Gestão pessoal

Quais perguntas você ainda não fez sobre este “novo normal”?

Cláudia Danienne Marchi
5 de agosto de 2020

Revisitando lembranças sobre experiências e aprendizados, diante do momento inédito que vivemos com a crise do coronavírus, voltei a quando fiz um curso em Harvard, e uma das principais lições, tal como uma mentoria, era o valor do método de estudo de caso: a importância da formulação de perguntas, que tem que ir muito além da formação, aliada à inteligência em provocar questionamentos plurais que levam a diferentes reflexões. Estratégia atemporal para chegar a resultados, através de diferentes caminhos. A jornada para chegar às evidências, ensina muito mais que simplesmente obter uma resposta pronta.

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Então, quais perguntas você ainda não fez sobre este “novo normal”?

Uma primeira reflexão interessante é investigar as origens de nosso desconforto. Elas são inúmeras e muito pessoais, mas proponho aqui uma perspectiva corporativa. Passamos pelo menos a última década com alto nível de proximidade com experiências do cliente, personalização de abordagens, relacionamentos vis-à-vis estimulados. É razoável inferir que toda essa evolução e proximidade a que nos habituamos potencializa ainda mais o senso de isolamento e de impossibilidades.

Mas nada neste momento é simples. Estamos afastados, mas a tecnologia consegue reduzir a sensação de isolamento mesmo sem interação humana. A imprevisibilidade atormenta o cotidiano com medos, angústias e incertezas, mas ao mesmo tempo inúmeras positivas lições estão sendo aprendidas e disseminadas. É, sem dúvidas, um momento paradoxal.

Novas competências foram desenvolvidas ou afloradas, como a compaixão, a empatia, a resiliência, a comunicação eficaz. Traumas com perdas, falta de propósito, escassez de oportunidades e de perspectivas também fazem parte deste grande mosaico. Qual é o seu momento paradoxal? Quais perguntas você ainda não fez?

Um novo comportamento para o novo normal

Além das dificuldades clássicas para uma retomada, como evasão de investidores e retração do mercado, a crise do coronavírus traz consigo um desafio extra. Diante da pandemia e do isolamento social, não basta atrair investimentos ou conquistar um novo mercado. É preciso mudar a forma como trabalhamos, produzimos e nos relacionamos. Ou seja, precisamos mudar o nosso comportamento e a forma como questionamos o presente e o futuro!

É fato que estamos vivendo uma crise sem precedentes. Relatório divulgado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) estima que a pandemia do coronavírus vai levar a economia mundial a registrar em 2020 o pior desempenho desde a Grande Depressão em 1929. Seguindo com a projeção do órgão, o PIB global deve recuar 3% este ano.
Então, independente do continente, vivemos um momento de dúvidas de curto, médio e longo prazos em diferentes campos do saber. Mas não podemos ficar paralisados.

De volta para o futuro

CK Prahalad e Gary Hamel, em seu livro clássico e atemporal “Competing for the future”, já sabiamente estimulavam como ter disciplina e inquietude para questionar muito além do seu negócio hoje. Exemplos como Jeff Bezos, da Amazon, e Steve Jobs, da Apple, tangibilizam a técnica do “Future-Back” – literalmente do futuro para trás, ao invés do “present-forward”, do presente para frente.

Em vez de considerar o que funciona hoje para fazer planejamentos, o Future-Back nos convida a criar livremente o futuro, sem as amarras do presente. Elaborado o cenário, é hora de arregaçar as mangas para viabilizá-lo.

A técnica pode ser aplicada na criação de produtos, no desenvolvimento de serviços, nos modelos de gestão, na inteligência processual e em qualquer setor do negócio. Desnecessário dizer que, sob esta técnica, Apple e Amazon são reconhecidas mundialmente como cases admiráveis de boas práticas e marcas sucessivamente nos últimos anos com grande valor de mercado.

