Reuniões

O enigma de Andre Agassi

Fernando Curado
17 de agosto de 2020

Aos 82 anos de idade e mais de 50 anos ininterruptos de vida corporativa, ainda me impressiona notar que observar como as pessoas se comportam, por vezes, passa a ser tão ou mais importante do que ouvir o que falam. Na tentativa de identificar materialmente o que falta de substância nas teleconferências que dominaram o mundo corporativo desde o início da pandemia, percebi como fui impactado pelo depoimento do tenista Andre Agassi, que acumulou por anos as maiores conquistas internacionais desse esporte. Em uma frase, com rara felicidade, ele sintetizou o que me incomodava: as reuniões por vídeo não permitem a constatação de tiques corporais que informam a real intenção do interlocutor (a exemplo de expressões reprovadoras ou troca de olhares com significado oculto). Ou seja, empobrecem a leitura da linguagem corporal. A manifestação de Agassi está nas redes sociais, em depoimento curto e incisivo. Automaticamente, a cena descrita por ele me fez lembrar como, em filmes sobre gângsteres, tiques quase microscópicos de canto da boca do capo mafioso informam sobre o assassinato iminente de um suspeito de traição ou um desafeto.

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Em seu vídeo, Andre Agassi conta que ao longo dos anos perdia sistematicamente suas partidas contra o ultra campeão Boris Becker. Resolveu então estudar os vídeos das partidas do temível adversário e, depois de muita observação, notou que Becker dava indicações de sua estratégia de saque por meio de um movimento de sua língua. Agassi testou a observação e as hipóteses foram confirmadas. A partir de então passou a usar esse conhecimento em momentos críticos das partidas, passando a vencer a maioria delas.

COMO ERA. Todos chegaram mais ou menos na hora. Alguns discutiram o que havia ocorrido no negócio na manhã daquele dia. Outros estavam concentrados na leitura das últimas mensagens de Whatsapp ou e-mail. A reunião, como sempre, começou com apresentação de um relatório em PPT, projetado na tela da sala de reuniões. Enquanto a projeção avançava, um levantou para tomar café, outro esticou as pernas, houve conversa paralela, até que a discussão sobre os temas da apresentação fosse tratada. Nessa reunião específica não houve soco na mesa nem discussão vocal mais forte.  Claramente, haviam diversos níveis de interesse e atenção. A troca de olhares ocorreu em mais de uma ocasião.  E com repetição desse quadro geral, a reunião prosseguiu até chegar a seu fim. Prevista para duas horas, acabou levando as costumeiras três horas e meia, muito por causa de discussões paralelas. Analisando em retrospectiva o que havia acontecido, notei que os rabiscos de um e o movimento do corpo de outros indicaram quem estaria mais nervoso, mais agitado, mais concentrado. Refletindo sobre o que havia presenciado, ficou a nítida para mim a impressão de que temos na equipe pessoas mais e menos comprometidas, e que a eficácia da reunião é aumentada pela avaliação geral de como as pessoas se comportam nela.

COMO É AGORA. A conexão estava à disposição na hora marcada e todos se conectaram quase que imediatamente. As introduções se restringiram ao bom dia geral, e muitos desligaram logo seu microfone. A tela foi compartilhada e a apresentação foi feita com todos focando nos temas apresentados. Via apenas os rostos e parte do tórax de cada um. Não conseguia acompanhar o movimento das mãos. Os bilhetinhos foram trocados por mensagens de Whatsapp, bem mais sorrateiras. Notei que poucos se levantaram, não houve serviço de café. Como muitos falando simultaneamente em teleconferência cria uma grande confusão, cada um falou no seu devido momento. As conclusões e decisões foram obtidas com mais eficiência do que no modelo anterior de reunião presencial, a reunião, programada para duas horas, durou  duas horas. Todos mais focados, sem distrações. Contudo, fiquei mais cansado, mesmo sem ter saído de casa.

Vamos pensar como era o ambiente de reunião antes da Covid-19 ou do advento das  teleconferências.

  1. Visão ampla do outro – como se senta, como usa os braços e a mão, como se mexe na cadeira, como respira, nível de concentração nos temas em discussão.
  2. Visão completa do ambiente, principalmente das interações entre os diversos participantes, inclusive das trocas de olhares.
  3. Possibilidade de conversas paralelas e múltiplos oradores simultâneos gerando alarido. 
  4. Avaliação do nível geral de tensão do encontro.
  5. Foco sempre em quem era ou deveria ser o orador principal do momento.

Descrição do ambiente de teleconferência.

  1. Visão restrita do outro – dificuldade para ver como os braços e as mãos estão sendo usados.
  2. Perda da visão geral do ambiente (aliás não há ambiente). Menor interação entre participantes, redução ou eliminação) de conversas paralelas, até porque continuam pelo smartphone . 
  3. Maior foco na discussão.
  4. Melhor organização da ordem das falas.

A forma antiga de reunião criou hábitos de avaliação em cada um de nós. Mais do que isso, estabeleceu padrões individuais de análise do outro – mesmo com sistemas excelentes, até a questão da voz fica um pouco distorcida.

Duas teorias, não independentes, sobre a razão do cansaço: teleconferência obriga todos os participantes a ficarem mais focados no tema em discussão; não há distração paralela para você descansar.

A restrição de ambiente da teleconferência faz com que cada participante perca parte da aquisição de informação com que trabalhava anteriormente. A reunião presencial permite que cada participante veja os demais de forma mais completa. Nosso sistema de aquisição de informação, acostumado em ver o todo, registra movimento de mãos, postura corporal, o nível de interesse do participante e muito mais.

Na reunião por teleconferência, grande parte dessa informação não é adquirida. Nesse sentido, passamos a ter de analisar as reações dos demais participantes por uma nova forma, com indicadores diferentes dos anteriores. Estamos em processo de adaptação a uma nova forma de trabalho on the job.

A tese é que nossa tendência é tentar compensar o que se perdeu, buscando novos indicadores para substituir o que foi perdido. Isso exige tempo e esforço. Alguns indicadores não poderão ser substituídos e novos terão de ser criados. E outras observações precisarão ser feitas.

Precisamos ampliar o escopo da história de Agassi para nosso cotidiano pandêmico, mudar nossa forma de participar de reuniões virtuais. Perdemos informação visual, não vamos mais recuperá-la, já que reuniões por vídeo passarão a fazer parte de nossa prática, e teremos de inovar nas modalidades de percepção.

Minha tendência atual é não tentar ligar o que vivíamos e com o que vivemos. É criar rotinas de análise baseadas nos fatos à nossa disposição. O que temos para observar é rosto, expressão facial e entonação de voz. Se tivermos controle sobre o ambiente físico, devemos buscar uma iluminação que permita aos demais participantes boa visualização de nossa pessoa. O som também deve ser cuidado – conexão, velocidade etc. O futuro pós-pandemia dirá que fatores prevaleceram e irão, de verdade, se incorporar ao nosso cotidiano.


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Fernando Curado é fundador da F. Curado Governança e Sucessão, ex-diretor do Grupo Ultra e ex-CEO da Probel.

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