Psicologia

Por que você sente tanta falta dos amigos

Gillian Sandstrom e Ashley Whillans
10 de julho de 2020

O Iphone sobre a mesa tocou. Ashley deu um suspiro. Após três semanas lidando com o sentimento de tristeza e estresse, o primeiro pensamento dela foi “O que há de errado agora?”

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Excepcionalmente, essa mensagem de texto não era de um cliente ou aluno ansioso, mas de um conhecido que escreveu: “Ashley, como vai você?” Tenho pensado em você e seu parceiro durante esse clima de Covid-19. Espero que vocês estejam bem!” Ashley ficou com os olhos cheios d’água. Ela precisava dessa preocupação mais do que imaginara. E foi uma surpresa agradável ter notícias de um colega com quem não conversava há um tempo.

Talvez haja algo a se aprender advindo dessa mensagem repentina de um conhecido. Podem as rápidas checagens fornecer algum meio para satisfazer a nossa necessidade de conexão social, sem fazer da socialização um dever durante este tempo emocionalmente exaustivo?

O poder surpreendente dos laços fracos

Um número crescente de pesquisas sugere que há benefícios surpreendentemente poderosos ao se fazer contato com conhecidos casuais – relacionamentos que os sociologistas chamam de “laços fracos.”

Gillian começou a estudar os laços fracos depois de perceber como era bom ser reconhecida pelo dono do carrinho de cachorro-quente pelo qual ela passava no caminho para o campus todos os dias, ou quando Barry, dono do pet shop, perguntava sobre seu gato pelo nome. Sua pesquisa constata que as pessoas são mais felizes nos dias em que dizem um “oi” para um colega no corredor ou têm uma conversa rápida com um vizinho no supermercado. Em um outro estudo de Gillian, as pessoas que receberam o pedido para utilizar seu modo pessoal ao fazer uma compra numa cafeteria, sorrindo, estabelecendo contato visual ou interagindo de forma sincera com o barista, sentiram-se 17% mais felizes e mais conectadas socialmente do que aquelas que receberam o pedido para serem “eficientes”.

Com certeza, nossos amigos e família – nossos laços fortes – nos dão apoio quando estamos deprimidos e nos fazem sentir valorizados. Os laços fracos também podem causar essa sensação. Não é só nos filmes que as pessoas recebem apoio social do cabeleireiro. Percebemos que somos notados quando um garçom dá um sorriso ao nos ver e sabe o que costumamos pedir. Na verdade, nossas interações com os laços fracos costumam ser sutis, uma vez que, em geral, nos comportamos bem com pessoas que não conhecemos. Relacionamentos de laços fracos nos propiciam interações de curta duração, pouco dispendiosas e informais que, em geral, apresentam informações novas e diversificação social. Como resultado, normalmente esses momentos nos fazem ficar agradavelmente surpresos.

Os laços fracos durante a Covid-19

Num dia normal, as pessoas interagem com laços fracos, algo como entre 11 e 16 vezes quando estão indo para o trabalho, fazendo as tarefas do dia a dia ou durante um intervalo entre reuniões no escritório.

Por conta do distanciamento físico, essas interações tão comuns foram erradicadas e não mais recebemos sinais físicos de que somos parte de uma rede social mais abrangente. Quarenta e cinco estados emitiram variações das medidas para ficar em casa. Quando arriscamos sair para comprar itens essenciais ou fazer uma caminhada, vemos rostos parcialmente escondidos atrás de máscaras e nós, definitivamente, não temos permissão para interagir. Em países como a Itália, você pode ir para a prisão por conta dessas conversas, antes inofensivas.

Uma vez que as interações de laços fracos não estão acontecendo de maneira espontânea, é preciso iniciá-las. Entretanto, não estamos acostumados a isso e pode parecer um pouco estranho. Para falar a verdade, até mesmo antes da Covid-19, não fazia parte da nossa tendência natural conversar com laços fracos. Isso acontecia porque não tínhamos a certeza de que a outra pessoa teria algum interesse, e temíamos que tais conversas pudessem gerar desconforto. Felizmente, esses receios são infundados. Quando as pessoas recebem a tarefa de conversar com os laços fracos e pessoas desconhecidas, essas conversas são mais prazerosas e fluem melhor do que o previsto.

Sendo assim, como podemos superar os medos excessivos e criar interações positivas e informais com os laços fracos? Eis aqui cinco estratégias com embasamento científico:

1. Utilize modos informais de comunicação

Ligações telefônicas podem parecer invasivas, e os e-mails parecem impessoais. Em vez disso, tente fazer contato com um “laço fraco” por mensagem de texto ou Facebook. Isso fará com que a outra pessoa responda quando puder; portanto, não é preciso se preocupar se está fazendo contato em um momento inapropriado.