Como estará o seu negócio em 2025? Você pode se perguntar como sair hoje como sobrevivente da crise? Ou, como manter no amanhã as oportunidades que a crise trouxe ao seu business? Eu sei que é difícil elaborar uma visão de negócio neste contexto atual, mas são tarefas complexas e desafiadoras que legitimam a liderança. É preciso olhar para o futuro com visão estratégica.

Chunking: o futuro é um mosaico

Outra técnica adotada por muitos líderes é o chunking, que, desdobrado da psicologia cognitiva, consiste na junção de partes de informações armazenadas em nosso cérebro através das vivências, aprendizados, experiências moldando um mosaico de probabilidades que parecem ser “quase” cenários intuitivos. Em uma crise sem precedentes, o chunking pode ajudar a desenhar o futuro com base em vivências anteriores ressignificadas pelo olhar de hoje.

Então, devemos nos questionar: a rotina das nossas práticas de gestão já foi repensada para o mundo pós-covid ou continua mais do mesmo? A educação de nossos filhos já compreende a educação integral ou é o mesmo de sempre? O negócio já foi redesenhado e incrementado para a sociedade que emerge diante de nossos olhos? E nosso comportamento já apresenta as atitudes que o novo normal exige de nós?

De Voltaire, filósofo e escritor francês, ícone do movimento Iluminista na França, a Peter Drucker, pai da administração moderna, considerado um dos mais importantes e influentes nomes da gestão mundial, a lição é: fuja das respostas prontas e convencionais. Estimule perguntas – provoque-as e as faça.

Warren Berger em seu livro “A more beautiful question: the power of inquiry to spark breakthrough ideas”, instiga a adotarmos os seguintes questionamentos em tudo na vida: “Por quê?”, “E se..?”, “Como?”. Parece para você óbvio, simplista demais? Mas você tem esta atitude estratégica de questionar o amanhã sem perder o foco no hoje?

Adotar o método (seja com perguntas simples ou complexas) para desenhar o negócio e fazer disto uma cultura corporativa, inclusiva, heterogênea, multidisciplinar na formulação e nas respostas, levará a resultados exponenciais.

Aqui, a arrogância do saber não tem espaço. Perguntas devem ser percebidas como gatilhos de melhoria contínua. Portanto, acolha um questionamento com humildade e encorajando muitos outros a fazerem. Hábitos incorporados viram comportamento. Viram cultura efetiva!

Em nossa atual realidade, somos todos testemunhas de que mudar padrões comportamentais pode ser possível e o exemplo bem familiar de todos nós é o home office, que teve que ser instaurado para muitos sem o detalhado planejamento prévio. Simples não é, porém, podemos analisar que está sendo administrável e segundo pesquisas mercadológicas, mais de 60% da população que vivencia a experiência aprova a medida e grandes empresas já colocaram em suas políticas como forma permanente ou até o final de 2020.

Então que perguntas você ainda não fez sobre este novo normal para a sua vida em diferentes dimensões, não apenas a profissional? Sim, tenha em mente a dimensão espiritual, a financeira, a qualidade de vida, a laboral … questione e faça escolhas.

A psicóloga e economista canadense Sheena Iyengar, autora do livro “The art of Choosing”, aponta através de pesquisas que ao longo do nosso dia, costumamos fazer cerca de 70 decisões, desde que roupa usar, o que comer, até cenários complexos. Ela nos faz refletir com o conceito de que “o valor da escolha depende de nossa habilidade em perceber a diferença entre as opções”. Então, não deixe para amanhã seus questionamentos, atos e escolhas.

“Por mais que você encontre dificuldades pelo caminho, não desista. Saiba que o campo da derrota não está povoado de fracassos, mas de homens que tombaram antes de vencer.” – ABRAHAM LINCOLN


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Cláudia Danienne Marchi é sócia e CHRO da Degoothi Consulting, especialista em cultura corporativa, desenvolvimento de lideranças e recursos humanos.

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