Dados

Você está exigindo demais do seu Chief Data Officer (CDO)?

Thomas H. Davenport e Randy Bean
27 de maio de 2020

Desde que o primeiro chief data officer foi nomeado na Capital One em 2002, esta função está envolvida em muita confusão com relação ao seu objetivo. Embora os levantamentos em grandes organizações, conduzidos pela empresa de Randy – NewVantage Partners – mostrem um aumento significativo em sua popularidade, houve um aumento de 12% em 2012 para 68% em 2018, com uma pequena queda em 2019 — as responsabilidades de um CDO ainda não são claras. No levantamento mais recente, apenas 28% dos participantes concordou que o cargo é “bem-sucedido e estabelecido’’.

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Anteriormente, quando a maioria dos CDOs trabalhava apenas em grandes instituições financeiras, suas tarefas mais comuns eram norteadas pela “defesa’’: envolviam a segurança, a privacidade, a qualidade e conformidade regulatória dos principais dados. Entretanto, essas tarefas são difíceis de serem avaliadas, exceto em sua ausência ou quando há a quebra ou a violação de uma delas, e as empresas desejam cada vez mais ter benefícios mais agressivos em relação aos seus dados — melhores tomadas de decisão, marketing, serviço de atendimento ao cliente e monetização.

Hoje em dia, os CDOs em geral têm objetivos diversos, porém poucas vezes há um consenso sobre qual é o mais importante. Além disso, alcançar diferentes objetivos pode exigir competência e experiências muito diferentes. Muitos terão dificuldade para ter êxito em tudo aquilo que esperam que eles façam.

O mais recente levantamento conduzido pela NewVantage ilustra bem este problema: Pesquisados deveriam responder — mais da metade deles, CDOs — qual é o principal atributo de um CDO bem-sucedido em sua organização. Alguns dizem que sua empresa quer um agente de mudanças que venha de fora (a resposta mais comum e a que mais cresce), outras querem um veterano ou alguém de dentro. Algumas querem um executivo da linha de frente dos negócios que seja responsável pelos resultados, outras preferem um executivo de tecnologia, e outras, ainda, querem alguém com os atributos de um cientista de dados ou de um líder de analytics. Você pode achar que deveria existir um consenso que um CDO é responsável primordialmente por dados — no entanto, muitos anos de pesquisa mostram que isso só se aplica a 40% das empresas.

Em decorrência desta falta de entendimento, percebemos que os CDOs permanecem em seus empregos por curtos períodos de tempo — em muitas empresas, apenas dois ou três anos, especialmente em áreas como a de serviços financeiros onde dados são a força vital da organização. A falta de clareza da função e as expectativas inalcançáveis são com certeza, outros fatores para esta curta permanência.

Sete trabalhos diferentes

Entender o que uma empresa espera de seu CDO e, então, aliar competências a essas expectativas, pode ser a resposta para uma permanência mais longa, mais eficaz a e mais agradável do profissional na companhia. Ao pesquisar sobre CDOs e suas tarefas durante a década passada, identificamos sete tipos de funções que exercem – cada uma diferente o suficiente entre si – o que torna difícil ou impossível para uma só pessoa desempenhar bem todas elas. Quando contratados, muitos CDOs desconhecem qual a combinação das sete devem desempenhar, e avaliações de desempenho formais podem não deixar claro em qual das sete ele está sendo avaliado. Um deles, depois de rever os sete tipos de tarefas, escreveu em um e-mail, “Sou avaliado em todos as sete, mas só recebo crédito por aquelas voltadas à ofensiva”.

As primeiras três funções descritas abaixo são principalmente voltadas à ofensiva; as últimas quatro são mais defensivas. Logicamente, alguns CDOs usam uma combinação destas funções para exercer seu trabalho.

1. O Chief Data e o Analytics Officer

Os CDOs nesta função administram a ciência de dados, analytics e por vezes, a inteligência artificial em suas empresas. Organizações em todos os ramos de atividades, inclusive a General Motors, Walmart, Chase Bank, Partners Healthcare e a MetLife têm CDOs com este tipo de responsabilidade – uma função que se torna cada vez mais comum.

A supervisão da gestão de dados, da ciência de dados e analytics em uma função é uma combinação razoável, já que dados são o ingrediente-chave para o sucesso do analytics e da IA. O analytics possibilita que organizações usem os dados de forma agressiva; modelos analíticos podem ajudar a encontrar consumidores, otimizar cadeias de suprimentos e a melhor tomada de decisões em recursos humanos. Tudo isso ajuda a criar valor para os CDOs. Um deles, que cuidava do analytics e de outras funções falou, “Em algumas das variáveis da função de CDO é simplesmente impossível de fazer progresso visível. Graças a Deus que eu posso contar com o analytics”.

Profissionais deste tipo precisam ter experiência em aplicar a matemática, técnicas de analytics e de IA para resolver problemas de negócios. Precisam estar, também, familiarizados com os diversos ambientes de tecnologia da informação que respaldam o analytics e a IA, como as ferramentas open source – por exemplo, a Hadoop, que serve para armazenar big data. Especialmente com a inclusão da IA, a ciência de dados se tornou uma área de negócios cada vez mais complexa e dinâmica, e os CDOs focados nesta função geralmente têm muito pouco espaço para outras responsabilidades.

