVID-19 deva continuar a ser o apoio às grandes iniciativas e inovações, como o desenvolvimento de vacinas e medicamentos e o aumento da capacidade de monitoramento e teste, não devemos ignorar o potencial impacto cumulativo das várias pequenas coisas que já sabemos fazer ou que poderíamos tentar para que, juntas, essas soluções possam diminuir o estrago da crise atual. A maioria são coisas que já somos orientados a fazer (como o tedioso processo de lavar as mãos). Cada ação provavelmente faz apenas uma pequena diferença. Porém, quando reunidas em um programa abrangente com uma implementação mais rigorosa, elas podem fazer uma diferença grande o suficiente para que nossa economia e sociedade retomem suas atividades mais rapidamente. Convencer a maioria dos cidadãos, empresas e órgãos governamentais a adotar essas ações é o maior desafio dos líderes dos setores público e privado.

E se realizássemos grandes melhorias à higiene em espaços públicos – principalmente nos transportes públicos, áreas comerciais e banheiros – por meio de uma limpeza sistemática e vigorosa? A prefeitura de Nova York acaba de anunciar que limpará os vagões do metrô, trens e ônibus todas as noites em vez de a cada 72 horas. E se isso fosse feito a cada oito ou até quatro horas? E se ir ao trabalho com algum sintoma de doença não fosse mais sinal de dedicação, mas um comportamento digno de reprovação? E se escritórios e escolas encontrassem maneiras criativas de reduzir a proximidade física dos funcionários por meio de turnos escalonados e regime de home office, o que também deixaria o transporte público menos sobrecarregado? E se usar máscara em público se tornasse uma norma social? E se aumentássemos nossa capacidade de testes semana após semana? E se mais pessoas estivessem dispostas a usar aplicativos para identificar “pontos críticos” (mesmo que a identificação não seja perfeita)?

Não quero insinuar que essas sejam as únicas medidas que poderíamos adotar, nem que esse conjunto específico de ações por si só seja o correto. Especialistas em saúde pública provavelmente podem identificar uma dezena de outras pequenas medidas capazes de reduzir as taxas de contaminação. O que quero dizer é que, para conseguirmos reverter de forma significativa a crise da COVID-19, precisamos pensar em um grande conjunto de “pequenas” medidas, e não apenas em um pequeno conjunto de “grandes” soluções.

Os avanços na medicina também são frequentemente apresentados como proposições “tudo ou nada”. Mas aqui também a realidade é mais complexa. Grandes melhorias nos resultados dos cuidados médicos geralmente decorrem de diversas melhorias graduais. Uma vacina não precisa ser 100% eficaz para deter o avanço de uma doença. (Não podemos esquecer que a vacina contra a gripe, em geral, reduz os riscos entre 40% e 60%, e não, 100%.) Isso também vale para os medicamentos. É difícil pensar em um remédio que seja 100% eficaz para todos os pacientes. Muitos proporcionam apenas melhorias marginais de pequena escala aos pacientes. Entretanto, se uma doença é predominante o suficiente, essas pequenas melhorias se traduzem em muitas vidas salvas. Precisamos ter em mente que muitas melhorias nos resultados clínicos não têm a ver com tecnologia ou medicamentos; elas são decorrência de melhores práticas na gestão de pacientes. Descobrir quando é o melhor momento para entubar um paciente ou colocá-lo de bruços ou de costas não chegará às manchetes dos jornais, mas pode gerar melhores resultados. Não precisamos necessariamente de medicamentos ou tecnologias revolucionárias; só precisamos de muito aprendizado sobre o que funciona e o que não funciona na prática. O aprendizado rápido a partir da experiência será fundamental.

O grande desafio da abordagem das “várias pequenas soluções” é que ela exige ampla participação e cooperação da sociedade, bem como o empenho ativo por parte das instituições dos setores público e privado. Por exemplo, a grande maioria da população deve estar disposta a realizar uma mudança de comportamento: sempre usar máscara em público, lavar as mãos religiosamente, evitar sair quando estiver doente, atender o telefone quando acionado por um profissional de monitoramento de contatos sociais, concordar em obedecer às regras de quarentena voluntária, utilizar aplicativos que ajudam a identificar pontos críticos etc. As empresas devem estar dispostas a adotar novos horários de expediente, novos arranjos de trabalho e novas maneiras de proteger trabalhadores e clientes. As escolas precisariam alterar horários e atividades para evitar grandes aglomerações. Os governos teriam de investir na limpeza extensiva dos espaços públicos e em uma infraestrutura de teste e monitoramento.

Uma grande vantagem da abordagem das “várias pequenas soluções” é que ela se presta a atualizações constantes e melhorias contínuas à medida que são disponibilizadas informações de melhor qualidade sobre o que está dando resultados e o que não está. Mas, para explorar essa vantagem potencial, precisamos de boas informações. Acima de tudo, precisamos de líderes capazes de responder a novas informações e convencer amplos setores da sociedade a se adaptar. Todos podem – e devem – ser inovadores nos dias atuais.

Muitas das coisas específicas que sugeri acima foram criticadas por vários especialistas por não serem suficientes. Concordo que nada do que mencionei acima vai ser o grande responsável por reverter a pandemia da COVID-19. Mas se considerarmos o impacto cumulativo dessas medidas, poderemos ver um progresso real muito antes do que o previsto. Podemos esperar o momento mágico em que herói chegará para salvar a pátria, ou podemos agir de imediato e da maneira que pudermos. Eu sei em qual filme da vida real eu quero estar.


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Gary P. Pisano é professor titular da cadeira Harry E. Figgie Jr. da faculdade de Administração de empresas e Diretor-associado sênior de desenvolvimento docente da Harvard Business School. Pisano é autor do livro “Creative construction: the DNA of sustained innovation”.

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