Gestão pessoal

Os benefícios de reservar um tempo para a autorreflexão (mesmo que seja um pesadelo para você)

Jennifer Porter
30 de junho de 2020

Quando as pessoas ficam sabendo que sou coach executiva, sempre perguntam quem são meus clientes mais difíceis. Líderes inexperientes? Líderes seniores que acham que já sabem tudo? Líderes que intimidam e menosprezam os outros? Líderes que fogem da responsabilidade?

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A resposta é: nenhuma das opções acima. Os líderes mais difíceis de aconselhar são aqueles que não refletem – principalmente os que não refletem sobre si mesmos.

Posto da forma mais simples, refletir é pensar de maneira criteriosa. Mas o tipo de reflexão que é realmente valiosa para os líderes é mais sutil do que isso. A reflexão mais útil envolve o exame consciente e a análise de convicções e ações cujo objetivo é o aprendizado. A reflexão dá ao cérebro a oportunidade de fazer uma pausa em meio ao caos, desembaraçar e classificar observações e experiências, considerar diversas interpretações possíveis e criar um sentido. Esse sentido se transforma em aprendizado, e pode, então, embasar atitudes mentais e ações futuras. Para os líderes, essa “criação de sentido” é crucial para seu contínuo crescimento e desenvolvimento.

Uma pesquisa realizada por Giada Di Stefano, Francesca Gino, Gary Pisano e Bradley Staats em call centers demonstrou que os funcionários que passavam 15 minutos no final do dia refletindo sobre as lições aprendidas tiveram um desempenho 23% melhor após 10 dias do que aqueles que não refletiram. Um estudo realizado com trabalhadores do Reino Unido que utilizam o transporte diariamente encontrou resultados semelhantes, observando que aqueles que utilizaram o trajeto para pensar e planejar o dia eram mais felizes, mais produtivos e menos fatigados em comparação aos que não o fizeram.

Então, se a reflexão é tão útil, por que muitos líderes a ignoram? Em geral, eles:

  • Não entendem o processo. Muitos líderes não sabem como refletir. Ken, um executivo com quem trabalho, confidenciou recentemente que não tinha cumprido – mais uma vez – seu compromisso de passar uma hora nas manhãs de domingo refletindo. Para ajudá-lo a superar essa barreira, sugeri que ele reservasse os próximos 30 minutos da nossa sessão de duas horas e apenas refletisse em silêncio, para depois fazermos uma avaliação. Após cinco minutos de silêncio, ele disse: “Acho que não sei o que você quer que eu faça. Talvez seja por isso que não tenho refletido”.
  • Não gostam do processo. A reflexão exige que os líderes façam várias coisas que normalmente não gostam: desacelerar, adotar uma atitude mental de curiosidade e “esquecer” o que sabe, tolerar a confusão e a ineficiência e assumir responsabilidades pessoais. O processo pode levar a insights valiosos e até descobertas – além de sentimentos de desconforto, vulnerabilidade, resistência e irritação.
  • Não gostam dos resultados. Quando um líder reserva um tempo para a reflexão, em geral ele vê maneiras de ser eficaz, além de coisas que poderia ter feito melhor. A maioria dos líderes é rápida em descartar os pontos fortes e desprezar os pontos fracos apontados. Alguns assumem tal atitude defensiva durante o processo, que não aprendem nada; nesses casos, os resultados não são úteis.
  • Assumem um viés em relação à ação. Como os goleiros no futebol, muitos líderes têm um viés em relação à ação. Um estudo de goleiros profissionais defendendo pênaltis observou que, aqueles que se posicionavam no centro do gol, em vez de se lançarem para a esquerda ou direita, tinham 33% de chance de defesa; porém, eles permaneceram nessa posição apenas 6% das vezes. Os goleiros se sentem mais úteis quando “fazem alguma coisa”. A mesma coisa vale para muitos líderes. A reflexão pode lhes dar a impressão de estarem parados no centro do gol, deixando de agir.
  • Não conseguem ver um bom Retorno Sobre o Investimento (ROI). Desde o início, os líderes aprendem a investir onde podem gerar um ROI positivo – resultados que indicam se a contribuição de tempo, talento ou dinheiro surtiram um efeito positivo.  Às vezes, é difícil ver um ROI imediato no ato da reflexão, principalmente quando comparado a outros usos do tempo de um líder.

Se você já se flagrou utilizando essas mesmas desculpas, pode se tornar mais reflexivo seguindo alguns passos simples.

  • Identifique algumas questões importantes. Mas não as responda ainda. Aqui estão algumas possibilidades:
    • O que você está evitando?
    • Como você está ajudando seus colegas a alcançar objetivos?
    • Como você não está ajudando ou até dificultando a evolução deles?
    • Como você pode contribuir para aquele relacionamento de trabalho menos proveitoso?
    • Como você poderia ter sido mais eficaz em uma reunião recente?
  • Selecione um processo de reflexão que corresponda às suas preferências. Muitas pessoas refletem escrevendo em um diário. Se isso lhe parece apavorante, mas acha que conversar com um colega é melhor, considere essa saída; contanto que você reflita de fato e não apenas converse sobre o último evento esportivo ou reclame de algum colega, o método fica a seu critério. Você pode ficar sentado, andar, pedalar ou ficar de pé, sozinho ou com um parceiro, escrever, conversar ou pensar.
  • Agende um horário. A maioria dos líderes utiliza uma agenda para se orientar. Portanto, reserve esse tempo de reflexão e empenhe-se em cumpri-lo. Se você se pegar tentando cancelá-lo ou evitá-lo, reflita sobre isso!
  • Comece com algo simples. Se uma hora de reflexão parecer demais, tente dez minutos. Teresa Amabile e outros pesquisadores observaram que o principal elemento capaz de gerar emoções positivas e motivação no trabalho é fazer progresso nas tarefas mais imediatas. Empenhe-se em fazer progresso, mesmo que ele pareça pequeno.
  • Mãos à obra. Volte à sua lista de perguntas e as explore. Aquiete-se. Pense. Considere diferentes perspectivas. Considere o oposto do que você pensou inicialmente. Faça um brainstorm. Você não precisa adorar ou concordar com todos os seus pensamentos – apenas pense e examine sua maneira de pensar.
  • Peça ajuda. Para a maioria dos líderes, a falta de vontade, tempo, experiência ou habilidade pode atrapalhar a reflexão. Considere trabalhar com um colega, terapeuta ou coach para lhe ajudar a reservar um tempo, ouvir atentamente, pensar junto e lhe atribuir responsabilidades.

Apesar dos desafios à reflexão, o impacto é claro. Como Peter Drucker disse: “Após uma ação eficaz, reflita com calma. Da calma da reflexão surgirá uma ação ainda mais eficaz.”


Jennifer Porter é sócia-diretora do The Boda Group, uma empresa de liderança e desenvolvimento de equipes. É formada pela Bates College e pela Stanford Graduate School of Business, experiente executiva de operações e coach para executivos e  equipes.

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