2. Empreendedor de dados

Um objetivo cada vez mais comum para os CDOs é monetizar dados — seja com a sua venda direta utilizando-os para produtos e serviços baseados em dados e analytics, ou para gerar novos negócios com eles. A indústria automotiva, por exemplo, tem interesse em monetizar veículos conectados; a General Motors lançou uma grande iniciativa nesta área. Empresas de software estão empenhadas na captura e monetização de dados decorrentes dos processos comerciais gerados por seus programas. Empresas online já monetizam dados que são vendidos para uso em publicidade direcionada. Das empresas que pesquisamos, entre 11% e 13% dizem que seus CDOs têm alguma responsabilidade na geração de receita.

No entanto, independentemente de algum sucesso e popularidade da monetização de dados na teoria, isso pode ser algo muito desafiador de se alcançar. Empresas que vendem produtos tangíveis acham difícil mudar sua vocação e passar a vender dado e, tanto os consumidores como as empresas estão cada vez mais preocupados com a propriedade e o uso dos dados que ajudam a gerar. Os CDOs, na função de empreendedores, consideram que esses problemas se tornam parte de sua competência.

Apesar de certamente apoiar os CDOs no desenvolvimento de produtos e serviços inovadores relacionados a dados, esperamos que, para a maioria deles, isso seja um foco secundário e não, um objetivo principal. De qualquer forma, fazer este trabalho exige que o CDO tenha experiência no desenvolvimento de negócios, monetização de ativos e no desenvolvimento de novos produtos e serviços. Tais atributos não são facilmente encontrados em combinação com as outras competências que um CDO precisa ter.

3. Desenvolvedor de dados

Dada a necessidade de o CDO gerar valores tangíveis, alguns tomaram a dianteira no desenvolvimento de aplicativos chave ou de recursos de infraestrutura que possibilitem que façam essa entrega. Muitos deles, por exemplo, buscaram criar data wharehouses ou data lakes para suas empresas. Para os CDOs de orientação analítica ou de IA, o aplicativo deve refletir esse foco (O processo de aprovação de empréstimos com base em IA seria um exemplo disso). Para os outros, pode ser algo de natureza mais transacional. No Citizens Bank, por exemplo, a chief data officer (Ursula Cottone, agora atuando como CDO no Huntington Bank) liderou a implementação do software de processo de automação para otimizar o back office.

Enquanto o desenvolvimento de aplicativos é tradicionalmente uma responsabilidade do chief information officer, alguns projetos de desenvolvimento podem especificamente demandar muito conhecimento sobre dados e, com isso, são uma função do CDO. Na divisão do Morgan Stanley’s Wealth Management, por exemplo, Jeff McMilan, chief data e analytics officer, liderou um projeto para a construção de um sistema chamado “o seguinte melhor passo”, uma ferramenta de recomendação de investimentos para clientes

Desenvolver sistemas de qualquer tipo é uma função que exige muito, que demanda experiência em diversas áreas da tecnologia da informação, em agile e outros métodos de desenvolvimento, em trabalhar bem com os stakeholders, e integração com sistemas e processos.

4. O defensor de dados

Manter os dados protegidos de qualquer tipo de invasão, fraude ou ataque, e convencer os agentes reguladores de que a empresa estava cumprindo as regras de proteção de dados foram as razões mais comuns pelas quais o papel do CDO foi criado em empresas de serviços financeiros nas décadas de 1990 e 2000. Este papel defensivo dos CDOs diminuiu de importância ao longo do anos — não porque a segurança dos dados se tornou menos importante, mas porque outras funções, como por exemplo, a de chief information security officer (CISO) foram criadas para cuidar disso. Ainda assim, em nossa pesquisa mais recente, 45% dos executivos de dados afirmaram que seu principal papel como CDO é defensivo.

Ainda existe muita pressão relacionada à proteção de dados, principalmente nos serviços financeiros. Um CDO da área bancária nos disse: “Tento manter o equilíbrio entre ofensiva e defensiva de maneira equilibrada, mas a pressão é toda em relação às atividades mais defensivas.” Os auditores e o Conselho Diretor em geral fazem pressão por esse papel mais defensivo em um CDO. No entanto, nosso argumento é que a “defesa do dados’’ é uma tarefa de liderança em tempo integral, e seria melhor que estivesse sob a responsabilidade dos CISOs. Se o CDO se encarregar disso, ele ou ela não conseguirá entregar muita vantagem competitiva ou benefícios de negócios gerados por dados.

5. Arquiteto de dados

Há uma longa tradição no uso de métodos orientados à arquitetura ou engenharia para criar melhores ambientes de dados — ou seja, com menos duplicação e fragmentação — e alguns CDOs lideram esta atividade em suas empresas. Atualmente, estes esforços estão muitos concentrados em assegurar que os principais dados da empresa estejam agregados, limpos, formatados de maneira consistente e prontamente disponíveis para toda a organização. No entanto, esses programas tendem a ser custosos e demandam muito tempo, e muitos executivos de negócios não percebem seu valor. Quando são cancelados, a permanência do CDO na empresa pode terminar junto com eles.