2. Não espere uma resposta.

Quando se faz contato com um laço fraco, os índices de rejeição são baixíssimos – em um dos estudos da Gillian, menos de 12% das pessoas que conversaram com desconhecidos foram rejeitadas. No entanto, durante a pandemia, muitas pessoas estão aflitas e podem não responder.

Caso você não obtenha uma resposta, não leve para o lado pessoal. Lembre-se de que a razão pela qual você está fazendo contato com um laço fraco é para mostrar que está pensando nele. Reformule suas expectativas: pense nessa interação como se fosse sorrir para um colega no corredor. Você saúda e diz um “oi” para a outra pessoa. Talvez vocês conversem um pouco, mas caso isso não aconteça, não há problemas.

Em vez de esperar uma resposta, fique feliz em saber que sua mensagem provavelmente trará um pouco de felicidade e, talvez, como aconteceu com a Ashley, fará diferença no dia de alguém.

3. Espere uma conversa breve e simples.

Seu objetivo é fazer com que a outra pessoa saiba que você está pensando nela, dando a oportunidade para uma conversa caso ela queira conversar. Não há problemas se a conversa for breve. Nos dados recentes que um de nós coletou, uma conversa “de bom tamanho” com uma pessoa desconhecida seria de cerca de dez minutos. Ao saber que você só dispõe de poucos minutos, essa estratégia deixa os dois livres, e ajuda você a não ter a sensação de que a socialização é uma obrigação sem fim.

4. Entre em contato com as pessoas que marcaram seu passado.

Expressar gratidão é uma forma poderosa para melhorar o estado de espírito. Se você teve um colega que o inspirou, ou um mentor que deu excelentes conselhos de carreira, diga-lhes que está pensando neles, ou fale com aquela pessoa com quem você se divertiu muito, mas que perdeu contato.  Ambos irão gostar dos momentos nostálgicos.

5. Fale de algo pessoal.

Se não souber o que escrever, revele algo particular sobre você, como a foto de um animalzinho ou de um filho fazendo algo bonitinho e/ou engraçado. Compartilhar algo pessoal ajuda na construção de um relacionamento positivo e estimula a reciprocidade.

Baseie-se nas estratégias de laços fracos para os laços fortes também.

Agora que as nossas interações sociais estão restritas aos laços fortes e marcamos um horário para fazer uma chamada de uma hora e/ou combinamos uma noite de jogos para passar tempo juntos, corremos o risco de ficarmos esgotados. De acordo com dados que coletamos para o período pós-Covid-19, concluímos que, quanto mais tempo as pessoas passavam online interagindo com colegas e amigos, mais estressadas se sentiam.

Conforme os dados sugerem, interações sociais com hora marcada são exaustivas. Não só isso, elas não funcionam para todos. Pessoas em diferentes fusos horários, que têm uma conexão de internet de má qualidade e que estão conciliando os afazeres de casa com as responsabilidades do trabalho, podem não ter tempo para meios formais de comunicação que requeiram agendamento, como compromissos familiares ou happy hours obrigatórios da empresa.

É possível adaptar o caráter informal e a espontaneidade das interações dos laços fracos para ajudar a nos manter conectados enquanto diminuímos o risco de burnout. Atualmente, as melhores interações sociais são aquelas que informam aos outros que você está pensando neles, sem ter a expectativa de retorno de tempo, energia ou atenção.

Se ao estudar os laços fracos nos ensinou algo, é o fato de que precisamos colocar a autocompaixão em prática. Podemos não ter energia para ligações com duração de uma hora e meia todos os dias. Isso é perfeitamente aceitável.

O melhor estudo mostra que até mesmo poucos minutos escrevendo uma mensagem é o suficiente para melhorar seu astral e espalhar alegria na sua rede social – talvez até mais do que faz o interminável jogo Pictionary.

Pode ser que estejamos deixando de fazer interações de laços fracos neste momento, mas temos o poder de criá-los. Um “olá” informal para um colega ou para a sua mãe está somente a um clique de distância.


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Gillian Sandstrom é palestrante sênior em psicologia na University of Essex. Sua pesquisa atual se baseia em como tornar conversas difíceis um pouco mais fáceis (ex.: falar sobre câncer, aborto natural, luto) e como estimular as pessoas a conversar com estranhos.


Ashley Whillans é professora assistente na área de Negociação, Organização e Mercado da Harvard Business School. Seu estudo se baseia em tempo, dinheiro e felicidade. Seu primeiro livro “Time smart: how to reclaim your time & live a happier life” será publicado pela Harvard Business Publishing em outubro de 2020.

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