Algumas empresas pedem a seus CDOs para elaborar iniciativas consideráveis de modernização de dados. Isso geralmente significa migrar de data warehouses para data lakes, e pode incluir também o uso de abordagens baseadas em IA para a integração dos dados. Escrevemos sobre este tipo de esforço conduzido na unidade de P&D da GlaxoSmithKline, liderada por Mark Ramsey, o CDO naquela época. Ainda assim, apenas 6% dos entrevistados em nosso último levantamento dizem ter uma “arquitetura de dados moderna” — a maioria tem uma mistura de sistemas e formatos de dados herdados e novos.

6. Governador de dados

Outra função importante do CDO é elaborar programas de “governança de dados’’. Este cargo geralmente implica em contratar gerentes de negócios de nível médio e seniores para serem responsáveis pelos domínios de dados relacionados aos seus processos de negócios, como por exemplo, encarregar o CMO de supervisionar todos os dados de marketing e apoiá-lo em seu trabalho. Quando dá certo, esta iniciativa pode ser muito eficiente para alinhar os programas de dados às estratégias de negócios e metas. Contudo, normalmente é difícil convencer os gerentes de negócios a dispender seu tempo e atenção com problemas de gestão de dados. Um CDO nos contou, “Eu ainda tento envolver o pessoal de negócios, mas nunca uso a palavra ‘governança’ — de certa forma, ela se tornou ameaçadora.’’

CDOs focados em governança precisam ter a habilidade de construir relacionamentos e estabelecer confiança. Precisam, também, entender a relação entre a necessidade de dados e a estratégia de negócios da empresa. É muito difícil encontrar esta combinação de “orientação a dados e mudança organizacional/de negócios” em uma única pessoa. Empresas cujos CDOs têm muito foco em governança incluem as de serviços financeiros: Citigroup, Charles Schwab, UBS e PNC.

7. Ética dos dados

Provavelmente o foco menos frequente do trabalho de um CDO, mas que está crescendo em popularidade, é na ética da gestão de dados, especialmente sobre como são coletados, guardados e compartilhados, e quem controla tudo isso. Não há dúvidas que consumidores, agentes reguladores e legisladores estão cada vez mais preocupados com o mau uso de dados. Se um CDO tem a responsabilidade de gerir os dados, obviamente que sua função precisa ter foco na ética. Algumas empresas, principalmente fornecedores de TI e algumas empresas de serviços financeiros, estão criando a função de Chief Ethics Officer, que pode absorver esta tarefa do CDO.

Um bom exemplo de um CDO focado em ética é o da Mastercard, onde este cargo é ocupado por JoAnn Stonier. No passado, ela ocupou o posto de chief privacy officer na empresa, como também na American Express, e a privacidade de dados e ética eram os principais focos de seu trabalho. A Mastercard desenvolveu uma “Obrigação de Responsabilidade de Dados’’ e Stonier planeja implementar seus princípios na empresa. Esses princípios incluem segurança e privacidade, transparência e controle, responsabilidade, integridade, inovação e impacto social positivo. Ela é formada em Direito, o que pode ser um positivo para este foco em ética (embora essa formação não seja comum entre os CDOs). Apesar de a orientação em ética ser um tanto rara hoje em dia, esperamos que aumente com o passar do tempo.

Muitos papéis para um CDO

É claramente muito difícil que uma pessoa desempenhe de forma eficiente todos esses papéis tão diversos uma vez que requerem experiências e competências diferentes. Isto nos leva a crer que, claramente, as empresas precisam escolher que tipo de função de CDO faz mais sentido para elas. A escolha também define a hierarquia de reporte ideal para o CDO; pode ser melhor para um arquiteto de dados se reportar ao chief information officer, por exemplo, enquanto funções com maior foco em analytics podem se reportar a outras diretorias, no caso ao CAO, caso exista um na empresa. Todos estes trabalhos devem ser feitos por alguém; portanto, se não forem da responsabilidade do CDO deverão ser entregues a alguém, em alguma outra função na sua empresa. Já que atualmente existem tantas funções diferentes relacionadas aos dados em uma empresa — chief information officer, chief data officer, chief digital officer, etc. — deixar claro quem faz o que é uma necessidade. Nossa perspectiva é que o número de vagas para CDOs continue crescendo nas empresas, mas isso só será bem-sucedido se suas funções forem especificadas com clareza.


Thomas H. Davenport é o President’s Distinguished Professor de Gestão e Tecnologia da Informação no Babson College, pesquisador convidado no MIT Initiative on the Digital Economy, e conselheiro senior na Deloitte Analytics. É autor de mais um dúzia de livros de gestão, os mais recentes, Only humans need apply: winners and losers in the age of smart machines The AI advantage.


Randy Bean é o CEO é sócio gerente da consultoria NewVantage Partners. 

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